segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Bibiana

Amarrava a máscara atrás das orelhas quando os três vagabundos se aproximaram de mim: “bom dia, Bibiana... tamo indo pra Tapera beber todas! ”, apressou-se em dizer o mais alegre com o sorriso picotado de cacos podres. Não respondi. Bastava ver nossos pés e cabelos para adivinhar que a palavra era desnecessária.  Porém a cumplicidade não ia além do visual e da camaradagem que tinha com aqueles homens roídos por pulgas e em busca de prazer. Diferente deles eu tinha família, pesadelos e medo de morrer. O trio continuou no caminho da felicidade e eu em direção à Rua da Pedra onde encontraria algo para comer. Voltei rápido: mamãe me vigiava de olhos duros e frios da janela eternamente aberta. “Beber todas!...”, repetia minha cabeça tomada daquele desejo vadio. Abri o armário e avancei na garrafa de uísque de mamãe. Tomei o primeiro trago. O segundo. O terceiro...
“Suba! ” “Agora não! ”, respondo com raiva à voz que me dá ordens suspensa na parede de frente para a escada. Saio apressada e atravesso a rua em direção à feira. Três vagabundos passam por mim bêbados e felizes. Pedem dinheiro: “Vamos beber no Pássaro Azul”. Só pelo nome, “Pássaro Azul! ”, estendo uma nota de 10 reais e me afasto com o pensamento no que eles carregam no saco imundo e cheio até à boca: “só pode ser alguma coisa que promete felicidade sem hora de acabar”. Volto com a bolsa cheia e infeliz. Ao pegar a caçarola no armário para cozinhar as batatas dou de cara com a garrafa de uísque de mamãe, que não mais acordou do último porre... peguei um copo e tomei a primeira dose, a segunda e a terceira. Senti uma cócega abaixo do umbigo... “Alexia, toca um sambinha pra nós! ” Dancei acompanhada da quinta dose. “Por que nunca bebi? ”, pergunto a mamãe, que me observa com os olhos desbotados do retrato. “Se insistir interno você!”, ela me ameaça enquanto bebo a sexta dose acompanhada do refrão “Ser feliz no vão, no triz, é força que me embala” ...
Eu vou com vocês! ”, gritei descendo atrás dos vagabundos. “Bora! ”, respondeu o mais atrevido passando o braço coçado no meu pescoço. Deixei-me levar... O uísque secou mal demos dois goles: “essa merda é água, quero cachaça! ”, exigiu o líder do grupo espatifando a garrafa vazia no poste. Comprei um litrão. Meus companheiros tinham sede. Eu também. De repente o pensamento desapareceu e o mundo encheu-se de grandes bocas banguelas e bêbadas. Foi assim que entramos na festa e nos juntamos a outros vagabundos no que restou da casa abandonada em que costumávamos nos reunir para “beber todas”. Um dos homens acendeu a fogueira e despejou o saco de cheiro podre no chão, agarrou uma tripa branca de vermes e sapecou no fogo. Comemos os pedaços ainda crus com cachaça compartilhada no gargalo. Eu era a única vagabunda naquele banquete em que beber na garrafa e comer carnes podres nos levava ao paraíso. O dia havia amanhecido já ia dar sete horas. O celular repetia sem parar “vagabundo também ama” quando uma garrafa se espatifou nos meus pés. Assustada peguei o papel amarelo de velho no bolso da saia que dizia, “VOLTE NO TREM DAS SETE!", escrito assim mesmo. Faltavam cinco minutos. Corri levando um pedaço de tripa feito tornozeleira pelos rapazes que ficaram para trás entre alucinações e sobressaltos de felicidade...
“Bom dia, menina!, disse o homem quase beijando a minha orelha. “Tem um fósforo que me arranje? ” “Oh, não! ”, lamentei com a vaga impressão de que conhecia aquela voz. Parecia estar à espera de alguém há muito tempo, percebia-se pelo travesseiro e o cobertor dobrados sobre uma mala de couro muito grande. Junto dela, um livro de filosofia oriental que eu tinha visto em algum lugar...  A mala estava tão cheia que o fecho havia se partido e o dono arranjado um jeito de fechá-la com um fino colar de Pedras da Lua que eu jurava ter um igual. Tentei adivinhar o que tinha ali dentro: parecia carregar equipamentos de pintor, mas podia ser livros, roupas... roubos? “Será outro vagabundo? ”, sorri satisfeita já encontrando qualidades no desocupado de barbas longas, roupas muito velhas e óculos de grau grandes demais para o rosto ossudo. De repente, porém, mudei de ideia: “não será carne roubada para uma festa? ”, pensei sem desviar os olhos da mala e de seu dono, que acabava de encontrar o fósforo e tragava de pernas cruzadas um cigarro atrás do outro. Contei cinco antes do trem apitar. Corri para alcançar o vagão deixando para trás o homem e a mala. Ao me acomodar na poltrona, qual foi minha surpresa ao encontrá-lo já sentado bem do meu lado. Sorri para ele, mas ele não correspondeu. “É doido! ” Gostei ainda mais da ideia e fiquei feliz em dividir a poltrona com um doido já que alguma coisa me fazia sentir mais prazer a seu lado do que na companhia dos amigos bêbados. “Será a mala? ”, pensei tomada da agonia em adivinhar o que fazia com que ele continuasse ausente e de cabeça erguida no presente trepidante do trem. Cansada de fazer e desfazer suposições terminei adormecendo ao som triste e longo da buzina ...
“Raul! ”, gritaram vozes agudas vindas do alpendre para recepcionar meu companheiro de viagem. Contei seis mulheres. Ele entregou a mala a uma delas com um “bom dia, meninas! ”, em meio a beijos e afagos. Alguns minutos depois das boas-vindas elas perceberam a minha presença: “Bibiana, até que enfim! ”, disseram entre beijos e com a alegria de quem não me via há muito tempo. “Elas sabem meu nome! ”, pensei surpresa. A casa era coberta com telhas brancas e tinha sete ipês na frente. O movimento de um galho me pareceu esconder algo. Agachei-me para ver o que tinha ali além das árvores, mas nada havia senão folhas e galhos nutridos de verde. Na sala, uma mesinha com uma xícara me esperava: “é para você! ”, disse Raul me entregando o líquido verde com sabor de besouro que bebi de um gole só. Depois de alguns minutos senti meu corpo diminuir e duas asinhas rasgarem as costas. As outras mulheres também tomaram o líquido e passaram pela mesma transformação. Ficamos de frente para a mala aberta. E o que tinha lá dentro? Apitos! Nada mais que apitos.  A mala, que pensei carregar livros, telas, roupas ou carne roubada, estava cheia daqueles objetos barulhentos que desapareceram tão rápido quanto as cigarras nos galhos dos ipês. O sol já era das 17 horas quando começou o concerto, que não durou dez minutos de som estridente. Veio então o silêncio com os apitos mudos e as ninfas que se enfiaram terra adentro...
“Vicente! ”, eu disse abrindo os olhos algumas horas depois. Beijei os lábios do homem feliz e me aconcheguei em seu peito magro. Ele segurou minha cabeça e disse baixinho: “Você voltou...”. Nesse momento o trem ganhou velocidade e desapareceu montanha acima...

Ana Barros
Natal, 30 de maio de 2021. 


sexta-feira, 28 de maio de 2021

Cândida

O Senhor sabe que tento... venho aqui todos os dias! Há pouco Padre Severino, que conhece desde sempre a sombra dos meus pecados, aproximou a mão magra de minha cabeça e disse “tenha fé, minha filha!”  O que peço é tão pouco... Senhor, não me olhe com essa cara! Quando caí àquela vez, lembra? agarrei-me à Senhora de Cortona, mas o meu coração não acompanhou o dela... Logo esqueci os juramentos à bondosa santa que, se quisesse, e não tivesse experimentado como eu a agonia da carne, já teria me aniquilado com um raio. Pois bem, naquele mesmo dia de arrependimento aos pés da santinha eu acordei no quarto sujo e escuro aos gritos do homem que repetia “puta ladra sem vergonha cadê o meu dinheiro?” Inda com a cabeça tonta de cachaça, procurei as roupas jogadas no chão e saí correndo antes que a garrafa vazia partisse a minha cabeça. Ao abrir a porta de casa dei de cara com Sua imagem triste e benevolente pendurada na parede. Baixei os olhos envergonha e chorei até perder as forças. Lembra quando eu tinha quinze anos e João de Deus fez um menino em mim? Fui ao banheiro e lá rasguei o sexto mandamento... Dez anos atrás das grades... Mas naquela manhã de segunda-feira beijei todo mundo: eu estava livre... O capitão, homem bom, que de vez em quando pedia para brincar de cavalinho com ele, perguntou se eu queria um emprego em sua casa: “claro!”, respondi sem pestanejar. E melhor escolha não poderia ser. Brinquei com o capitão todos os dias em que a patroa saiu pra deixar as crianças na escola. As mulheres da vizinhança logo perceberam e passaram a me odiar. Olegário era o vigia noturno do quarteirão e, só de ouvir a mulher repetir que eu era uma vadia, que se afastasse de mim, se não..., levou o homem me puxar para trás de uns arbustos até sermos surpreendidos pela Ronda. Pra não ser expulsa da casa do capitão fui obrigada a dar um passeio com os quatro policiais da viatura. Não vou dizer que foi ruim... Mas como prova do meu arrependimento me entreguei à limpeza da casa com a culpa de quem é vigiada aí de cima... Fiquei de molho o tempo necessário para a carne voltar a ceder aos apelos que vêm de baixo... E era sexta-feira, o pagode chegou aos meus ouvidos. Vesti a minissaia vermelha, pintei a boca... “Cândida!” Era Zé Grandão.  Segurava o cigarro com uma mão e com a outra torceu um beliscão na minha bunda. Antes que eu gritasse ele tapou a minha boca com um beijo molhado: “gostosa!...”, disse no meu ouvido. Entramos no baile... Pediu duas pingas e bebemos de um trago. Repetimos várias doses... Dançamos umas dez vezes “Ai se eu te pego”... O malandro foi me apertando, me apertando, me apertando... até eu sentir que ia desmaiar...  as pernas ficaram bambas... Zé Grandão me puxou para trás da porta... Meus olhos reviravam quando alguém gritou “polícia!”. Voltei pra casa coberta com um dos panos das mesas. Minha mãe dizia ter certeza do meu futuro de artista, só porque eu gostava de desenhar florzinha no papel do pão. Morreu sem conhecer o meu futuro… rezo pra ela uma Ave Maria com o fervor de puta arrependida: “Ave Maria cheia de graça"... mal começo escuto chamar: “Candinha...”, era seu Emanuel... Me convidava para conhecer “a casa do Senhor” e, quem sabe, “ser a mais nova de suas ovelhas”. Pensei: “o Senhor cuida de mim... veio bater minha porta justo hoje...”.  Beijei as mãos de seu Emanuel com a devoção de filha. Ajustei o vestido cor de abóbora, presente de Angélica, filha do capitão. "Quero ver você na missa com ele!”, disse ela com a voz amolecida de quem conhece a estética solar das putas. Aliás, havia entre mim e ela algo de irmandade nos olhos... Várias vezes vi a afilhada da minha protetora entrar na ponta dos pés em seu quarto enquanto todos dormiam. Senhor... não franza a testa assim... Estou só repetindo o que é sabido aí em cima... Pois bem, não fui à missa naquele dia como queria a filha do capitão, mas ao culto com seu Emanuel. A igreja estava vazia e o silêncio profundo me afastou completamente do mundo. As portas e janelas estavam fechadas. Éramos os únicos ali entregues à atmosfera divina. Ajoelhei e coloquei a cabeça entre as mãos. Lamentei em voz alta. Depois de gritar e chorar de braços erguidos para o céu abri os olhos e vi que alguém se aproximava... Era seu Emanuel. Estava nu e me agarrou sem que eu resistisse. Trepamos debaixo da tristeza do altar. O culto já ia começar... Os fiéis com suas crianças barulhentas se agitavam na calçada. Nesse momento, pastor Emanuel, percebendo o avançado da hora e o perigo de sermos descobertos, gozou sem esperar por mim. Vestiu a roupa às pressas, escancarou portas e janelas e começou a me bater no rosto e a gritar para todos: “abandone este pobre corpo, Satanás. Volte para o inferno!”. “Irmãos”, continuou, “invoquemos ao Senhor eliminar o mal que se apoderou desta infeliz”, disse e chamou todos para auxiliar na missão. Não desconfiavam eles que o diabo estava ali e tinha as virilhas molhadas com o meu suor. Cheirassem o irmão Emanuel e saberiam que o capeta era real e não fedia a enxofre, mas às minhas entranhas. Depois de apanhar para expulsar o mal, alguns irmãos piedosos me levaram para fora do templo e me deixaram na calçada sob o olhar seco e impiedoso das irmãs que escondiam os filhos pequenos nas dobras das saias. Arrastei-me até a beirada do muro onde me apoiei e pude ouvir os irmãos repetirem diante do pastor ajoelhado: “glória a Deus! Aleluia! Aleluia! Aleluia!”. Corri até aqui e prometi à Senhora de Cortona nunca mais sair a não ser para o trabalho na casa do capitão. Porém, já tinha se passado duas semanas e Lourdes, a vizinha, me convidou para irmos ao piquenique na Praia do Amor. Vi que estava branca como leite. "O que faço: vou ou não vou?” Me lembrei da promessa..., mas a minha pele estava tão branca... Lembrei ainda do biquíni verde-limão ainda no saco... “Vou!!!” Arrumei a cesta com pães, frutas, carne assada, cigarros e a garrafa de pinga. Abri o bauzinho e escolhi as bijuterias da cor do sol, combinavam com o biquíni. Arrumei o arranjo do chapéu... “é sex”, disse um dia Joel, meu primeiro namorado, quando mentimos dizendo que íamos à missa, mas, na verdade, e o Senhor sabe... fomos fazer aquilo no monte de capim do curral. “Por que Joel agora?” “Ora essa!” Abri a mochila e arrumei bem apertadinho o óleo de urucum com amoníaco, deixava os pelos dos braços louros, a garrafa de pinga, o batom vermelho, o maço de Derby e a caixa de fósforos. Raspei-me toda. Às quatro da manhã o despertador alarmou, mas eu já estava de pé desde as duas. “Cândida!”, gritou Lourdes do outro lado do muro, “o ônibus chegou, apresse!”. Olhei-me no espelho pela última vez e gostei da imagem: short rosa ligadinho deixando o fio dental à mostra, tamancos verdes, chapéu com arranjo de flores... “está sex”, diria Joel. Acomodei-me com Lourdes no fundo do ônibus. A turma começou a batucar, tomar umas e beliscar minha bunda. Cantei, dancei, bebi, fui beliscada... quase perdi a voz. Fomos os primeiros a chegar. Procuramos a sombra de uma árvore e acomodamos as mochilas e as cestas com a comida. O mar num vaivém de ondas selvagens parecia existir só para aumentar o meu fogo. Percebi que todos haviam corrido para a água e eu estava completamente só entre coqueiros e pedras. Respirei o cheiro de ostras frescas... Joel dizia ser igual o meu... Por fim, tirei o short e a blusa e estirei-me na toalha vermelha. “Ah se Lourdes estivesse aqui pra passar o óleo...”. Porém, mal fechei os olhos de prazer quando senti a mão violenta rasgar o meu biquíni. Dei um pulo, fiquei em pé. Foi aí que vi Antônio do Terço pronto pra imobilizar-me. Ele era o beato responsável pelas rezas e passeios como aquele. Viera todo o caminho rezando com a mulher e a filha sem levantar os olhos das contas que deslizava entre os dedos sebosos que agora ele enfiava na minha boceta. Jogou-me no chão e trepou nas minhas ancas já entregues. Mas quando íamos gritar de prazer apareceram do nada a mulher e a filha. Partiram pra cima de mim e me bateram com murros e pedras. Os companheiros do piquenique, inclusive Lourdes, me abandonaram desmaiada e nua... “Oh, Senhor, piedade!...”

 

Ana Barros

18 de fevereiro de 2012 (reescrito em 28 de maio de 2021). 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Estômago

Criar nosso próprio negócio foi motivo de riso e satisfação na cozinha lá de casa. Riso e satisfação por ter o que comer na mesa rodeada de meninas e meninos de olhos grandes e famintos sobre as artimanhas do dono da casa: “mamãe, pai é um ladrão?”, perguntei ao ver o homem empurrá-lo porta a fora e gritar: “cabra safado!, ladrão filho da puta!”. Minha mãe torceu-me as orelhas com a raiva de quem acompanha de perto os negócios do marido e gritou com o dedo em riste: “seu pai é um santo, ouviu?”, berrou antes de jogar-me porta a fora. São muitas as crônicas retornadas no tempo de barriga cheia e olhos diminuídos na gordura da saciedade. É disso que mantenho o contentamento no bucho magro da invariável mistura “feijão com arroz” carregada no lombo do burro por meu pai graças à sua sagacidade para o negócio. Antes de contar algumas histórias de vizinhos semelhantes à nossa na arte da trapaça, cujo personagem central é o estômago, conto a minha engendrada por um homem dedicado a multiplicar níqueis dos outros, contudo, com talento nada desprezível para seus desregramentos monetários. Pois bem, sobrevivemos não dos trocados recebidos pelos serviços extenuantes prestados a senhores de grandes negócios, mas tão somente dos rolos que papai empreendia. Não à toa o chamavam de “enrolão”, “trambiqueiro”, “gatuno” e outros adjetivos não menos injustos com o homem cujo único desejo era encher a pança dos filhos. Foi assim que acompanhei dos seis aos doze anos ele tanger o burro carregado de dois sacos. Um, bem menor, era o pagamento em farinha pelo trabalho de forneiro noite adentro na Usina de mandiocas. O outro, três vezes maior, disfarçado num lençol velho para não dar na vista, “a recompensa merecida”, dizia-me com a voz amaciada na sua moral de educarEu respondia ao gesto agarrando-lhe a mão quente e gretada do rodo gigante, cujo vaivém havia torrado 100 quilos de farinha. Andávamos um quilômetro até o Armazém da prima Socorro onde arriávamos a carga. Conhecedora dos trambiques do primo ela aproveitava a oportunidade para lhe passar um pequeno sermão: “nada de cachaça, viu? Só comida pros meninos. Deus tá vendo!”, e olhava para cima com olhos de terror. Papai, em sinal de respeito, tirava o chapéu, inclinava a cabeça, benzia-se, balbuciava algo que nunca compreendi, e partíamos carregados de mantimentos: uma rosca doce pra mamãe e dois embrulhos de açúcar que meu pai, tão logo se afastava dos olhos bondosos da prima, trocava um deles pela garrafa de cachaça que o esperava na esquina. Mas vamos aqui a outras cozinhas semelhantes à da minha casa paterna na saciedade do estômago e esperteza de como enchê-lo:

─ Certa vez Zezão, filho do vendedor de mel de abelhas a quem mamãe recorria sempre que gripávamos, respondeu depois de minhas suspeitas anos depois sobre se o produto era realmente “puro”: “que nada! Desde papai colocamos calda de açúcar da metade pra baixo do frasco”, disse ele sorrindo ao abrir a garrafinha do provador: “tome... é puro... pra enganar!...”. Com a morte do velho, Zezão e os três irmãos passaram a gerir o negócio. Soube recentemente que o mais novo deles comprou um jipe importado e passou a distribuir mel em várias quitandas pelo interior do estado. Para despistar os fiscais, o empreendedor de mel, como agora é chamado pelos homens de negócios da moda, pega a estrada a meia noite com a mulher sentada ao lado que, vigilante feito um soldado louco, olha o tempo  todo para trás e dos lados, grita e atira pragas ao marido quando este joga o carro em buracos, atola em charcos, foge de suspeitos que muitas vezes não passam de mendigos esfomeados: "Ah, maldito,... que o diabo te carregue numa encruzilhada seu eu ainda voltar contigo!", dizia ela. Tão logo, porém, o empreendedor falsificasse outras garrafas de mel, lá estava ela de volta ao mesmo caminho incumbida da segurança da carga e do alerta caso avistasse ao longe o carro do fiscal

Jamais papai”, disse Rosinha batendo os olhos, "aceitou que nos chamassem de ralé." “Você sabia, Vicente, que temos tios ricos na Europa?” “Verdade?” “Sim!”, disse ela olhando para os lados. Como não avistasse ninguém prosseguiu na mentira: “papai era filho de francês!”. Pois bem, o pai de Rosinha arrebatava corações com a gabolice e a mala estufada de panos de seda, lenços, calcinhas de renda, meias finas, pós de arroz, colônias... A malandragem do caixeiro viajante era conhecida de todos, motivo pelo qual viajava a grandes distâncias da própria casa. Para se ter ideia de suas artimanhas, havia um comentário de que seu Quinino, como era chamado, estava de casamento marcado a alguns quilômetros e só foi impedido da aventura graças à visita repentina da mulher, grávida de Rosinha, a sétima flor – as filhas tinham todas nome de flor. Pois bem, o simpático senhor vendia perfumes e ruges para moças e senhoras que acreditavam nas fórmulas manipuladas na cozinha da família. “Aquilo é um safado”, disse mamãe à comadre ao lhe mostrar a caixa de pó facial comprada ao pai de Rosinha. Entretanto, esquecia ela que meu pai era igualmente um “safado”. De posse de incensos, corantes e farinhas encontradas em qualquer venda, seu Quinino enchia potes, vidros e latinhas com produtos cheirosos que seduziam até homens ansiosos por gomas para fixar os cabelos. As filhas o ajudavam a dar o toque final às gosmas à base de araruta, colorau e gotas do incenso conseguido no terreiro de dona Alexandrina (falo desta senhora mais adiante). Graças às vendas seu Quinino pode ver as filhas formadas em especialidades desenvolvidas na cozinha ou em algum cômodo da casa. Não obstante o ciúme das mulheres casadas, jamais se ouviu falar sobre o que faziam de verdade as flores de seu Quinino...  

─ Outro dia Júlia estava furiosa com a vendedora de açafrão da terra: “vou denunciar no Zap-Zap”, ela me confidenciou depois de fazer o teste e comprovar que o produto tinha mais pó de tijolo do que açafrão. “Hei?... pare! Esqueceu as safadezas de sua mãe pra encher o bucho de vocês?”, perguntei como quem sabe o valor real de um saquinho de açafrão misturado a alguma pozinho vermelho. “Outro dia vi você vomitar com o cheiro podre das galinhas que sua mãe vendia.” Cuspi longe e continuei: “Depois de mortas e sem as penas, você esfregava a bucha com sabão na pele fedida, escaldava em água fervendo, pilava os temperos e transformava as aves em iguaria disputada no Bar da Tetê”

Perto de nós morava um casal simpático, dona Tânia e seu Humberto, que havia adquirido um grande terreno no entorno da casa. Ali plantaram dezenas de pés de caju cuja carga era abundante em dezembro. Eles deixavam que chupássemos os frutos contanto devolvêssemos as castanhas: “Valem ouro”, ele dizia. Seu Humberto, assim como meu pai, vendia a mercadoria no armazém da prima Socorro. Certo dia, ao entrar de supetão na casa do casal pra devolver as castanhas, encontrei-o misturando um saco de pedras ao produto que seria pesado na mesma balança que pesava a farinha de meu pai. Seu Humberto deixava o armazém carregado de mantimentos sem que a prima Socorro, feliz por fazer negócio com alguém “tão distinto e sério!”, como fazia questão de lançar na cara humilhada de meu de pai, averiguasse o produto do homem de camisa de linho e cruz de ouro pendurada no pescoço.  

─ À beira do caixão de dona Alexandrina perguntei a Totonho por que sua mãe tinha os pés inchados. “Não sabe?”, perguntou surpreso.  “Não, não se!", respondi cinicamente. “Mãe ficou com os pés deformados de tanto pisotear no Terreiro. Castigo!”, julgou ele esquecendo ter sobrevivido graças aos trabalhos da Mãe de Santo, cujas performances, possuída por entidades, a enterravam aleijada e descalça uma vez que os pés não cabiam nos sapatos. Pois bem, entre os serviços oferecidos por dona Alexandrina a costura da boca do sapo era o mais requisitado por esposas ou amantes, no intuito de amarrar o seu homem. “Meu pai era encarregado de capturar sapo no mato, trazia o bicho e mãe cosia a boca dele depois de enfiar lá dentro a foto, cabelo, sangue, ou outro pertence dos amantes. O cururu era abandonado pra morrer longe... Dias depois, o resultado... A madame sempre ganhava da puta!”, lembrou com a saudade de quem foi agraciado por esposas de empresários ricos satisfeitas com o negócio: “Recebemos muitos presentes pelas amarrações...”. As sobras do dinheiro a boa senhora investiu na construção de imóveis para os “meninos”, como chamava carinhosamente os filhos. Soube, porém, que os malandros haviam feito negócio com o pastor recém-chegado do Rio de Janeiro. Apressado em acolher suas “ovelhas” num grande rebanho, o religioso demoliu as casinhas e ergueu ali o primeiro templo dos moradores que, até aquele momento, conheciam apenas os poderes da magia da “velha macumbeira, como passou a ser chamada a mãe de Totonho pelos antigos clientes, agora irmãos e fiéis do pastor: “Só ele tem poder pra afastar o demônio!”, disse em voz alta irmã Rosinha ao passar em frente à casa de dona Alexandrina, onde Totonho e os dois irmãos voltaram a morar depois de vender suas casas ao pastor. Os clientes, agora todos irmãos, voltaram-se contra a captura de sapos e as imagens de mãe Alexandrina, como a chamavam carinhosamente. Diante do novo empreendimento, os três irmãos voltaram-se para outro negócio mais lucrativo do que costurar boca de sapo que é coletar o dízimo no templo. A última vez que os vi estavam felizes por destruir com chutes, na presença da ira do pastor, os santos e patuás de dona Alexandrina: “aquilo era coisa de satanás!”, disse-me irmão Totonho com a Bíblia debaixo do braço. “Se vocês venderam as casas, quebraram as imagens, destruíram o terreiro... como vivem agora?”, perguntei. “Ora, ora!... esqueceu-se dos dois sacos de farinha de seu pai?” “Kkkkk...” “Kkkkk...” Nossa gargalhada ecoou na igreja lavada com os incensos de dona Alexandrina...

Ana Barros

Natal, 23 de março de 2021.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Cocada

 

Havia algum tempo não via Cocada, aliás, Dr. Geraldo. Entramos na faculdade no mesmo ano. Ele, psicologia. Eu, Letras. Com o diploma na mão desaparecemos no mundo dos normais e não mais nos vimos. Naquele dia, porém, esbarrei nele no corredor da clínica em que tinha consulta marcada para tratar uma úlcera: café e cigarro em dose alta. Tomei o cuidado de não chamá-lo “Cocada”. Ficaria furioso, por motivos óbvios. Ficamos felizes com o encontro e terminei levado por meu amigo à sala em que atendia: era psicoterapeuta. Havia quinze pacientes à espera. Depois de uma hora sentado na recepção, me fez entrar. A conversa correu rápida, longa e maçante ao ponto de eu bocejar algumas vezes e, involuntariamente, procurar o cigarro deixado de lado enquanto cuidava da ferida no estômago. Mas meu amigo estava satisfeito. Falava altivo e confiante. Transpirava perfume caro e testosterona no corpo malhado em máquinas. Porém, antes de qualquer fala, fez questão de aniquilar algum vestígio de vaidade que porventura ainda houvesse em mim. Olhou meus dedos manchados de nicotina e a fraqueza muscular ao me sentar à sua frente e disparou: “nossa, meu velho, você está uma desgraça... Mas pode melhorar com análise”. Achei melhor sorrir e guardar comigo os psicólogos com quem eu mantinha longas análises página à frente de página. Todos com vícios mais nojentos que os meus. E eram - psicólogos. Depois de alguns segundos em silêncio analítico sobre meus dedos sujos, desatou a falar com o conhecimento de homem bem sucedido. De minha parte, quase nada tinha a dizer ao amigo realizado. “E aí, Antônio, em quantas escolas você dá aulas?”, perguntou girando na cadeira atrás de uma bancada sobre a qual se destacavam duas fotografias: uma com a mulher em frente à torre Eiffel e outra com um casal de adolescentes na casa do Mickey. “Em duas”, eu disse sem interesse em levar o assunto adiante. Achei que fosse o suficiente para satisfazer a sua curiosidade em desnudar meu fracasso. “Como sobrevive só com isso? Casou também?”. “Sim. Também tenho mulher e filhos”, eu disse sem responder como sobrevivo. “Acabei de chegar da Europa. Veja que fotos maravilhosas...”, acrescentou exibindo o álbum no celular no qual ele e a mulher vestem grifes famosas. Ora em parques e museus, ora em restaurantes. “Já fez uma viagem ao exterior, Antônio?”“ Oh, não...”, respondi devolvendo o telefone. “Pois é amigo”, observou jogando-se para trás na cadeira de encosto imperial, “se continuar só com as aulinhas em duas escolas jamais irá à Europa.” Abanei as mãos num gesto de desprezo e fiz menção de levantar-me. Ele, num pulo sobre os meus ombros, me fez sentar outra vez e continuou com a superioridade dos vencedores: “Tenho muitos pacientes. Trabalho aqui e mais duas clínicas. Atendo 45 pessoas todos os dias.” “É mesmo? Até à noite você tem sessões”, perguntei espantado. “Sim, tenho. Ralo muito, meu velho... Se não, como pagar condomínio, prestação do carro que acabei de trocar, escola dos garotos, restaurantes, férias na Europa?...”, ele disse e fechou o álbum. “Graças aos 30 minutos de análise posso faturar um bocado”, acrescentou regulando o tempo no monitor para o próximo que entraria com a minha saída. Pensei no que eu diria numa sessão de meia hora e perguntei se ele tinha resultados positivos numa terapia de tempo tão curto. “Isso não importa, meu velho. Sou contratado para cumprir metas. E cumpro”, disse jogando mais uma vez o tronco para trás no encosto imperial. Foi então que percebi que ele vestia jaleco azul com o nome do plano de saúde para o qual trabalhava bordado de amarelo junto ao seu, Dr. GERALDO, assim mesmo, em caixa alta, na gola. Mas o quê, Cocada era um empregado e tinha patrão? Não era ele dono do próprio negócio? Cocada era um servidor e tinha obrigações como qualquer servidor obediente: não feder, não ter vícios e manter o nome da empresa no alto da gola. Não consegui conter o riso... “Qual o motivo?”. “Oh, nada em especial...”, respondi e mudei o assunto: “Você tem notícias de Geórgia?” “Ah, pobre Geórgia... Abriu uma loja de designer... Você não conheceu?”, perguntou estupefato com a minha ignorância sobre interiores no período das “vacas gordas”, do qual guardava lembranças de alto padrão.  A Casa VerdeamarEla foi um luxo na Av. Saissem Riaj. Frequentada só pela nata. Tive a felicidade de contratar os serviços dela e decorei meu apartamento com peças de R. B., top entre as celebridades. Você conhece R. B., não?”, perguntou com a ênfase dos endinheirados de bom gosto. “Sim, conheço...”, eu disse sem emitir juízo de valor sobre o artista cafona cujas reproduções podiam ser encontradas em qualquer esquina.  Sem dar importância à minha resposta, franziu a testa e lamentou: “Depois da crise ela teve que fechar as portas. Agora, se eu quiser um objeto diferenciado, tenho que mandar vir de Miami.” “Bela menina… Trocamos carinhos naquela escadinha da faculdade de arquitetura...” Tomava gosto em falar com Cocada: “pensei em me casar com ela, mas jamais Geórgia quis algo sério comigo”, lembrei procurando o cigarro ausente no bolso. “Tu lembras do fusca rosa que ganhou do pai e que nos levava pra cima e pra baixo nas festas dos bacanas?” De repente veio à tona o porquê de ela não me querer: “Ai, Antônio... Se me casar com você serei sempre pobre... morar na periferia... andar de ônibus...”, disse ao mostrar-lhe um par de alianças de prata que eu havia roubado de um hippie peruano. “Sabe por onde ela anda?” “Ah, nem vai acreditar...”, ele disse cheio de pena. “Depois de falida, abriu duas lojinhas de bugigangas no Bairro do Mircela,” acrescentou com tristeza. Porém, imediatamente disse alto e sem qualquer constrangimento: “Não compro essas bostas da China. Que faça o favor de não vir aqui me oferecer essas merdas. Detesto comprar porcarias por compaixão”, disse batendo três vezes a palma de uma mão na outra palma e concluiu: “Que fique longe de mim.” Levantou de supetão. Fiz o mesmo. Abriu a porta e quase me jogou para fora: “adeus, Cocada!”, gritei com a ferida do estômago.

Ana Barros 

Natal, 14 de dezembro de 2019.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Noite morta

O tempo rosa outra vez,,,

Recomeçam bocejos e cacarejos no quintal:

Anunciada acorda os passarinhos

Entre vigília e pesadelos pergunto:

“Posso o jogo acabar?”

Nem ouvidos nem resposta:

Dobro a mortalha

O tempo rosa outra vez...

Anunciada acorda os passarinhos

O burburinho retorna

Com bocejos e cacarejos no quintal

O café no bule velho esfria

Noite morta


Ana Barros

Natal, 07/02/2021.

 

 

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Viola


Manhã de sexta eu passo em frente ao prédio de tinta fresca...

A rua acorda amarela

Um homem passa e espirra no meu rosto de velha

Maria foi ao cemitério...

Luís foi ao mercado comprar frutos amargos

O açougueiro satisfeito e faca nos dentes

lhe ofereceu carne-verde

Já tenho a minha carne – preta

Luís disse com a boca esmagada em flores de medo

Tem febre o homem que passou por mim...

Mas eu ando lenta e fria na rua com sinal fechado

Há cachorros na calçada...

 

Ana Barros

Natal, 18 de dezembro de 2020.




Imagem: domínio do Google  

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Tempo verde

                                            

Poucos são os que conhecem em si, e no outro – a distinção. Desde criança dizem para o que viemos e que intuição é coisa de animal. E de fato é. Esquecem que somos – natureza verde. Inventam mil facetas com o propósito de impor um mundo satisfeito e em paz. Porém surge daí o conflito entre quem manda e quem não obedece por intuir desde cedo que a mentira vem logo após o gozo. Estes são os diferentes, os rejeitados por afirmar desejos do corpo que deseja, do corpo que não congela de medo. A presença sem rosto das redes sociais é hoje a máquina dos moralistas de sempre. Dos senhores de trânsito livre entre família, estado, religião e capital. Mas, já que a vida real dos insurgentes jamais foi vista na TV, tampouco é hoje compartilhada em redes sociais, será que não há outro poder nas bordas desse mundo construído no medo e aceitação?

Difícil entender um progresso em que tudo se sabe da razão e suas complexidades e nada dos sentidos de mulheres e homens. Tudo acessível. Tudo ao alcance da mão. A um clique temos a posse do mundo. A outro clique tudo pode virar pó e zerar a nossa condição de humanos. Porém esse novo mundo é estranho à memória de um saber ativo, silencioso e presente em sentidos que não se esgarçam: temos experiências que afirmam a força que aniquila o eu imposto. O cinema é rico de enredos nessa direção: Estamira é uma vontade que não se deixa capturar. A esquizoanálise de Deleuze e Guatarri também quer o singular.  Aqui falo de uma potência menos complexa que Estamira e que até hoje conhece quase nada da particularidade do processo criativo dos dois filósofos: a geração, particularmente nordestina, de 1960. Esta é possivelmente a última de um ciclo agrário ultrapassado por novas tecnologias, êxodo rural e tendências urbanas. Não obstante, é de gerações pretensamente mortas que ressurgem valores perenes na necessidade compulsiva de devir.

Lembro de como meus pais, que eram iguais a tantos pais da década, acompanhavam os cinco filhos. Aliás, eles não “acompanhavam”. Apenas cobravam de nós, medrosos e obedientes, respeito incontestável e obrigações no trabalho do campo. Fingiam desatenção em relação às nossas traquinagens, no entanto, sentíamos a presença deles mesmo em sonhos: é impossível silenciar a voz de pai e mãe. Mesmo depois de mortos eles ressurgem ora com sentenças terríveis, ora com a amargura de sofredor a carregar o fardo do mundo. E nós, filhos dessa época binária e monogâmica, sabíamos por intuição o peso carregado por duas pessoas unidas à força de arranjos estranhos à vida. Daí a origem dos desarranjos inevitáveis...

Atualmente há síndromes de tudo para justificar, e curar, outros desarranjos, estes, reações que brotam do medo de quem vive na cidade grande. No caso particular dessa última geração verde, o medo impulsionou rupturas, corrida ao desconhecido sutilmente escondido por pais raivosos (aqui lembro a análise do filósofo Cláudio Ulpiano de Carta ao Pai, que diz ser impossível Kafka amar Hermann devido este ser um ser apaixonado), ignorantes, utilitários da mão de obra disponível dentro de casa ou pela rejeição a homens modernos que, supostamente, roubariam suas terras e mulheres. A proteção excessiva do pai sobre as meninas e as adolescentes, vale ressaltar que moça acima de dezessete anos era considerada um estorvo por não arranjar marido e, consequentemente, ser uma boca a mais, representava não só a moral pragmática do homem pai de família, bem como ciúme do verdor das fêmeas.  Porém, rompendo o cerco, muitas fugiram para longe. Desertaram para o temido mundo das possibilidades. Não podemos deixar de pensar em Macabéa, cujo mergulho no caos não lhe deu perspectivas longe da terra abandonada.

Crescíamos sem pressa... Cegos para além da roça de milho. Jamais um anseio com o futuro. Importava a barriga cheia, viver sob a segurança de nossos pais e a ausência de almas. Sim, o terror era de almas – seriam os fantasmas de Baudelaire?* – aparecerem na escuridão do mundo apagado com a chama da lamparina. Nunca um sermão pelas pequenas falhas como notas baixas na escola, repetição de ano. Estas faziam parte do ritual do trabalho na lavoura que, chegado o inverno, as aulas eram deixadas de lado, e, se havia revolta de algum atrevido, morria no ódio reprimido. Lúcidos de uma educação autoritária e da herança de algo que não seca como as palhas do milho, assim chegaram alguns na cidade grande.

Havia o eterno no casamento indissolúvel, na casa de tijolos sólida, na mobília que atravessava gerações, nos utensílios de ferro, nos homens que pensavam enganar a morte com trabalho e dinheiro. Nas mulheres que rezavam com a fé inabalável das santas... Mas foram apenas costumes substituídos por outros que surgiram com os atores do momento. No entanto, havia, e há, o eterno para além da correnteza que engoliu a certeza: o eterno na derrota finita do olhar moribundo do meu avô em torno dos bens cuidadosamente acumulados e, logo após sua morte, divididos com a pressa adormecida até então nas colheitas silenciosas, o eterno do crepúsculo triste na volta para casa de meu pai cansado, o eterno nas orações e histórias contadas por nossa mãe antes de dormir, o eterno na angústia do suicídio de minha avó paterna...

Filhos e netos de sessentões, digitais num presente que escorre da tela, alheios a terra e bichos, mergulham agora no fluxo do tempo. Mas, e os pés de milho viçosos, o que foi feito da colheita e suas sementes? Desapareceram na ferrugem de silos velhos? Viraram pó nas garras de jovens gorgulhos? Ou escorreram na correnteza de mulheres e homens sem tempo?

 Ana Barros

Natal, 27/04/2001 (concluído em 24 de dezembro de 2020).

* “O passado, conservado o sabor do fantasma, recuperará a luz e o movimento da  vida, e se tornará presente.” Sobre a Modernidade – Baudelaire