domingo, 17 de maio de 2015

MAGA



As vezes em que eu voltei e você estava à minha espera
eu voltei trazendo menos do que levara
Não por maldade ou por extraviar os presentes
com os quais você se veste e dividiu comigo
Mas porque longe
onde não tem abrigo e o excesso é tambor
a ferrugem desceu escada abaixo: é sujo o que não prega
Você que ficou e agora rasga a minha pele
vasculha onde o ferrão cresce
Não vê que ele derrete e
nada mais fere

Ana Barros
Natal, 12 de abril de 2015.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

NAMORADEIRA



Nenhum jovem hoje sabe o que vem a ser "alisar banco", termo abusado por pai zeloso da honra da filha, bem como odiado por casais enamorados décadas atrás, cuja obrigação de casar era determinada pela boa ou má intenção do rapaz, avaliação que o pai da moça fazia de acordo com o tempo gasto no banco. Se percebia que o futuro genro estava com enrolação, ou seja, “alisando banco”, cuidava de dar um prazo para que cassassem logo ou, do contrário, caísse fora. E assim, mal completava 14, 15 anos, jamais chegava aos 18 sem um pretendente, a jovem, para não ficar “falada” nem ser chamada de “moça-velha”, tinha que acolher, se não a vontade do namorado apressado para ter a posse de uma mulher, a escolha apressada do pai, que não admitia filha “encalhada” dando despesa e o que falar à vizinhança. A minha geração (1960) está entre as primeiras a romper com o banco, já alisado além da conta por castos e românticos amantes. Começava aí outra história, mais livre e com menos culpa. Era a época dos hippies, Beatles, “paz e amor”, da liberdade sexual, pelo menos na Europa e Estados Unidos. Por aqui tínhamos a versão nativa com a jovem guarda, estilo do qual vi os meus irmãos mais velhos e seus amigos fazerem parte. A minissaia tornou-se o inferno na minha casa. Todos os dias meu pai ameaçava cortar com a faca o minúsculo vestido da minha irmã. Meu irmão resolvera não mais cortar os cabelos, usava calças boca de sino, sapato cavalo de aço e ouvia rock. Alisar banco em casa de pai brabo e casar à força? Nunca mais.  Um pouquinho mais adiante, final dos anos sessenta, e toda a década de 1970, as relações sensuais entre homem e mulher haviam mudado bastante.  A sala de visitas agora é do aparelho de TV e de duas espreguiçadeiras onde os donos da casa cochilam e assistem novelas enquanto os filhos estão na rua. Dessa época ficou a lembrança gozada do “sarro” tirado na porta da igreja, no escurinho do cinema, na árvore da praça, ou no canto do muro da casa onde os pais dormiam. Claro, escondido. Estes, agora “civilizados” por terem deixado a roça e mudado com a família para a cidade, vigiavam de longe com os olhos na hora e a mão na chibata. Mas isso é assunto para outra crônica. Voltemos ao banco. Pois bem, era regra incontestável o namorado chegar cedo da noite na casa da amada, coisa das sete horas, e ficar na sala de visitas de frente para os pais da moça até o momento em que o dono do pedaço começava a bocejar e resmungar. A dona da casa, cansada das tarefas diárias e da incômoda vigília, pois sabia por experiência a agonia que é namorar sem achegar, contava mais de dez cochilos quando o pêndulo do relógio da parede dava 21 batidas. O rapaz levanta da namoradeira, alisa as calças, pega o chapéu, dá boa noite e some no pé do vento.

Ana Barros
Natal, 04 de maio de 2015.


quinta-feira, 23 de abril de 2015

A ÁRVORE DO AMOR



Há uma estética popular em nomes de acontecimentos, eventos e objetos que chamam a atenção pela importância, sentido e beleza que expressam e afirmam aos olhos da comunidade. A árvore do amor, fincada na praia da Barra de Maxaranguape, é um desses achados plenos de signos, a começar pelo abraço das duas velhas gameleiras que, na fúria do vento, se enlaçaram para proteger uma a outra. Da união secular das raízes e galhos, nativos e visitantes sentiram-se no lugar das gameleiras e a elas deram romantismo e o desejo de encontrar um grande amor, este, tão forte, eterno e divino como é o acasalamento dos galhos sob sol, chuva, vento, marés altas, marés baixas e todos os desafios creditados ao tempo, este senhor soberano que dá com a mesma ironia que tira. Mas aqueles que vão ao encontro da Árvore do amor pouco ou nada os incomodam o tempo e suas traquinagens. Basta chegar próximo às raízes expostas das duas árvores para perceber que a magia e a esperança ainda continuam valores exaltados pelos amantes do amor-paixão. É com a convicção dos crédulos que todos os galhos, finos e grossos, são amarrados com fitas de todos os tipos e materiais. Diz a lenda que quem faz um pedido de amor às gameleiras amantes e amarra-lhes uma fitinha, logo terá o desejo realizado. Um dos companheiros da excursão que nos levara até Barra de Maxaranguape, disse que com ele deu certo. Há um ano havia amarrado uma fita num dos galhos e não demorou estava casado. Porém, a experiência havia fracassado e ele agora corria para se livrar não só do laço mas também do nó, o que fez com grande alegria e respeito ao gesto que representava o seu divórcio com a natureza. Apesar do momento solene capaz de fazer recuar qualquer um em direção ao amor, ninguém se deixou levar pelo amigo malogrado. E foi assim que cada um dos companheiros do passeio catou ali mesmo no chão algo que pudesse amarrar o seu pedido de amor. Valia saco de supermercado, barbante, cadarço do tênis, corda, lenço, pedaço da roupa, cipó, galho seco e até, na falta de outras alternativas, pois não havia mais lixo para garimpar, um pedaço de fio dental. Eu não quis ficar de fora do ritual dos doidos de amor e, feito um Dom Quixote de saias tecendo loas ao seu bem amado diante de um pau e da vastidão do mar, deixei na Árvore do amor o meu pedido amarrado com algo tão real quanto os moinhos de vento do Cavaleiro da Triste Figura.

Ana Barros
Natal, 22 de abril de 2015.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

A FEIRA, O MANGAIO, A JORNALISTA E A BOLSA DE CAÇADOR




                                          Para Chico Potengy e Aristoteles Pessoa Pessoa

A feira é dinâmica como tudo nesta vida de consumo líquido. Por isso se adequa aos materiais descartáveis para durar pouco. Mas nós, com um pé cá no mundo chinês das porcarias de plástico reciclado não se sabe qual procedência, e outro pé lá atrás, na memória de um tempo que não nos larga por coisa alguma por ser a nossa identidade, temos olhos para encontrar o que os contemporâneos dados apenas às novidades e facilidades tecnológicas não enxergam. Frequentar feiras populares é ainda uma das poucas aventuras a que podemos nos dar o luxo de vivenciar em dias de ruídos infernais e de poluição visual, cuja multiplicidade de objetos e cores nos deprime e angustia se a eles deixarmos escravizar.
Não só a feira aproxima com seus feirantes nômades e felizes, com os quais mantemos laços de camaradagem jamais encontrados nos mercados das grandes cidades, como também nos encantam os armazéns de mangaios onde encontramos tudo o que guardamos na memória de um tempo cheio de dificuldades e fadigas próprias de um momento de transição entre o rural e o civilizado.
O mangaio de Dequinha, em Jaçanã (RN), é um desses espaços convidativos que tenho o hábito de, toda vez que passo em frente, entrar, olhar e pegar os artigos rústicos que ele, como todo mangaieiro que ama o seu ofício, faz questão de exibir para amantes como eu do que permanece eterno e essencial apesar de estigmatizado e esquecido pela moda atual.
Na Semana Santa estive em Jaçanã e aproveitei a ocasião para mais uma vez visitar Dequinha. Entro e deparo-me de imediato com a linda bolsa de caçador pendurada no teto. “Vinte e cinco reais”, diz a vendedora e mulher do dono da loja. Pechincho: “faz vinte?” “Não, é vinte e cinco mesmo.” Pago a bolsa e saio tão feliz quanto no meu tempo de estudante de jornalismo. Sou da geração de Jornalistas que adoravam ser reconhecidos pelo visual largado e estilo inconfundível do texto. A bolsa de lona rústica amarela pendurada entre baladeiras, lamparinas, gaiolas, pega-brasa, panelas de barro, pavios e uma infinidade de utilitários, era um convite ao passado da moça que viera do interior para a capital e permanecera com a mesma estética do simples que a faz ainda jovem, jornalista e deslumbrada.

Ana Barros
Natal, 08 de abril de 2015.


domingo, 5 de abril de 2015

A CASA DE OLHOS VAZADOS

O vento rasgou a cor e
as camadas sobrepostas expõem a
pátina que forja matiz e fantasma
onde antes vinha Aurora  
Sem mais pudor e sem guarda
a intimidade escara
Mas quem passa não se comove
com não ser e coisa morta
A casa de olhos vazados
de vagar morre

Ana Barros


quinta-feira, 2 de abril de 2015

OS SANTOS AMANHECERAM TRISTES E COBERTOS



Há algo que ainda hoje chama a minha atenção na Semana Santa: os santos amanhecem na quarta-feira de trevas cobertos, da parede ao oratório, com panos negro e roxo. Aliás, a partir de hoje, quarta-feira, era norma não chamar palavrão, exagerar na gula, varrer a casa, pentear os cabelos e ser feliz, isso incluía dançar, comer carne, beber cachaça e fazer sexo. Quebrar as regras era pecado horrível. Diziam os mais velhos que se tomássemos banho nesse dia entrevaríamos. Confusão feita entre as trevas da paixão, morte e páscoa, com entrevar, ficar paralítico. E assim, a molecada e os idosos que não apreciavam o banho, misturavam seus cheiros de quaresma com o odor ardido de peixes e algum naco de bacalhau que, não hoje, mas lá atrás, tanto a iguaria da "Noruega" quanto o Queijo do Reino, aquele das cumbucas de lata que, vazias, os mendigos usavam para esmolar nas feiras, sempre apareciam na mesa de algum pobre. Em casa de meus pais tínhamos os dois, uma vez no ano. Mas, voltando às imagens austeras com suas faces cobertas para evitar o humano demasiado humano, gostava de ver o efeito causado pelos panos de renda, mantilhas ou seda translúcida descidos sobre os ícones. Mais tarde lendo A Casa dos Mortos, de Dostoiévski, reencontrei nas imagens piedosas no presídio, imagens filtradas por uma réstia da telha sobre o rosto de um enfermo, a mesma luz inclinada a deixar ainda mais melancólico o ritual cristão na sala pobre da minha casa. Jamais me interessei em saber o porquê daquele cenário. Jamais tive interesse em saber lições doutrinárias. O que eu queria era só contemplar, e sentir, o efeito da luz que atravessa o véu ressalta, e ao mesmo tempo dissimula, semblantes tão tristes e humanos quanto os rostos desfigurados na dor e resignação dos personagens russos, nem um pouco diferente dos nossos encarcerados de todos os tipos e prisões.

Ana Barros
Natal, 01 de abril de 2015.