sábado, 4 de março de 2017

Arrebol dos impulsos

Há um dito popular tão justificado quanto negado por aquele que observa a vida ordinária de um ângulo psicológico, na perspectiva intuitiva mesmo: pau que nasce torto morre torto, dizem os deterministas daquele cuja índole, já na velhice, é idêntica à da infância dos impulsos. Há quem diga não existir a pessoa velha, que o velho é o mesmo indivíduo desde o dia em que nasce até o dia em que morre. Que envelhecer é o processo obrigatório de quem veio sem pedir e de quem volta também sem pedir. Que envelhecer é a impressão das horas na superfície de quem estendeu os limites de ser à ausência do limite do qual é feito. Envelhecer, enfim, é manusear o mesmo caderno cujas folhas, em branco no começo, são marcadas e passadas pelos dedos calmos e cruéis do tempo. Aqui teríamos não a pessoa velha, mas o indivíduo estendido ao ilimitado de suas possibilidades, só interrompidas pela morte, instante último no qual é feita a clara distinção entre aquele que entendeu a sua condição de gente e o que existiu alheio ao passar do tempo sobre as folhas ora amassadas, ora rasgadas, permanecendo assim no princípio da vontade. Para este, amadurecer é esquecer, é fixar os sentidos não no que angustia e move em direção a nada, mas no presente vivo e cheio de promessas de felicidade. A razão, ensimesmada no mundo dos sátiros, desdenha o aprendizado que a moral determina como adequado àquele que joga luz no submundo dos impulsos. Ser de agora: este que atravessa o tempo em atenção apenas à criança que foi sem nunca deixar de ser.  Muitos com esse perfil são engraçados na infância, cômicos na juventude e debochados na velhice. É comum familiares e amigos não respeitarem o velho debochado, não levarem a sério o que ele diz e o que faz. Apesar do físico devastado e da memória falha, basta um instante para reencontrar neles os impulsos para os quais a idade avançada, segundo os manuais dos bons costumes, deve moldar. Mas este que não se deixa carimbar com o selo do conhecimento, representa sem pudor no palco que os demais, lúcidos e reflexivos, sobrepõem máscara sobre máscara. Viram as costas à luz de Platão, para quem a maturidade desenvolve o conhecimento que adquirimos ao sair da caverna. O observador que compreendeu a máxima do filósofo que separa a vida entre o mundo dos sentidos [inferior] e o mundo das ideias [superior] vê a si mesmo sem compaixão e aprendeu a se esconder dos menos atentos aos vícios da vergonha invisível, ou seja, da paixão impulsiva. É este conhecedor da escuridão [dentro] e da luminosidade [fora] da caverna quem sustenta que pau que nasce torto morre torto. “Então todos nascemos torto?”, quer saber o homem sensato para quem a prática da disciplina alinha o troncho. Mas o observador, irônico pela experiência de jogar as cartas marcadas, olha o homem sensato e responde: “claro que não. Mas também não nascemos reto”.

Ana Barros
Natal, 23 de fevereiro de 2017.





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

LUCI

                                                                               
                                                                                                    
Ninguém percebe o alheamento dela às conversas dos adultos nem o convite a conhecer o espaço encontrado ao entrar na casa da tia velha e cega na manhã de domingo. Num piscar de olhos a menina desligada colhe para sempre os detalhes de duas vidas cercadas de outras vidas, todas, animadas pelo ritmo fatal do grande relógio da parede da sala, que já tiquetaqueou quatro gerações. Faz um ano que eu comprei a pequena propriedade onde Luci viveu com os pais até se mudar para São Paulo levando na mala os manuscritos que escrevera na infância solitária e povoada dos seres com os quais mantém intimidade desde cedo. Mas a nenhum editor interessou publicar: “tolos!”, disseram ao devolver a pasta com os escritos. Com a autoconfiança da escritora que gosta do que escreve apesar do mundo inteiro achar medíocre, ela guarda os originais para mais tarde publicar com recursos próprios. Mas a história termina aqui. Há meio século ninguém sabe dizer nada da menina nem que fim levou sua família, tampouco do acervo de Luci que, se viver ainda, já passa dos 90. Antes de entrar na intimidade da antiga moradora eu também não sabia nada da mulher que me levou à leitura de vinte cadernos em menos de três dias. Pois bem, o meu interesse por ela nasceu ali quando, pisando onde antes era o seu quarto, percebi algo semelhante à tampa de um baú coberto por restos das ruínas do que foi a residência da família. Provavelmente naquele ambiente no qual me encontrava, a menina, a adolescente e a moça, escreveram boa parte da produção que eu, possivelmente, seria o primeiro a ler. Ao tocar o objeto semienterrado penso primeiro ser uma botija cheia de ouro e moedas antigas, o que não era raro acontecer no meio rural no qual pessoas avarentas tinham o hábito de esconder da família dinheiro e joias debaixo da terra. Aqui acolá um parente malicioso e sabedor do segredo “sonha” com o defunto apontando o local do tesouro por ele deixado, consequência da sua estada no Purgatório, cuja tormenta só terá fim quando o escolhido arrancar a botija. Porém, ao enfiar uma estaca ao lado da arca e esta ceder com facilidade, tenho duas reações: a primeira, grande decepção por ver que ali só tem papel velho e, a segunda, uma felicidade indizível quando descobri tratar-se de manuscritos. Abaixo-me e arranco do meio do entulho o baú de um metro de comprimento por uns 60 centímetros de largura. Uma arca pequena que acomoda os originais de Luci, material para cinco livros entre romance, crônica e poesia [todos] rejeitados pelos editores e esquecidos ali ninguém jamais soube dizer por quem, uma vez que era desejo de Luci publicar quando pudesse pagar pela edição. A mim essa questão era menor que o interesse em tocar os cadernos e ler o que ela escrevera num tempo já apagado, porém, atualizado a partir do momento em que nele eu entrasse guiado pela leitura. Deixei a curiosidade me conduzir e entrego-me ali mesmo às folhas amarelas, mas bastante legíveis devido o cuidado que Luci teve em proteger os papéis ao vedar o baú com resina de goiabeiras, das quais ainda se viam alguns pés completamente queimados no entorno da tapera. Leio e, diferente da crítica dos editores, gosto de todos. Porém um, o menor entre eles, apenas cinco folhas escritas com a calma de quem conhece o Paraíso, me traz a sensação de que sou figurante naquela história. Leio e releio muitas vezes a narrativa em forma de monólogo.
                                                           
"Ela é alta, loura, magra e mansa: chamamos de tia. É o único parente que conheço com essas características entre os negros e pardos de onde venho. A exclusividade no meio mestiço em que nasci faz com que eu ache a senhora de olhos azuis e longas tranças douradas a menina do conto de fadas do meu livro de português, cujos pais a abandonam na mata por ser diferente dos outros filhos. Sempre que a visitamos ela está asseada e cheirosa a lavanda dentro do vestido longo de saia franzida, mangas três quartos e gola redonda. Um xale de lã crua, no qual enxuga a secreção dos olhos azuis, envolve o longo pescoço da mulher que caminha para os oitenta. As cores claras das estampas florais se harmonizam com os olhos translúcidos e a postura aristocrática da velha senhora. Demoro em me convencer de que ela não vê nada com aqueles olhos límpidos e interessados na conversa de cada um. Enquanto somos convidados a sentar nas cadeiras Luis XV, e o marido nos servir com chá de canela e biscoitos de maisena, ela relaxa os braços na espreguiçadeira de imbuia coberta de lona listrada já desbotada, no entanto, de uma beleza esmaecida pelo uso cujo prazer em ver dá ao conjunto a impressão de uma tela de Renoir. Ao lado direito da entrada o porta-chapéus que, além de acomodar nossas sombrinhas, serve de suporte para os biscuits de porcelana e a estrela de pano, escultura que alguém fez diligentemente usando os retalhos dos vestidos da dona da casa, os quais acendem a minha imaginação propensa ao devaneio.  O marido, a quem ela chama “Vós” e ele, por sua vez, dirige a ela o mesmo pronome “vós” carregado da formalidade aprendida, dizem, de um parente português que viveu entre eles, é quem administra a casa e cozinha para os dois. Um empregado, jovem e robusto, dirige a velha Pick Up, cuida dos animais e da terra.  Sinto um calmo prazer em pisar o campo verde e bem cuidado que cerca a casa, tão branca em sua majestosa localização no ponto mais alto da terra dos dois velhos solitários e rodeados das coisas com as quais vou manter por muito tempo relações de magia, uma vez que aos olhos da infância as coisas adquirem proporções, cor, cheiro e sabor jamais repetidos na vida adulta a não ser pelo instante da lembrança descolada do tempo. Ali tudo é grande e luminoso: a sala com três tipos de cadeira, o alpendre com uma dezena de armadores de madeira nos quais não se vê há anos vestígios de rede armada, os quartos, três ao todo, que eles chamam de alcova, com duas camas de solteiro também estilo Luis XV, o fogão de lenha que vai de um canto a outro da cozinha retangular, a mesa de madeira enegrecida e lustrada pela gordura das carnes tantas vezes servidas tem dois bancos em cada lado, nos quais sentavam doze pessoas e agora servem de cama para os gatos e passeio, quando estes estão longe, das rolas que vêm catar os grãos deixados cair propositadamente por minha tia cega.
                                                          
Tenho sete anos. Desde os cinco acompanho minha mãe nas visitas que faz aos parentes enfermos. Promessa a São Lázaro, de quem é devota, de visitar os “fragilizados” da família enquanto ela viver e tiver saúde. Nem meu pai nem meus irmãos a acompanham nessas obrigações piedosas: “quem deve suas promessas que vá só. Eu não vou!”, dizia meu pai zangado. “Eu também, não!”, completava a minha irmã mais velha agarrada à mão do caçula, o qual tinha por ela amor de filho. Assim terminava a discussão já conhecida de todos um dia antes da visita. Quanto a mim, pendurada no pescoço de minha mãe durante a frustrada tentativa de convencer todos a acompanhá-la, vou feliz e com o único intuito de ver as coisas, senti-las e cheirar os aromas que perfumam a estrada até a casa dos tios velhos. É desses passeios caridosos que faço meu lazer e libero a imaginação ansiosa. Há, no entanto, aqueles passeios dos quais eu não sinto outra coisa senão repulsa. Mesmo assim, não abro mão de nenhum. Penso: “quem sabe lá encontro algo diferente!” Lembro particularmente de uma dessas obrigações de minha mãe que ainda hoje me deixa de estômago revirado: A casa é de pau-a-pique, escura e miserável. Permanecemos duas horas no quarto com cheiro de urina dos lençóis do homem derrubado por uma gripe há mais de um mês. Mal nos despedimos do doente corro a cuspir até não lembrar mais das bolhas de catarro que ele, deitado, arremessava na parede colada à cama. Com o tempo, a demora na recuperação e a falta de higiene, os escarros dão à parede efeito luminoso semelhante a papel celofane dourado colado ali com o intuito de encobrir as imperfeições do barro jogado entre as varas que seguram a casa. Os reflexos da lamparina sobre a sujeira seca me acompanham até o dia da visita ao casal de tios aristocrata. Aí as impressões sombrias do quarto insalubre desaparecem para dar lugar à luminosidade aberta que me deixa de ânimo revigorado e esquecida do outro parente, também só, mas ensimesmado na sua impotência senil [desconfio que ele jogue catarro na parede como ação deliberada de vingança]. Já o fato de visitar o casal pela manhã, hora que expande a luz no interior da casa [se há doença ou recantos frios são incendiados pelo brilho matinal], provoca em mim a primeira sensação de belo que tenho guardada, o que mais tarde, ao contemplar o que sobrou da casa, seria desfeito diante da surpresa em constatar que aquele espaço da minha infância havia encolhido, perdido o brilho. Compreendi desde então que as coisas têm o fim de seus donos, que tudo se torna fragmento, entulho no espaço morto. Não sei precisar, mas, pela destruição causada pelo tempo e o abandono, o casal morreu faz muitos anos. E, Junto com eles, todas as vidas com quem e para quem viveram. Apenas uma, a lagartixa que me deixava transida de medo quando me encarava a balançar afirmativamente a cabeça do meio da touceira de lírios do quintal, deixou seus ovos nos escombros: sou apresentada a mais nova geração de lagartixas. Mas a amplitude ilimitada da minha infância havia encolhido no remanso do corpo sem a luz matinal que acende a chama da inquietação.                                              
                                                                   
Os velhos morreram, as visitas cessaram. Além de eu ter crescido e encontrado outros seres e outros espaços, meus pais são agora os velhos da história. Os jovens, incluindo meus irmãos e eu, se mudaram para a cidade. Os poucos que de início resistem à tentação da rua, logo abandonam a herança adquirida e esquecem de vez a terra que eu guardei intacta com a solidez das coisas que viram cristais. Mas a morte do que fica velho, e os chamados insistentes das comodidades da vida na cidade transformam o que viveu em estorvo para os que continuam. Sem guarda, a porta se abre não mais ao sol e às visitas de domingo, mas ao mofo, ao cupim e às ervas daninhas. A casa branca e imponente encolhe e imprime o ar sombrio de filme noir. Nada mais da brancura da cal encontra-se nela. Nada de humano se mexe no silêncio triste da casa velha sem dono. Sento no tronco do que restou da árvore atacada pelo enorme cupinzeiro que ali fixou morada e contemplo a ruína com o mesmo interesse com o qual me olho no caco de espelho grudado no resto de parede: temos, a ruína e eu, o limite anunciado. Do meu lado, envelheci e diminuí alguns centímetros como acontece a todas as coisas gastas, inclusive à casa grande e branca da minha infância, agora velha também, porém, diferente de mim que guardo imagens, a casa está vazia de tudo, não só dos móveis e dos corpos que deram vida ao ambiente, mas daquilo que vi como grande e belo nas longas visitas que fiz na companhia de minha mãe à casa na qual mantive diálogos com o não verbo. Ali, diante do silêncio cinza da natureza morta, livre da plástica que mascara o entendimento, encontrei o Tempo do relógio parado."

Ana Barros
Natal, 21 de janeiro de 2017.



         Ilustração: Binho Duarte

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Capital


Não é à toa que meu padrinho Vitorino repete a frase que me deixa vermelho de vergonha cada vez que peço a bênção. Ele, sentado na cadeira de balanço, porta aberta de frente pra rua, de onde todos podem vê-lo tirar o chapéu num solene cumprimento, diz alto e grave “Deus te dê fortuna” e solta da varanda uma moeda que cai reto na minha mão humilhada. Com o passar do tempo percebo o sentido daquele gesto. Era a senha para que eu decifrasse a vida pindaíba que carregava desde já. “Deus te dê fortuna” era o desejo do homem rico e orgulhoso convencido sempre das dádivas do céu na vida daquele que ajoelha e pede. E eu, moleque que veste roupas de segunda mão e dorme em cama com mais dois, devo ser como meu padrinho, ter calças de linho branco com os bolsos estufados de notas. A sua máxima de “homem de bem” estava no tamanho dos bolsos da calça. Os seus, não podendo fugir à premissa, exibiam dois volumes quadrados de cédulas variadas. As menores separadas das maiores. Explicava: “a salvação da alma está na quantidade de esmolas”. As notas de valor significativo guardava no bolso mais fundo e vistoso. Não explicava o porquê, no entanto, todos sabiam que a intenção era provocar a ira dos invejosos. E um destes, só eu sabia, era o meu pai, que me esperava na esquina de volta da bênção do domingo e arrancava a moeda da minha mão com o mesmo impropério: “aquele muxiba só deu isso?”.  
Lá em casa falta tudo, principalmente dinheiro pra fugir das cobranças penduradas no prego de Seu Felizardo. “Ah se eu tivesse o mar!...”, suspiro olhando a capa do meu caderno com a ilustração do mar azul a se misturar com o céu azul de Gullar que, mais tarde, não me cansaria de analisar em sala de aula com os meus alunos verdes de metáforas. E por falar em metáfora, logo cedo descobri a diferença entre o “duro” que mora na cidade onde tem mar e o “duro” que vive longe dele, o mar, esse desconhecido dos que fazem da sala de estar o seu oceano pacífico. Sabia pelas fotografias maravilhosas do livro de História que ele, o “duro”, estava lá, a poucos metros das ondas que trazem de volta o sol nublado de tédio no correr dos dias cansados. De lá ele volta radiante, quase sempre bêbado, esquecido. Volta mais pindaíba ainda, porém de saco esvaziado.
 Mas foi num domingo mofado do Baú de Sílvio Santos que conheci Capital. Não sou o homem que meu padrinho Vitorino quis que eu fosse, mas tenho algumas notas de dez e de vinte no bolso e acabo de chegar à cidade onde mora a minha irmã há mais de vinte anos, o mesmo tempo que não nos vemos. O ônibus estaciona na Rodoviária depois de três dias de viagem e muito barro vermelho no meu bigode, que de preto ficou ruivo. Um sobrinho me espera com ar de quem está ali empurrado. O cumprimento é mudo e com a mão frouxa: “Já não pede a bênção...”, observo sem mágoa. Aliás, sinto alívio em não constrangê-lo na repetição do hábito há muito esquecido por minha irmã no sofá da sala, como veremos adiante. Meu sobrinho tem pressa em se livrar de mim. Com receio de que apronte alguma peça comigo considerei dar a ele as moedas que juntara de troco na viagem. Porém, em segundos, o rapaz havia me deixado para trás com a mala e o saco de comidas e correu cortando a fila que se formara mal o transporte parou no terminal. Subo no ônibus com dificuldade, sem ajuda. Alguns passageiros fazem palavra cruzada, outros cochilam nos assentos impregnados de marcas de fadiga. A maioria, em pé, colada um no outro, se balança indiferente aos movimentos bruscos do veículo.  Meu sobrinho tem mais sorte que eu. Alguém desce e ele, quase derrubando a senhora a seu lado, cai sentado na poltrona. Quanto a mim, vou em pé com a mala entre as pernas. O saco de comida atrapalha a passagem no corredor, é impossível ser diferente. O jeito é passar por cima dele, que já começa soltar cheiro. “Que fome!”, meu estômago reclama ao sentir o cheiro da jaca que  escapa do saco, lembra que não como há quase um dia. Não dou importância nem à fome tampouco aos resmungos dos incomodados com o barro vermelho que voa do meu bigode em direção a eles. Esqueço os passageiros por alguns instantes e passo a admirar a paisagem da grande Avenida. Pergunto ao meu sobrinho que planta é aquela, enorme, de galhos flexíveis parecendo uma cascata de cipós: “pindaíba”, ele diz de dentes serrados em completo desinteresse de continuar o papo. “Quer dizer então que pindaíba é uma árvore?” Sem resposta.  O silêncio dele dizia: “deixe de pagar mico, bocó!” Sem conter a ansiedade quase machuquei as mãos ao apertar o apoio de ferro no qual me segurava. Quero saber logo o que é pindaíba além de “duro”, além de “liso”, qual a relação entre as duas palavras e aquela árvore medonha.  Aproveito que o sinal ficou vermelho e deslizo o dedo sobre “pindaíba”. Está lá: “vem do Tupi pindá= anzol e yba=  vara. Era uma vara usada pelos índios como caniço. Quando não pescavam nada voltavam apenas com a vara na mão, ou seja, na pindaíba”. “kkkkk...”, não consegui segurar o riso diante da estranha definição. Envergonhado do “kkkkk” dentro do ônibus lotado de mal-humorados olho em todas as direções para ver se alguém compartilha a minha surpresa. Fico feliz em constatar que ninguém, nem mesmo o azedo do meu sobrinho, havia dado a menor importância ao “kkk”. Foi então que senti uma mão apertando o meu braço apoiado no encosto da poltrona do lado. Uma senhora visivelmente aborrecida me faz inclinar até ela e dá a ordem: “não faça isso! Em Capital não se liga celular dentro do ônibus”. Respeito a ordem e enfio o aparelho no bolso. Mas ali, na catatônica Avenida por onde o veículo passa arrastando passageiros sombrios com seus celulares desligados e escondidos, sou tomado por outra sombra, a que me deixa desapontado, o mesmo desapontamento que vou sentir uma hora mais tarde ao encontrar a minha irmã no sofá da sala. A sombra não vinha das copas majestosas, nem dos prédios de edifícios, mas dos contornos redondos de Capital, geometria que imediatamente associo à passagem bíblica do bezerro de ouro cercado por ovelhas tristes e de carne pindaíba apodrecida longe do mar, este, que se dedica a roer e esquecer o que rói. No instante em que o ônibus atravessa a Avenida que liga o Norte ao Sul da cidade vejo que as coisas mudam apenas de humor e geografia. Em todas, porém, o imperioso tédio que oscila da embriaguez à ressaca. Se tivesse mar corriam a ele e se afogavam na evasão salgada e momentânea. Porém sem mar, Capital é uma enorme bacia redonda na qual o mergulho não passa da sala.  
Meu sobrinho corre à frente. Ali mesmo na sala desce as calças e puxa o celular do fundo da cueca. Tranca-se no quarto. A minha irmã sorrir satisfeita para Sílvio Santos. Tem as pernas gordas sobre o sofá, uma bacia de pipocas de um lado e a garrafa de coca-cola do outro.  

Ana Barros                                            
Natal, 29 de novembro de 2016.


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Baracho: o mártir



Há imagem cuja força psicológica sobre o imaginário de um povo provoca algo tão longe da razão quanto o instante do êxtase que acende. Este, por vezes, tendo como pano de fundo a repressão sexual, ou o espasmo místico. Exemplo maior de liberação das pulsões na moral pagã vem da Grécia Antiga. Entregues à (in)sensatez divina, as bacantes sobem as montanhas e, longe de pecado e culpa, entregam-se às licenciosidades da vida, ao transe coletivo proporcionado por libações ao deus da embriaguês na terra: Baco. É na entrega mítica que o querer profundo sem possibilidades reais de acontecer no mundo dos homens irrompe na ação cega de censura e condenação. A lucidez se apagada, surge o desconhecido, o estranho, entrega ora ao aniquilamento, ora ao instinto de conservação. Aqui me detenho no famoso fenômeno místico acontecido em Natal na década de 1960 para ilustrar o poder que tem um ato, banal e insignificante para alguns mas, para outros, ligados mais aos instintos que à razão, essencial no instante de nascer o mártir. Assim foi com o assassinato de Baracho (João Rodrigues Baracho), conhecido e temido entre os bairros de Natal, Quintas, Alecrim e Carrasco, comunidades onde praticava assaltos, assassinatos e dava morada a várias amantes. Infeliz, não teve a sorte de ser socorrido por uma delas quando a moral o condenou. Com predileção por matar taxistas da noite, Baracho foi preso várias vezes e executado após uma fuga, isso em 1962. A execução teve todos os requintes da crônica policial capaz de permanecer meses na boca de curiosos frívolos, sedentos de vingança escrita com sangue bandido. Porém, um detalhe. Pequeno e desprezível detalhe para quem endurece os sentidos na hora de julgar o outro, mas que é o essencial àqueles que são levados pela exaltação mítico-mística diante da imagem trágica que provoca compaixão, adoração, redenção. Ferido de morte pela polícia, Baracho esconde-se na casa de uma vizinha que, além de informar o paradeiro do vizinho caçado, nega-lhe o copo d’água que Baracho suplica na agonia da morte. Ele morre, para os que respeitam com o carrasco o último pedido do condenado, não só dos ferimentos provocados pelos tiros, mas também de sede diante da impiedade do igual, diante da indiferença pelo igual, ou seja, da negação de outro.  Entretanto, é naquele instante nulo de dor de alguém que não enxerga o outro como si mesmo que a comoção coletiva ajoelha-se e eleva Baracho de bandido odiado e temido à condição de mártir. A prova desse instante continua vivificada anualmente no Cemitério do Alecrim, onde Baracho foi sepultado. No Dia de finados o túmulo mais visitado, seja pela curiosidade, seja pela veneração, é o do homem que morreu suplicando um copo d’água. Instante em que as ações do indivíduo, julgadas más, são aniquiladas diante do sublime poder da imagem que transmuta o que é humano em divino. Para quem enxerga fanatismo e alienação nas pessoas que agiriam com amor em vez de ódio diante de um assassino que deveria ter matado a sede antes de morrer, único e último gesto, naquele momento, da bondade que não abandona o instinto de rebanho, lembramos Dostoiévski, autor de obras como Crime e castigo, A casa dos mortos e Os irmãos Karamázov, cuja sensibilidade de artista faz dele grande conhecedor e acolhedor da fraqueza humana. Outro russo, cujos personagens, quase todos homens e mulheres à margem do aceitável, é Gorki. Ao lermos “Os mais brilhantes contos” desse psicólogo da redenção não deixamos de amar o bêbado, o mendigo, o vagabundo, o doente pobre, a prostituta, o presidiário, o assassino. O dois escritores, através de seus protagonistas, ao contrário da mulher que entrega à polícia o vizinho de má fama e nega-lhe o copo d’água na hora da morte, dariam a água na boca do moribundo, tratariam suas feridas e o deixariam em paz.

Ana Barros
Natal, 19 de maio de 2015 (concluído em 09/11/2016)
Túmulo de Baracho - Cemitério do Alecrim - foto do portalbo.com

sábado, 8 de outubro de 2016

Réveillon



De novo era Ano. Eu acabava de fazer setenta e cinco anos e descobria, ali, no Réveillon de oitenta e dois, que havia esquecido a sociedade. Não que eu tivesse de esconder algum complexo de baixa estima, padecesse da rejeição dos meus camaradas ou tivesse enlouquecido da indiferença do mundo: nada disso era conveniente ao homem que jamais tivera fé e convicções em relação a qualquer coisa ou sentimento. Ateu, assim fui mesmo quando acreditei. Pois bem, naquele Réveillon eu estava lúcido e vazio. Vazio das confusões mentais com as quais estendi a minha loucura no mundo como extensão de mim. Aliás, uma extensão deveras inútil uma vez que sempre estive sozinho quando pensei ser com um, dois, três... A minha mulher, que não conhece vazios, diz que sou um egoísta, um misantropo. “Nem uma coisa nem outra”, respondo desinteressado em levar adiante assunto até pouco tempo motivo de discussões azedas das quais eu saí sempre derrotado e com a sensação de ter engolido uma pedra. Apesar de termos uma pequena diferença na idade compreendi que até ela, companheira de 40 anos, jamais havia sido outros senão ela mesma. “Ser outro é tarefa maldita que exige encher e esvaziar o estômago o tempo todo”, dizia ela simulando vômito. Tive que passar muitos Réveillons para chegar a esse entendimento: por que não sabia desde sempre a verdade sobre o peso de imaginar-me múltiplo? Quis lançar a culpa sobre minha insensatez: não fui eu quem arranjou os encontros, conversas, intrigas e rompimentos? Não fui eu quem inventou estratégias para forjar uma relação de amor? Sim, fui eu! E não podia ser diferente se o ímã desprotegido que chama à pele as migalhas da afeição, agora gasto, despenca e cai do corpo fechado. Pois bem, em vez do tédio no qual mergulhei em todos os festejos do Ano Novo, aquele de oitenta e dois foi incrivelmente diferente e feliz. Diferente pela sensação que ali nascia sob a qual eu enterrava de vez os mortos que haviam me obrigado à gula e à frivolidade em todos os Réveillons até ali. Feliz, pela alegria até então desconhecida de ser irônico em vez de amargar o tédio. Aprendi ali a gozar com a ironia que aniquila qualquer vestígio de seriedade que imaginei haver entre mim e os outros na entrada de Ano Novo. A prova da felicidade estava ali à minha frente: ao redor da mesa. Todos de branco, risonhos e aparentando jovialidade como se a festa de final e início de calendário fosse naquele dia exclusivo a primeira de nossas vidas cansadas. Quantas vezes ainda iríamos repetir a data que, em vez de alongar a existência, encolhia mais e mais os nossos dias de futuro consumado? Os mesmos pedidos, os três pulinhos na onda do mar, as oferendas a Iemanjá, a lentilha, a romã, os abraços doídos entre músculos fracos e velhos... Era ao tempo que rendíamos graças desde a primeira confraternização. O tempo, agora zerado da ilusão de que o novo nasce uma vez mais entre o anoitecer e o amanhecer de um único dia. Estourei o champanhe... Enchi-me da felicidade de todos repetindo os gritos e urras. A minha alegria era tão falsa quanto o brilho colorido dos fogos de artifício queimados a alguns metros da praia. E foi naquele Réveillon que enterrei de vez a fé sem fé que me levara a exaurir qualquer possibilidade de começo ou de fim. Naquele encerramento de mais um calendário eu compreendi que no lugar da necessidade de limite e ilusão de começo tínhamos a vastidão aberta do meio dia que não conhece vigília nem sono. Lembrei com gratidão as palavras do poeta Pópó, a quem jamais dei ouvido, a quem nunca tive o atrevimento de convidar para o Réveillon. Ele, invariavelmente bêbado no último dia do ano, diz para a plateia de amigos no bar A derrota: “pode o padre repetir em todas as Missas do Galo que o novo ano começa. Pode a ciência inventar fórmulas e oferecer eternidade aos homens, mas enquanto houver dia e noite eu estarei bêbado e sem tédio.” O tédio, que não suportou a ação continuada das horas debaixo do esplendor de fogo àquela hora do dia primeiro, deslizou sonolento entre os convidados crentes de começo.  

Ana Barros
Natal, Jan/2016

domingo, 4 de setembro de 2016

A luz da lamparina

 Quatro contos

   I – Angelina
 II – O casamento de Rosa
III – O senhor da luz
IV – A morte do contador de histórias


I – Angelina

Angelina acabou de fazer 15 anos. Contava duas menstruações quando o primeiro namorado começou frequentar a casa. Nos primeiros dias ele chegou cedo e, mal o pai da moça pigarreou ao fechar portas e janelas, bateu em retirada. Angelina, que já conhecia os princípios do homem educado nos ensinamentos de Frei Damião de Bozzano, antes que ele gritasse “pra dentro!”, pedia a bênção trêmula de medo e corria a se fechar no quarto mal iluminado com os reflexos da lamparina acesa apenas quando tudo virava breu. “Quanto desperdício!”, bramia o pai apagando a lamparina se passasse um segundo da hora determinada. Porém, com o passar do tempo, o namoro criou sarro e o pai disse à moça: “a partir de hoje vou estabelecer horário de alisar banco aqui em casa. Diga aquele fofa bosta que enquanto a lamparina tiver gás ele pode ficar com você entre mim e sua mãe. Acabou o gás, arribe”. E assim foram seis meses com as horas, antes entregues aos cochilos ao pé do rádio e às orações a Nossa Senhora, consumadas na vigilância dos namorados. Certa vez, cansados das tarefas do dia e da obrigação moral em vigiar a filha, os pais de Angelina adormeceram no banco e só retornaram do longo cochilo quando já fazia cinco minutos que o gás havia acabado e a escuridão era absoluta no ambiente no qual os jovens permaneciam sentados entre os donos da casa. De um salto, e já com o palito de fósforo aceso, o pai puxou o rapaz pelo braço e o empurrou porta afora. O gás havia queimado até a última gota e o jeito foi usar a caixa de fósforos riscando um a um os palitos para chegar até o quarto da filha onde parou à porta e aproximou a chama quase esvaída do rosto de Angelina na suspeita de confirmar algum vestígio de pouca vergonha. Constatou, portanto, que os cabelos da moça estavam rigorosamente presos à nuca, detalhe que o fez pensar satisfeito: “ela é mesmo uma santa!”.  Porém a mãe, como toda mãe que vê e adivinha no escuro, viu que a blusa da menina tinha três botões fora da casa.
                                                           
                                                                   * * *

II – O casamento de Rosa


Na folhinha faltava uma semana para o casamento. As galinhas estavam presas, a cachaça a caminho do brejo de Areia, o bolo decorado com os noivos de porcelana esperado como a peça mais importante depois do vestido. Este, trazido do Juazeiro do Padre Cícero por um caixeiro viajante e escondido de todos para não dar azar, fora comprado com a venda de dois garrotes. O pai de Rosa engordou os bichos na mira de dar à filha o melhor e mais bonito traje da região. Aliás, todos sabiam da virtude da moça e da fortuna da família. O casamento da única filha não podia ser motivo de falatório da cabrueira vulgar. E foi no domingo anterior à data da cerimônia, momento no qual os homens distintos se sentam à sala para receber cumprimentos e visitas ilustres, que o vestido de Rosa foi entregue nas mãos do senhor da casa com o cuidado que se dá a mercadorias como ouro e joias preciosas, uma vez que vestido de noiva também é símbolo de poder e influência na província. Apenas Rosa e a mãe viram a encomenda embrulhada no papel branco e arrumada na caixa retangular enlaçada com fita de cetim também branca. Não menos de 10 vezes naquele dia ela abriu o baú para ver o traje de renda imaculado. Por esta felicidade é que nenhum detalhe podia ser desprezado pela moça, cuja educação tinha por base casar virgem e com rapaz de boa família, máxima repetida pelo pai tão zeloso da honra quanto negligente com o salto dado pela menina em direção à mulher em que se tornara. O esquecimento da passagem da infância à vida adulta deixara Rosa completamente sem noção de como seria sair da igreja e ir direto para a cama fazer o que era pecado e condenação caso não recebesse as bênçãos do padre. E foi no ritual preparado para uma virgem inocente que ela, acostumada a dormir com a lamparina acesa, hábito que facilitava o pai observar pelo buraco da fechadura se a moça escapava à noite, se viu em completa escuridão com o noivo ofegante de desejo a tirar-lhe o vestido, a combinação, a anágua... sem que ela movesse um dedo para frear a alegria do rapaz. Aquela noite seria relatada mais tarde às amigas como a mais quente e feliz da vida da mulher cujo pai exaltou a pureza por ter crescido longe da maldade do mundo. Mas Rosa, que quase não falava, não tinha necessidade do mundo ao qual o pai se referia para aprender as coisas. Vivera até ali longe da maldade humana, porém perto dos animais, com os quais experimentou o que os pais jamais saberiam, não porque ignorassem ou não fizessem também, mas por que a filha tinha que zelar pelo bom nome, regra básica para arranjar casamento. Mas Rosa, mais íntima dos instintos que da racionalidade prática e interesseira dos de dentro de casa, nunca prestou atenção ao real sentido das palavras “moça de família”, “zelo”, “virtude”, “bons modos” e “bom casamento” que ele, o pai – esposo digno, empreendedor, austero e temente a Deus –, repetia mal a filha sentava à mesa para tomar o café da manhã. E foi observando o hábito metódico e rotineiro do pai que aprendeu também a repetir as palavras. Dizia sempre “sim, senhor!”, “não, senhor!”, “entendi!”, depois dos sermões matinais sem se dar ao trabalho das contestações próprias de filhas que duvidam da retidão e das certezas dos pais. Em vez do conflito de opiniões, e Rosa não sabia o que era conflito nem opinião sobre o que quer que fosse, desenvolveu uma maneira de driblar a presença ostensiva do pai. Enquanto todos ainda dormiam, ela se dirigia ao curral onde parava diante da cena que a iniciou nos prazeres do sexo. Viu muitas vezes o touro subir na vaca sem que esta nada fizesse para desvencilhar-se das patas do animal. Das longas observações aprendeu o que era não ter “bons modos” nem “temor a Deus”, palavras exaustivamente repetidas em seu dia a dia por aqueles que tinham o poder de decidir o que era “bom” e “certo” para uma “moça de família”.

A noiva estava luminosa quanto o sol das oito, àquela hora, filtrado sobre o altar pelas brechas do telhado. O pensamento parava ora no curral, ora no quarto com o homem com quem se casava. Seguiu os pormenores do ritual com o silêncio e a obediência de filha que não dá desgosto. Finalmente disseram sim um ao outro, trocaram as alianças e desde então ela passou a se chamar dona Rosa S., esposa de J.S. Com a permissão do padre e da proteção da Virgem emoldurada na parede acima do espelho da cama, o noivo olhou a imagem, persignou-se, beijou a medalhinha de São José, santo protetor dos maridos, que a mãe havia pendurado em seu pescoço, e apagou a lamparina com um sopro. De seu lado a noiva, que sempre disse “sim, senhor!”, “não, senhor!” e “entendi!”, sem se dar o trabalho de aprender algo ensinado com as palavras, tomou a calcinha da mão do marido e arremessou-a na imagem que contemplava os dois sob o véu de tristeza que toda santa carrega depois de renunciar a sexo e à paixão do mundo. Mas Rosa, que dizia sim à carne e jamais dera atenção à virtude das santas, mugia e mordia o pescoço do touro.
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III– O senhor da luz

Na casa de Malaquias o mundo tem hora de acabar: às vinte, depois da Voz do Brasil, que ele ouve sozinho sem que ninguém o acompanhe nas informações dadas pelo locutor de voz empolada e sotaque sulista que tanto admira. Tanto que, no café na manhã do dia seguinte, ele repete as notícias imitando a afetação do locutor com a seriedade de quem acredita no próprio talento e nas informações oficiais. Enquanto o marido ouve o programa, a mulher escolhe o feijão do almoço e os filhos, duas crianças e dois adolescentes, sabem que, terminada a transmissão, chega o momento da escuridão total. E, tomados da ansiosa necessidade de traquinar o máximo que podem, os jovens param de repente ao ouvirem o repórter dizer “boa noite!”. O pai se levanta do tamborete colado ao rádio, boceja, coça a barriga, lança a gosma escura de fumo mascado no canto da parede, de onde já escorre um pequeno riacho, mija de cima do batente da porta e suspende a lamparina pela asa no começo do corredor, onde a fila, encabeçada pelo mais velho, passa solene. Um a um pedem a bênção e desaparecem guiados pelo silêncio da mãe.
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IV – A morte do contador de histórias

“Padrim morreu!”, gritou o afilhado da porta da sala no momento em que Seu Luis silenciou para sempre a arte de fazer mentira virar verdade. Ele, como ninguém, soube dar alma à ficção sem que duvidassem da farsa: “um grande fazedor de mundos em seu próprio reino de faz de conta”, disse padre J. ao terminar  a extrema unção sobre o corpo ainda quente do macumbeiro, increu e filho das trevas, adjetivos com os quais exortou nos sermões de suas missas mulheres e crianças a se afastarem das garras demoníacas do contador de história, este que, envolto na atmosfera noturna da cozinha de sua casa, encantou a todos de quem fosse amigo ao emendar uma história à outra até a hora em que abrisse a boca três vezes: “Basta!”, dizia e se levantava indo em direção à porta da rua onde ouvia em coro: “bença padrim!”.

Único filho de dona T., viúva desde cedo, já passava dos 40 anos quando a mãe morreu. Mulher mal humorada e de difícil trato com a vizinhança não gostava de ninguém em sua casa, também não ia à casa de ninguém. Se quisesse conversar com os amigos, Seu Luis tinha que ir até à pracinha da rua onde se formava um círculo em torno do homem conversador. Porém, agora, livre da presença dominadora de dona T., ele abre as portas e os potes de biscoitos escondidos no guarda-roupa pela dona da casa para receber os vizinhos, todos, compadres, comadres e afilhados. Os compadres, no entanto, homens sérios que nunca davam uma risada se o assunto não fosse tratado ao pé do ouvido e carregado da malícia dos homens que só se sentem livres na presença de outros homens, jamais de mulheres e crianças tagarelas, não faziam parte daquele público alegre. Se alguém perguntava o motivo da ausência deles no ambiente quente da casa de Seu Luis, tão ao gosto daqueles para quem a vida é brincar de faz de conta, diziam: “o compadre? sei não!... além de não ter casado só fala bosta... papo furado pra engabelar menino besta e mulher que deixa os afazeres pra ouvir lorota de velho no pé do fogão”.

Dono de uma coleção de mais de duzentas histórias aprendidas dos folhetos de cordel, Seu Luis guardava tudo na memória. Em sua casa não se via livros nem estantes, mas muitos cordéis e almanaques antigos dentro de um baú de couro de boi. Apesar da variedade de temas, apenas uns poucos encantavam a plateia tantas vezes o compadre contasse. Uma delas, “O anjo que virou cão”, era contada e recontada no pequeno recinto iluminado pelas labaredas do fogo de lenha e da chama mortiça da lamparina, cujas sombras fantásticas ilustravam a história mal-assombrada. Seu Luis contava e mostrava o cordel ensebado das mãos da plateia ávida de suspense. Ele fazia questão de que todos pegassem o folheto no qual podiam ver a ênfase que o autor dava à desobediência e à punição de Lúcifer. Divertia-se em observar o terror nos olhos dos meninos e o espanto traído pelo riso de mofa e falsa cumplicidade das comadres. Alguns dos afilhados, instruídos nas aulas descoladas do professor Chico Ciência, carinhosamente apelidado por eles de C.C., e de maluco pelos pais, viam na xilogravura do diabo semelhanças com algumas capas dos discos de rock do professor. “Padrim, posso levar pra mostrar a professor C.C.?”, perguntou certa vez o mais roqueiro da turma, ao que Seu Luis respondeu tomando o folheto da mão do afilhado: “nem pense! Se ele quiser que venha até aqui.” A gravura do cão passava, assim, de mão em mão provocando simpatia e nenhum terror naqueles atentos mais à beleza da imagem que à condenação do anjo. De novo o cordel terminava na mão do dono da casa, que abria o baú velho e guardava o folheto à chave para outra noite quando ninguém mais se lembrasse dos versos.   

Era com o nome cão, ser das trevas, de chifres, rabo, patas de cavalo, cheiro de enxofre, tridente e cor tão escura quanto a fumaça da lamparina, que Seu Luis impressionava as crianças ao contar mais uma vez “O anjo que virou cão”. “Padrim, só tem cão preto?”, quis saber o menino roqueiro cuja pele era preta e não se achava nem um pouco parecido com o cão. “Só, meu filho! Só existe cão preto. O pecado queima os couro. Lúcifer era galego qui nem padrim!”, respondeu Seu Luis embasado nos conhecimentos de folhetos nos quais as profecias do mal eram confirmadas nos sermões do Padre Cícero. E, para dar testemunho da verdade que alardeava ao pé do fogão diante de olhos inocentes e crédulos, ele, nu da cintura para cima, pois se tornara hábito não vestir camisa à noite, estirou o braço curto, gordo e peludo, tão vermelho que mais parecia uma lagarta de fogo, e disse: “vejam, eu nasci galego... mas os meus pecadinhos deixaram a minha pele assim, sarará, cheia de pintinhas.”, completou Seu Luis estirando o outro braço para que todos pudessem ver as marcas que o pecado deixara em sua pele. Só que ele não imaginava que algum tempo depois a sua teoria ganharia mais ciência que as aulas do professor C.C., estas, sistematicamente explicadas aos mesmos alunos que, à noite, na cozinha de Seu Luis, esqueciam as experiências rigorosamente comprovadas por gênios e doutores e embarcavam com o padrinho nas aventuras que este, sábio de longas leituras de folhetos e almanaques, dava provas. Vejamos, então:

Seu Luis estava morto. Comadres, compadres e afilhados fizeram questão de velar o defunto a noite toda. Entre uma xícara de café, namoro no alpendre, ladainha de Nossa Senhora, cachaça à vontade e conversa cacete de bêbado, a noite passou sem que ninguém pensasse em apagar as lamparinas. Um dos compadres, com receio de que faltasse querosene, comprou um latão de dez litros, suficiente com sobra para queimar a noite inteira. Quando o dia clareou não se fazia mais necessidade da luz da lamparina. sol invadira a sala e foi dar de cara com alguns encolhidos sobre sacos de arroz, outros estirados em bancos encostados à parede, os nem aí pra céu e inferno, já bêbados, entornavam o último litro de cachaça de uma caixa de dez. O afilhado de Seu Luis, o mesmo que pedira o folheto emprestado em nome do professor C.C. e que perguntara se havia outra cor de cão além daquela carimbada como a preferida do coisa ruim, acordou desorientado e com os olhos colados de remela. Ao ver sob o véu da sapiranga o rosto do padrinho, este, antes do menino adormecer, transformado em máscara de cera, e naquele instante de luz intensa feito o próprio capeta, pulou berrando de cima do saco de arroz: “padrim virou cão!”. O rosto de Seu Luis estava negro da tisna da lamparina que havia iluminado o defunto noite adentro.
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Ana Barros
Natal, 13 de fevereiro de 2016.
(concluída em 31 de agosto de 2016)