terça-feira, 27 de março de 2018

Um pretérito perfeito


Acabou... Quem já não experimentou a sensação de liberdade, de finalmente... ao dizer esta simples palavra? Quantas vezes dizemos acabou! e que sonoridade terrível contém esse pretérito perfeito ao estancarmos suas sílabas com espaços miúdos, nervosos, inflexíveis. Entretanto, a paixão arde apenas para satisfazer este instante que todos nós sabemos, nunca deixa de ser surpresa.
A-ca-bou! é diferente de acabou... O primeiro é dilacerante, passional, morte. Dói dizer, fere quem ouve. Mas é uma necessidade de tudo aquilo que se inicia.  Pois não representamos o mesmo ato em cenários diferentes dezenas, centenas de vezes? É necessário! Nossa condição instintiva e móvel exige a repetição daquilo que nos inquieta (bem ou mal), até a consumação, seja pelo esgotamento natural do sentimento, seja pela quebra brusca e violenta da ação. Mesmo que nos interstícios de nossos atos abusemos do imperativo acabou pensando anular o sentimento causado pela experiência, não adianta, pois só o tempo dará cabo das ramificações da ilusão.
Os amantes, somente os amantes, conhecem esta sutileza dos sentidos. Nunca se cansam de repetir acabou! para logo em seguida recomeçar tudo de novo como se fosse a primeira vez.
Há sem dúvida os senhores de si que quando dizem "acabou!" acabou mesmo. São de comportamento inflexível, duros, tirânicos. Chegam ao paroxismo da virilidade, orgulham-se de ser imunes à vulnerabilidade das paixões. Prudentes, desfazem-se com rapidez e sem grandes traumas dos incômodos da sedução que, para os apaixonados, são a própria existência.
São esses práticos de espírito sempre equilibrado para quem a dúvida não conta na escalada do tempo. Têm solução para tudo que ameace a sua segurança. E se acabou, para eles não há ressurreição, Fênix. Para estes fortes, a experiência passou por longe não chegando sequer a causar um arranhão capaz de fazê-los esquecer por um segundo as convicções nem sempre sensatas.
Mas para aquele cuja vontade varia de acordo com o termômetro interno da necessidade, a verdade só chega depois de múltiplas viagens pelo território nebuloso da incerteza até um dia, cansado da batalha, esgotado da experiência, mas já endurecido pela repetição do ato que se tornou pensamento e não mais vontade, dizer, sem rancor e cheio de uma calma indiferença, acabou.

Ana Barros 

Natal, 01/07/2000

quarta-feira, 21 de março de 2018

Cigarra


Havia se passado tanto tempo que eu disse
“morreu no labirinto”
O verme – que retorna e rói minha certeza
Eu, que carreguei o animal ladeira acima
Que corri ladeira abaixo
Que vomitei as vísceras
Enfiei-me no chão com as cigarras
Eu, que limpei ao vento alto
Que larguei a pele morta
Que bebi na luz a gota de horror
Dormi abraçada a sonho bom
Mas a noite alheia à carniça e Náusea
Entornou mais uma vez
No oco do pau a cigarra canta

Ana Barros
Natal, 11/03/2018.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Retrato pintado

Sou ainda da geração de filhos e netos dos retratos de família emoldurados na parede. Molduras redondas de gesso e coloridas de acordo com o gosto do cliente. Lembro sempre das marrons e verde-oliva. Onde estariam aqueles vestidos lindos e ternos de gala? Jamais vi um dos meus familiares com outra roupa senão aquelas comuns do dia a dia na lida do roçado, ou com aquela única da missa de domingo. Mas todos nas foto-pinturas trajam roupas de festa. As mulheres, sóbrias, de vestidos de cor neutra e sem estampa, ostentam joias no pescoço e orelhas. No cabelo, um broche segura os cachos em cascata. Os homens, além de bigodes e costeletas pretas, cabelo emplastrado com alguma brilhantina, trajavam paletó, camisa branca e gravata, pintados pelo foto-pintor. 
A edição de novembro de 2017 da revista ZUPI traz uma bela reportagem sobre "A memória pintada no retrato". Foi através dela que fiquei sabendo que os foto-pintores da época, de posse de seus equipamentos, batiam a porta do cliente e perguntavam se tinha alguma fotografia que gostaria de pintar. Sim, havia. Mas a pessoa na foto estava velha... Isso não era problema, a nova foto sairia com a idade desejada do cliente. Aí estava o charme da foto pintada, tão atual quanto as produzidas com os recursos digitais de hoje. Durante o processo, o foto-pintor diminuía a idade de acordo com o solicitado. E é devido a esses artifícios que eu achava estranho meu avô de cabelos e bigodes pretos, fisionomia de quarentão na foto pintada, quando já se avizinhava dos 70 na foto preto e branco que servira de modelo.
Hoje encontrei o poster pintado e a foto original de minha avó paterna, Francisca Barros. Na primeira ela aparenta ter 30 anos. Mas olhando a segunda, a que foi modelo, daria uns 50 anos a minha vó. Gosto das duas imagens. Alegra-me saber que somos vaidosos desde sempre. Damos muita importância à nossa imagem, seja nas paredes internas da casa, seja na tela do computador. E se possível, sem rugas nem "bigode chinês". O que, vale observar, desaparecem na foto pintada de Francisca Barros. Resultado que alguns artistas tratam de hiper-real.

Ana Barros
Natal, 07 de março de 2018.



Hoje ganhei xananas


Corro na pracinha. Dia sim, dia não encontro os amigos ao longo do passeio de dois mil metros quadrados. Amigos, todos, conquistados e deixados ali mesmo, perto das árvores, como eu também sou deixada. Seu Lamuel é um deles, já é bem idoso, mas faz suas caminhadas e é o responsável solitário pelo plantio de muitas árvores, frutíferas e não, do espaço. Há dois meses aluguei dele a casa na qual moro atualmente e encontrei um pedaço de chão à minha espera, cheio de matinhos e graminhas cultivados por ele. Pois não é que Seu Lamuel ama e protege o mato! Mas não me espantei: eu também gosto de mato. Me mudei e passei a contemplar as daninhas da janela da cozinha com o mesmo respeito que se deve ter por qualquer vegetação nativa. Em pouco tempo aquele espaço sem cimento passou a ser habitat das lagartixas gordas que passeiam por todos os cômodos da casa sem me incomodar, nem sujar. E o meu senhor dono da casa captando que somos semelhantes, perguntou-me alguns dias atrás: "você gosta de xananas?" "Sim!", respondi interessada. "Pois vou deixar umas pra você plantar no jardim." Até então não sabia que alguém plantava muda de Xanana, a flor oficial de Natal que nessa época de chuvas cobre canteiros e beiras de calçadas de lençóis da florzinha albina. Seu Lamuel planta, e acha elas lindas e quer dividir o seu prazer estético com a nova inquilina. E hoje, Dia internacional da mulher, ao abrir os portões dei de frente com o ramalhete de xananas que o senhor atento à flor, para a qual poucos se dão o trabalho de olhar antes de meter a enxada em suas raízes, havia enfiado pelas grades. Jamais recebi presente tão encantador, e de um senhor cujo interesse é tão somente partilhar comigo a graça de ser belo e comum como é a flor de Xanana.

Ana Barros
Natal, 08/03/2018.



domingo, 4 de março de 2018

Profana


a tarde caiu quente
(e sem alma)
abismo frio que esconde
um sol sem filtros a olhar
longe do altar de aliança e juras
o rito que diz à carne:
profana porque é drama

Ana Barros
04/03/2018


Escultura Sagrado/profano
Vitor Escaleira