sexta-feira, 4 de maio de 2012

O terceiro ato


A última vez em que a pedra atingiu o alvo eu não morri
Apanhei a pedra e arremessei de volta com o cinismo dos mortos
Você rangeu os dentes ao ver que o escudo
feito por mim havia se rompido e a pedra além de ferir
retornou perfurante – não por vingança – pois esqueci
de agir e os fios partidos abriram à doçura gasta
“A vez é sua” eu disse deixando o palco
Sem olhar você vestiu as máscaras e os papéis
dos meus antepassados dos meus antepassados dos meus
(ante) passados... Começava
o terceiro ato

Ana Barros

domingo, 22 de abril de 2012

A estética do feio (II)


Saí de casa sem nenhuma pretensão à felicidade. Saí por pura vontade de mundo, nada mais. Nem tédio nem alegria, apenas o contentamento por achar-me entre estranhos e saber que as possibilidades de me desencontrar eram enormes e nada fazer para ser diferente. 

Pisava João Pessoa pela primeira vez. E, ao chegar naquela cidade calma, limpa, organizada e sem o comércio caótico de ambulantes no Calçadão da linda praia de Tambaú, tive a sensação de que ali encontrava “a promessa da felicidade”, que eu havia desprezado na turba de Ponta Negra, mas ressurgida naquele paraíso onde os homens pareciam ainda mamar nas tetas da Mãe-Terra.

Logo deslumbrei com a aparência de paz e equilíbrio surgida das ruas e casarões conservados como se os seus donos doutrinassem do além regras e costumes, ainda tão vivos entre povo e cultura.

À noite, como em todas as excursões, os grupos se dividem por afinidade e ganham os espaços oferecidos pelo pacote turístico ou então se aventuram a conhecer os recantos mais exóticos e excluídos do roteiro fechado entre agência e guia. Mas em J.P., como repetia o guia tagarela, só havia três opções de lazer: a Orla de Tambaú, o Shopping Manaíra ou ficar em casa. O meu grupo escolheu passear no Calçadão de Tambaú. E a surpresa foi enorme ao me deparar com uma realidade completamente oposta a que vivenciara em Ponta Negra. Encontrei pessoas felizes passeando como se estivessem numa pracinha do interior. E não são doidinhas nem playboys que invadem o Calçadão, não. São pessoas simples, comuns do dia a dia de uma cidade de porte médio como J.P. São moradores acostumados a passear, sim, passear como antigamente, sentar nas beiradas das calçadas, namorar, entabular uma conversa com o compadre ou a comadre, chupar roletes de cana, sim, em J.P. vende-se roletes de cana, enormes tapiocas recheadas de coco, carne e queijo acompanhadas com enormes canecas de café servido em bules de alumínio. É um momento de encontro, diversão e gastronomia caseira, daquelas de sentar no mercado e comer com muito gosto, sem a preocupação com a fria e falsa etiqueta de shopping center.

Depois de andar para cima e para baixo, de me acomodar entre dezenas de pessoenses famintos e alegres e de comer a minha tapioca com coco e tomar a caneca de café preto, voltei ao Calçadão na esperança de encontrar algo comum em outras capitais: a pulsão urbana, a vida noturna que escorre nos becos, a contradição escondida à luz do dia dos normais. Mas quê! Nenhum sinal do diferente, nenhum mendigo, nenhum noiado, nenhum ladrão; nenhuma prostituta, nenhum veado, nenhuma garota de programa, nenhum punk ou tribo de preto, nenhum camelô vendendo qualquer tipo de mercadoria. De repente parei de andar e sentei-me com os demais na beira da calçada e me espantei com a tranqüilidade que tomou conta de mim diante daquela ausência de movimento e decibéis acima do suportável no interior de carrões importados, de crianças e marmanjos insistindo por uma esmola ou pela aquisição de alguma quinquilharia. Porém... não o estalo do belo sentido no caos de Ponta Negra: “como, será possível que em tão pouco tempo eu tenha esquecido o outro lado da vida pulsante, das forças antagônicas encarnadas naquele domingo em Ponta Negra?” Foi então que me dei conta de que os valores, moralmente fortalecidos e adormecidos na cultura do em torno, ainda sombreavam o meu poder analítico tanto quanto a opressão simbólica dos casarões sobre os costumes de J.P., a qual, tanto no nome quanto na bandeira do Estado da Paraíba, com seu slogan Nego (afirmação do próprio João Pessoa na querela da política café com leite) banhado de vermelho, sangue de João Pessoa, e do preto, luto por João Pessoa (governador da Paraíba assassinado em 1930), carrega o peso da vaidade de um único homem e da exclusão da maioria, justificada pela História oficial.

Retornei a Natal três dias depois cheia da ingênua alegria romântica de paraíso reencontrado e logo quis compartilhar com meu filho a surpresa de encontrar um lugar tão natural e ainda limpo da civilização globalizada. Qual foi o meu desapontamento ao ouvi-lo dizer enfático: “Mãe, João Pessoa é uma cidade macho; povo e elite!” Foi aí que a minha ignorância sócio-antropológica foi ao chão. Foi aí que enxerguei o porquê de “limpeza” da cidade; de seus prédios sem as pichações e sem os graffitis tão característicos dos centros urbanos da atualidade; do secretário estadual de cultura Chico César declarar à imprensa que o governo não iria financiar duplas sertanejas nos festejos juninos; da ausência dos “malucos”, dos travestis, dos drogados, das garotas e dos garotos de programas, dos vendedores ambulantes, dos moradores de rua, enfim, de tudo aquilo que, no meu tédio moribundo-pequeno-burguês, havia odiado em Ponta Negra.
Percebi que em J.P. havia, voluntária ou não, uma contenção, um controle das pulsões de homens e mulheres. E como na existência nada acontece sem o seu oposto, sem a sua negação, imaginei a sede de liberdade e de contradição enclausurada, escondida, dissimulada em alguma parte da cidade. Possivelmente há indivíduos atuantes na periferia do núcleo cultural que, independentemente do poder cristalizado, transcende de forma niilista ou não a morte da cultura.

A imagem perfeita para concluir este artigo não poderia ser outra senão a de Báucia e Filemo, personagens míticas do Fausto (Goethe), cuja casinha em cima de um monte era o que ainda insistia de permanente num mundo fluído e moderno. Fausto, em sua cegueira desenfreada por desenvolvimento e fuga do tédio, não suporta a visão daquele pedaço de memória e manda tocar fogo nos velhos e na casinha. Ergue-se no local mais um novo empreendimento.

Ana Barros

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Erótica

Longas e curtas
Por terra e ar
viagens que façam passar
à marcha lenta
velocidade máxima –  viajar
em cima de quatro rodas
de duas rodas de quatro pés de dois pés ou
em cima de coisa alguma quando
o corpo parado voa
nos dedos lúdicos de Onã

Ana Barros

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A estética do feio

Há uma frase de Stendhal que afirma ser o belo uma promessa de felicidade (Stendhal, De l’amour), sendo tal afirmação desconcertante e destruidora dos conceitos universais do belo. Sem nenhum compromisso com verdades, o autor dá liberdade para conhecermos o belo em qualquer circunstância ou objeto. Ou seja, achamos belo aquilo que sensivelmente nos toca e proporciona prazer, podendo até mesmo ser feio, abjeto e desprezível a olhos educados numa cultura segregacionista na qual o diferente é posto para fora dos padrões ideais.

Para Stendhal, sensualista que escreve sobre as experiências do corpo e não sobre uma realidade fantasma, a estética tem a ver com a percepção e as necessidades imediatas de cada um. Pensamento tão atual, parecendo mais uma observação de um crítico de nosso tempo, cuja arte se destaca pela multiplicidade de formas, gostos e tendências, principalmente na arte dos fragmentos dos grandes centros urbanos.

Pois bem, foi pensando na promessa de felicidade de Stendhal que saí de casa tomada de tédio e da solidão causada pelas manhãs de domingo em indivíduos chatos como eu para ir à praia de Ponta Negra onde, todos diziam, eu iria encontrar o belo numa natureza exuberante de mar e dunas, de corpos perfeitos etc. e tal.

Mas ao pisar a areia de Ponta Negra descobri que a minha promessa de felicidade não era a mesma das pessoas que invadem a praia mais famosa de Natal. Vi o quanto se afastava do ambiente frívolo e popular a promessa de felicidade a que eu necessitava no momento para aliviar o mau-humor de domingo. Mas, e se essa promessa de felicidade for justamente uma promessa de frivolidade? Ou ainda de fruição no meio de prédios, calçadões, carros de luxo, barulho e vendedores de toda espécie?

Constatei desolada que ter ido à Ponta Negra era o mesmo que me aventurar num passeio na Avenida Rio Branco ou no Centro comercial do Alecrim num dia qualquer da semana com apenas uma ressalva: na Avenida Rio Branco e no Alecrim podemos andar gratuitamente entre camelôs, mendigos, vagabundos, malandros, carros etc., e isso, claro, absorvidos de sua própria poética de caos. Mas em Ponta Negra... Não! Lá eu buscava a promessa de felicidade e por isso não conseguia enxergar o que se escondia atrás da farra mundana. Haveria ali o belo?

Em Ponta Negra quem não quiser ficar exposto ao sol, pois lá não existem árvores nem sombras, tem de alugar uma cadeira com sombrinha por alguns reais. Mesmo assim, em pouco tempo a praia ficou coalhada de gente vinda de todos os lados. Dezenas, centenas de sombrinhas coloridas, cadeiras, carros de côco, de picolé, de sorvetes, de milho verde, fogões que andam com seus panelões fervendo ocupando os espaços no meio de corpos pouco à vontade entre o mar e uma pequena faixa de terra disputada por uma turba ávida de prazer e de sobrevivência. Quis me desesperar: Cadê a promessa de felicidade? Calma, disse para mim. Procure não ser tão radical e tente descobrir aí algo que leve você ao belo. Nada! Não conseguia ver nem sentir nada além do tédio de estar num lugar igual a todos os lugares do mundo onde nos deparamos com a evasão e o anonimato de nós mesmos e do outro, tão próximo, que chegamos a tocar na pele molhada e com gosto de sal. Bastava me virar um pouco para tocar o braço molhado do homem que havia sentado colado à minha cadeira. Tentando ser o menos rabugenta possível recorri à reflexão: Será que também não há estética aqui? Será que esse mundo de cadeiras e sombrinhas, esse formigueiro humano, uns buscando, como eu, a sua promessa de felicidade, outros vendendo felicidade, não é também - belo?

Levei alguns minutos nessas conjecturas estéreis de quem tem dificuldade de entregar-se à magia gratuita das sensações e da sensualidade andando de um lado para outro, pois ainda não havia me decidido se virava atleta de domingo e ia correr no calçadão, ou se assava ao sol de quase 40 graus, ou se alugava a cadeira com o sombreiro por R$ 5,00, ou simplesmente ia embora ainda mais entediada e cheia do vazio causado pela ausência de felicidade.

Mas o inusitado aconteceu quando sem querer esbarrei numa conhecida que conheci telefonista da antiga Telecomunicações do Rio Grande do Norte há mais de 20 anos, empurrando um carrinho de milho cozido: “De férias?” “Não, fui demitida.” De repente como num clarão senti o belo. Estava ali na minha frente, consumada, a promessa de felicidade. E com os olhos cheios de lágrimas aluguei uma cadeira e um sombreiro e fiquei por ali comendo milho cozido, churrascos e bebendo água de côco até sentir vontade de fazer xixi. “E agora, meu Deus, que faço?” Caminhei um pouco e mais adiante encontrei outra conhecida que também não via há bastante tempo. E foram abraços e confraternização de amigas que se gostam apesar da distância uma da outra. Olhei ao redor e estranhei o local onde ela se encontrava, uma vez que era funcionária pública e tinha um salário razoável. Minha amiga encontrava-se sentada atrás de uma banquinha de castanhas e amendoins torrados. Perguntei se era sua. Ela riu e disse “não... eu trabalho próximo daqui e todos os dias venho neste horário ficar um pouco por aqui enquanto a menina vai ao banheiro”. Naquele instante percebi que não sabemos nada dos homens e mulheres da rua; nunca nos interessamos saber onde moram, onde comem, onde tomam banho, onde fazem xixi... Mais uma vez envergonhei-me da inutilidade do meu tédio e da invisibilidade que fazemos questão de ostentar diante do mundo que resolvemos pintar de branco.

Voltei para casa à noitinha pensando ainda na sentença de Stendhal e vi que era retórica romântica ter o belo como promessa de felicidade quando a infelicidade nossa e do outro pode efetivamente nos presentear o Belo. Na leveza daquela frivolidade, a qual num primeiro impulso quase repeli e fui embora, havia um peso insuportavelmente vivo, nervoso e banalizado: homens e mulheres a procurar na praia mais badalada da cidade não a promessa de felicidade, como eu, funcionária público pequeno-burguês entediada buscava, mas algo real e concreto como se manter vivo no mundo, com ou sem o belo; com ou sem felicidade. Enfim, quem penetrasse os segredos daquele cenário pulsante e desprezível perceberia não o feio que embrutece mas a estética que o transcende. O Belo, neste caso, não é a promessa de felicidade, mas a descoberta do essencial. E a descoberta do essencial costuma trazer não felicidade, mas angústia e inquietações.

Ana Barros

quarta-feira, 28 de março de 2012

Entrega

Que venha a dor mais cruel
E sufoque peito e vísceras
Mate-me se for possível
Pois estarei mais feliz
Que faça arder a úlcera
E retese em mim os nervos
Refúgio já
Não procuro
Bebo os soluços mais longos
É deles que cuspo mel

Ana Barros

terça-feira, 20 de março de 2012

Quarta-feira de cinzas

Quarta-feira de cinzas é um longo, belo e difícil poema de T.S. Eliot publicado em 1930. Por coincidência comecei a ler o texto na semana que antecedeu o carnaval e senti de imediato a necessidade de escrever algo a respeito para publicar na quarta-feira de cinzas. Porém foram tantas, mas tantas, as releituras, que só agora pude concluir uma leitura.

O poema se divide em seis partes com perfeita coesão entre elas, apesar de, numa leitura apressada, acharmos que o poeta se perde em fragmentos e palavras sem sentido. No entanto, depois de algumas idas e vindas encontramos um poema de grandeza semelhante à angústia existencial de Kafka e à necessidade de ascese intelectual de Schopenhauer. O tempo e a repetição das realidades que morrem e retornam num espaço e num tempo para cada ato é o que norteia todo o texto com suas idas e vindas sobre o mesmo tema: nascimento e morte, cujo processo de individuação carrega de angústia o poema, chegando ao ponto de elevação da memória a um status maior que o corpo (ossos, vísceras, olhos e as partes indigestas rejeitadas pelos leopardos).

Uma leitura apressada e parcial pode considerar quarta-feira de cinzas um texto religioso e pessimista. No entanto, nada mais falso. Eliot usa e abusa de símbolos cristãos para afirmar e justificar a sua visão moderna e real de mundo, um mundo sem mais quaisquer vestígios de ilusão e romantismo que retirem do homem a sua condição de ser finito com todo a tensão e drama que essa consciência acarreta. A ênfase que ele dá à simbologia católica é a mesma que um poeta ateu usa em expressões mundanas, às vezes nem tão sutis, para revelar a mesma imagem. É na exaltação de uma dúvida sobre o existente e o não materializado que podemos enxergar uma profunda falta de fé. É a ausência de confiança, a angústia e o desamparo que marcam os poetas modernos. Porque ultrapassaram os limites do desconhecido é que os define como poetas do existente, talvez niilistas, mas com um pé adiante na busca da autonomia com a morte de Deus.

Quarta-feira de cinzas começa já com uma negação: “porque não mais espero retornar/porque não espero/porque não espero retornar.” Não retornar das cinzas de suas ações significa permanecer na quietude e no silêncio mental, no desmanchar-se para ser apenas uma memória no meio da vida ordinária que não para de repetir-se no seu eterno fluxo de vida e morte. Agudo conhecedor das entranhas existenciais e experimentando em si a tentativa de superação dos instintos mais originais da vida, o eu - lírico toma como representação do seu sentimento de fuga a velha águia, ("por que abriria a velha águia suas asas?". Observa-se neste verso a sugestão de maturidade e auto-exclusão, de adesão à tragédia existencial. A velha águia repousa prenhe de sabedoria não se importando de fechar as asas depois de altos voos no “esvaído poder do reino trivial”. Há aqui uma desistência de conhecer a verdade, pois descobre que o instante efêmero é que é o poder e dele nada fica e nada retorna à realidade uma vez perdida: “Porque sei que o tempo é sempre o tempo/E que o espaço é sempre o espaço apenas/E que o real somente o é dentro de um tempo/E apenas para o espaço que o contem.” A realidade aqui assume uma tragicidade quase insuportável, pois cada realidade acontece dentro de um tempo e de um espaço ao mesmo tempo infinitos, porque repetidos, e exclusivos para cada ato que afirma. É apenas um instante, tudo de novo volta a ser espaço e tempo vazios que de novo vão ser preenchidos por momentos. Apesar da niilidade de tudo, o eu - lírico se alegra da dinâmica da qual ele não espera nenhuma resposta, nenhum retorno, pois sabedor do instante que passa ele afirma suas ações no mundo, ações as quais ele tem o prazer de rejubilar através da memória de seus feitos: “Porque estas asas de voar já se esqueceram/E no ar apenas são andrajos que se arqueiam/No ar agora cabalmente exíguo e seco.” O corpo ágil, ativo e cheio de impulsos viris, agora é repouso, aniquilamento da ação que ora representam os andrajos no ar exíguo e seco de realidades. “Ensinai-nos a estar postos em sossego.” Há ainda desejo, mas apenas na memória que presenciou a devastação de todas as ações do instante. Agora o eu - lírico pede o ensinamento do sossego e do menosprezo diante do esvaimento de tudo: “Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte”...

Na parte II o poema enfatiza a desmaterialização. Numa espécie de sonho o eu - lírico vê três leopardos que descansam saciados “de meus braços meu coração meu fígado e do que havia na esfera do meu crânio.” O poeta aqui eleva ao máximo a dependência do homem da vontade bruta. Graças a ela, a quem chamamos natureza, o homem em fulgor resplandece. E o que agiu, o que amou, o que pulsou (braços, fígado, coração e memória) foi apenas por meio dos impulsos e não em função da razão e de uma realidade estável. Ficou de tudo apenas a memória, animada pelas lembranças do homem lúcido e sem mais vontade no reino trivial. “E eu que estou aqui/ dissimulado”... A memória invisível do poeta é o único registro de seus feitos, os quais ele oferece ao esquecimento. Mas o seu amor, ele consagra “Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos/Isto é o que preserva minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas que os leopardos rejeitaram.” Há uma duplicidade de sentimentos nesta parte. Num momento, mostra o poder ativo do homem no mundo simbolizado pelos braços, o coração, o fígado e o cérebro, escolhidos como alimento pelos leopardos (a vida selvagem). A vida oscila entre ação e nulidade. A ação de responsabilidade dos órgãos pulsantes, ágeis e metabólicos, quando no fim de sua existência tem como triunfo (?) o esquecimento de seus feitos. “E eu que estou aqui dissimulado/Meus feitos ofereço ao esquecimento.” No outro, revela o amor “aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.” Com o instante, ou seja, com a realidade em seu tempo e espaço finitos, resta o aniquilamento de tudo que agiu no instante presente. O espaço agora vazio das ações dos homens, as quais passaram a resíduos metafísicos, será novamente preenchido pela mecânica das ações no tempo e no espaço. É esta imagem a que os leopardos (a vida) rejeitam por representar a contínua e fragmentada individuação. Na rejeição dos leopardos pelas partes “indigestas,” visceralmente ligadas à existência, há o desejo de completa destruição do homem: “Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas”, realimentam a vida, fazem rebrotar na terra gasta o que a própria vida excluiu. Aqui podemos perceber um quê de romantismo platônico, pois o que parece superior, as idéias, a memória, a razão, a vida se apropria com gozo e júbilo. Já os impulsos, os olhos que tudo veem, as vísceras, são partes indesejadas (corpo, desejo), abandonadas ao fluxo existencial (nascimento e morte). Sente-se neste ponto do poema uma inquietante angústia diante da individuação num tempo e num espaço que não guardam nada, que tudo transforma em cinzas. “Eis a terra que dividireis conforme a sorte.” Quanta solidão e afirmação na dor de ser esquecido e de também esquecer: “Esquecendo uns aos outros e a nós próprios.”

A III parte nos faz lembrar A Divina Comédia, de Dante, com as três passagens, sendo a última etapa, como em Dante, a proximidade do paraíso quando o eu - lírico chega bem perto da porta celestial e implora a sua entrada: “Senhor, eu não sou digno/mas dizei somente uma palavra.” Há também nos últimos versos da III parte a impossibilidade de céu, de certeza, de segurança, porém, a força para existir além da esperança e do desespero: “Frêmito, música de flauta, pausas e passos/Do espírito a subir pela terceira escada/esmorecendo, esmorecendo; esforço/para além da esperança e do desespero.” Continuando com a necessidade de transfiguração, na IV parte do poema encontramos um alento nessa entrega ao tempo e ao espaço devoradores, quando o poeta trata a afirmação como objetivo maior do homem. É da afirmação de “quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias.” Mais adiante a ênfase outra vez ao movimento entre nascimento e morte. “Eis os anos que permeiam, arrebatando/Flautas e violinos, restituindo/Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, /oculta.” Aqui fica claro o eterno retorno da natureza que vigia oculta e que retorna e sucumbe para novamente retornar e sucumbir. Mas é graças aos “herdeiros” do amor e aos “frutos ressequidos” revigorados e afirmativos, que a vida é vida mais uma vez. “Até que o vento, sacudindo o teixo, acorde um coro de murmúrios/e depois disto nosso exílio.”

A V e penúltima parte do poema reforça a ideia metafísica de que há o “Verbo” nas entranhas do mundo. “Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo/o Verbo sem palavra.” Temos aqui a angústia por não se atingir o Ser que tudo manipula, que mata e faz renascer indefinidamente, queiramos ou não. O real é o Verbo e o Verbo está oculto e é silêncio. “E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete/rodopiando em torno do silente Verbo.” Se o Verbo é silêncio e está oculto, somente aquele que conhece esse Nada real não evita a sua face e o afirma e se une a Ele em êxtase, esquecimento e júbilo. Porém, sem esperança nessa possibilidade, o poeta pergunta: “Rezará a irmã velada por aqueles/que nas trevas caminham, que escolhem e /depois te desafiam,/Dilacerados entre estação e estação, entre/tempo e tempo, entre”... Um doloroso pedido para “aqueles que escolhem e desafiam.” Ou seja, o homem age mesmo sabendo de sua finitude. Age e desafia o tempo e o espaço como se fossem eternos e neles tentam edificar uma realidade sustentável, a qual, paradoxalmente, só se efetiva num tempo e num espaço determinados. E é no acender e apagar das ações que acontece o retorno, aqui descrito com uma bela imagem bíblica: “O deserto no jardim o jardim no deserto/da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.” Uma referência ao mito da individuação (paraíso, Eva, maçã). “Cuspindo a murcha semente da maçã/Ó meu povo.” Repetição da individuação ao máximo do tolerável. Mas a vida quer, independentemente da vontade do homem desperto e em vigília; quer e, além de querer, faz tudo retornar: “O deserto no jardim o jardim no deserto.”

Chegamos ao fim do poema afirmando o Tempo fragmentado em tempos e espaços que brincam de matar e ressuscitar; que tudo transforma em cinzas e destas faz rebrotar a vida, a vida que desespera o poeta, lúcido de sua tragédia e que pede para não mais retornar desejando no “crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o/nascimento e a/morte.” Por último, o pedido que resume a intenção ascética permeada do começo ao fim do poema: “Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo/Ensinai-nos a estar postos em sossego.”

Ana Barros

terça-feira, 13 de março de 2012

Leveza

Deixei que a superfície erguesse
o que havia escondido na desfaçatez do riso
Fui frívola desde que vi a morte
Fui frívola em todas as horas de pesar quando
em vez de matar
gargalhei com desprezo e
pisei no pudor dos semblantes infelizes
A dor?
Excessiva e generosa rasgou
a sensual leveza dos meu olhos

Ana Barros