sábado, 24 de maio de 2014

MÃOS VAZIAS



 Os retratos e a necessidade que os mantém a decorar a sala mesmo à distância que afasta sem matar guardam a impressão do gozo próprio dos momentos de tensão anterior à calma que vem dos movimentos de desatenção com o que esconde o desejo idealizado. Mas o que tem a ver o fracasso do desejo idealizado com as fotografias amarelas e a minha serenidade? Talvez o fato de não aprisionar lembranças de algo apesar de tentar em vão agarrá-lo antes de engolir – o tempo. Ao olhar de novo o retrato com manchas a cobrir a camisa de linho branca do homem que parece chegar de uma noitada – há ressaca nos olhos – penso nas noites insones que passei debruçada à janela tomada de angústia à espera de um vulto cambaleante na imersão da noite. Ou ainda quando já era dia e o sono apoderava-se do corpo amolecido na morbidez do álcool, eu, na ponta dos pés, pontilhava a penumbra das cortinas descidas no silêncio tumular da ilusão em que o objeto do meu desejo se demorasse trazendo com ele a calma de um coração baqueado na ausência do conforto morno dos que dormem tranquilos sob os mantos da indulgência. E os retratos oxidados da parede da sala são a indulgência emoldurada que me deixam com as mãos vazias e a calma que silencia diante da imagem gasta.

Ana Barros

quinta-feira, 15 de maio de 2014

UMA FORMIGA



Duas sacolas verdes de náilon fazem de mim uma formiga
Uma sacola de um lado a outra sacola do outro lado
Equilibram o meu andar de formiga
Contrário ao inseto de K
Salto à rua com o peso sem no entanto pesar
Uma formiga soberana e sem trono
Pode as asas no caminho deixar
E os fardos violados amar

Ana Barros

sábado, 10 de maio de 2014

A MÃE



Ir a pé ao supermercado em dia de domingo cortando caminho pelas ruas e becos do conjunto popular é um convite às recordações do tempo em que o prazer da mãe era reunir a família em torno da mesa no dia cristão reservado ao descanso. Aprecio o cheiro das flores e arbustos que encontro nos pobres jardins onde floram as sempre-vivas e os cravos silvestres. Mas o espanto fica por conta do cheiro que vem das cozinhas, cujas donas já foram à feira, muito cedo ainda, e agora, desdenhando o olhar pidão e cacete do gato, mexem a carne de boi ou de frango sob a alquimia dos temperos que os filhos, já adultos, casados e com filhos, não deixam de saborear, pois filhos são impregnados dos cheiros da mãe, tanto da pele quanto dos alimentos que, desde o nascimento, põe na boca dos rebentos.

Pode alguém pensar que me refiro a uma mãe do século passado visto que, com a independência da mulher e a socialização dos restaurantes, nenhuma mãe hoje em dia cozinha para marmanjo que se lembra dela, a mãe, só em dia de domingo no intuito de “filar” um rango. Sou mãe, mas no domingo cozinho só para mim. Isso sem causar traumas a ninguém. Meu filho pediu alforria da mãe e do sabor de sua comida. Algum drama? sim, pois ninguém se desfaz da cultura do dia para a noite. Porém, o melhor veio logo após o esvaziamento da pia e do fogão sem chamas no dia santo.

Entendo que nem todas as mulheres trilhem os caminhos que as levariam se desfazer do que sabem melhor: cuidar, proteger e se fazer lembrada por aqueles que mais ama utilizando-se da magia da cozinha, símbolo evidente do laço eterno, em muitos casos, só desatando com a morte da mãe. Subo na calçada para sentir melhor o aroma de carnes e legumes que toma conta da rua. Olho tudo ao redor e o cenário é igual em todas aquelas casas com jardim, quintal e a varanda onde descansam as cadeiras de balanço, as quais após o almoço e a revoada dos filhos, noras e netos empanturrados da sobremesa que exigiram, sorvete de flocos, serão ocupadas pelos donos da casa sonolentos, sozinhos e entediados.

A crônica de domingo é a repetição ofegante desde que essa mulher se casou e os filhos nasceram, até que chega a velhice e ninguém percebe o cansaço da mãe e o sem sabor da comida de vez em quando queimada pelo esquecimento que aporta na idade. E sem qualquer aviso chega o dia que a todos visita e derruba a mãe sobre uma cama de viúva. As panelas são desprezadas num canto da cozinha e alguém é chamado para cuidar da velha doente. As visitas escasseiam-se. Os filhos, noras e netos estão muito ocupados e não têm tempo para cuidar de doentes tampouco para visitas aos domingos, dia de levar João no curso de férias e Júlia ao shopping com as amigas. “Aliás”, lembra a filha mais velha com a razão exata dos justos, “não fizemos a vaquinha para pagar a auxiliar?” Mas... onde os filhos, noras e netos passaram a almoçar no domingo?

Pode ser que o círculo não tenha se fechado com a doença e morte da mãe. Pode ser que comece tudo de novo na casa de um ou de todos os filhos, agora pais de jovens com namoradas, logo logo casados. Mas também pode ser que, com a morte, tanto simbólica quanto física da mãe, uma nova história comece a despontar. Aqui lembro o poder de afirmação da consciência individual no romance “A Mãe”, de Gorki, cujo desenrolar leva uma dona de casa oprimida pelo marido, operário alcoólatra e violento, este, reflexo de uma sociedade brutalizada, a se libertar como revolucionária. Mãe de filho único, analfabeta, mas com grande poder de percepção de mundo e dos homens, aliás, muitos dos personagens de Gorki são analfabetos e marginais, condição que não os impede de refletir e se transformar.  Na perspectiva humanista de Gorki, a mãe se liberta lentamente na medida em que o filho, Pavel, que é operário da fábrica, vai lhe mostrando a necessidade de participar de outro mundo mais interessante que o confinamento numa cozinha. Mas Nílovna quer mais, quer aprender a ler para compreender o que o filho e os amigos leem clandestinamente até altas horas da madrugada. Em pouco tempo ela vai superar todos com a sua força, inteligência, coragem e solidariedade ideológica, não mais tomando como base a religião, porem, a ética que desabrocha perante a dor e o abandono do homem por Deus. Nílovna não é ateia, mas esqueceu de rezar...

O romance A Mãe é um grande exemplo de como fechar um círculo opressivo e desumano. Nílovna, como qualquer ser humano livre, jamais abandonará a cozinha ou as panelas. Mas o fará agora como escolha, e uma escolha não para ser útil aos filhos e sim como parceira de uma história que tem um sentido, que é a conquista de si mesma. Ela não só cozinha, lava, costura, estuda, cuida de camaradas enfermos no Hospital, dialoga com camponeses e operários, como viaja a pé ou de trem longas distâncias para distribuir material de propaganda revolucionária. Pavel está preso com outros. Os que ficaram apoiam a mãe em todos os sentidos. Apesar da diferença de idade, vivem juntos a mesma realidade. A realidade dos que conseguem forjar a sua própria independência. “Só são verdadeiramente homens aqueles que arrancam as algemas da mente humana. Pois agora, a senhora também, por esforço próprio, tomou a si esta tarefa”, diz Andrei a Nílovna, emocionado com o aprendizado da aluna.
 
Foto: domínio do Google
 










Ana Barros

sábado, 26 de abril de 2014

SEM VALIDADE



É um prazer ter pais comerciantes e desde cedo conviver com a rotina de uma bodega. Conviver, principalmente, com a diversidade de pessoas que diariamente entra e sai do pequeno estabelecimento. Aqui e acolá ainda encontramos algumas vendas semelhantes àquelas que ficaram para trás após o desenvolvimento da técnica, da expansão das cidades, dos códigos sanitário e dos direitos do consumidor. Na sociedade da validade, fica difícil imaginar-se adquirindo alguma coisa sem rótulo e fora do prazo, aos montes dentro de um saco ou empilhados num canto de parede úmido onde os insetos pululam e o bolor toma conta dos grãos. Não faz muito tempo, todos que residiam no interior do Nordeste sobreviviam da cultura de subsistência e das compras feitas em mercearias e bodegas da cidade mais próxima, quando se realizava a troca do trabalho produtivo pelos gêneros não produzidos no campo. O desuso da balança, dos pesos e das medidas representa um avanço nas relações de compra e venda, porém, celebra a morte do contato direto entre vendedor e cliente, cotidiano de toda uma história de profunda ligação do homem à terra, aos animais e às parcerias campo e cidade. A impessoalidade e frieza dos supermercados e Shopping Center, com suas normas, funcionários falsos e fachadas padronizadas mundo a fora, fazem os mais românticos sentirem saudade da proximidade do dono da venda, apesar do balcão ensebado e das moscas varejeiras voando sobre as carnes expostas ao livre toque das mãos. O elo mais forte da relação entre bodegueiro e cliente não era a higiene nem o frescor dos alimentos, valores essenciais nas transações contemporâneas, mas tão somente o vínculo de confiança de duas pessoas que acreditam na honestidade uma da outra. Essa característica do comércio dos dias de nossa infância tem seu símbolo maior na caderneta do fiado, acordo firmado pelas duas partes, cuja quebra se tornava quase impossível uma vez que a necessidade e a proximidade com o credor deixavam o cliente vulnerável à alcunha de velhaco pelos vizinhos, todos, amigos do comerciante. Gostava de observar o momento em que se dava o negócio, meu pai do lado de dentro do balcão, de calças de tergal preto vincado e camisa de linho xadrez clara e o comprador do outro lado, chapéu de palha, cigarro pendurado no canto da boca, hálito de fumo misturado com aguardente, bolsa de palha e um saco branco para acomodar os mantimentos: “Compadre Antônio, me despache aí meia barra de sabão, meia libra de café, meia libra de açúcar, um mercado de óleo Benedito, uma garrafa de querosene, meia garrafa de pinga e um mercado de fumo. Anote na caderneta. Pago ainda esta semana quando vender o milho.” “Tá tudo aí no saco e anotado, compadre,” dizia meu pai depois de pesar, medir e embrulhar os mantimentos. Gostava particularmente do sábado, dia da preparação para a feira do domingo. O balcão, comprido e escuro, com uma pequena abertura que dava passagem, ficava cheio dos mantimentos embrulhados com a habilidade dos dedos de meus pais que, logo após, arrumavam, um a um, nas prateleiras de madeira fixadas nas paredes laterais da pequena loja que meus olhos de menina viam como um espaço enorme.

Ana Barros


DO BLOG "VOZ DE AREIA BRANCA"
 

domingo, 6 de abril de 2014

O TEMPO MINGUADO

As lembranças da infância raramente coincidem com a volta ao objeto empurrado para trás com os cheiros e os sons que animaram a vida em começo. O baú com dobradiças de latão e que guardava as roupas usadas uma única vez no ano, nos festejos natalinos, é talvez o símbolo mais alegre no terreno do imaginário calcificado. Com que curiosidade olhava aquela arca que ocupava os pés da cama de casal sem jamais ser aberta diante dos meninos e das meninas da casa, tratados pelos adultos com a indiferença que tudo observa e dissimula como assunto sem importância. Além do baú e das malas de tábua, todos os utensílios e móveis usados no cotidiano eram vistos com a admiração de quem observa não a utilidade imediata, mas a beleza que deixa para sempre impressões de prazer. O pilão deitado, o moinho, a chaleira e a cuscuzeira de barro, as panelas e os potes, também de barro, o fogão de lenha sempre aceso, os bancos e a mesa de madeira rústica, todos ali ao alcance da mão que não conhece Bombril nem alumínio, mas tão somente o peso literal da matéria extraída do solo e transformada em formas redondas ou alongadas. Nada, porém, se compara à surpresa de voltar á casa onde nasceram os pais e onde se deu os primeiros passos. De grande não há mais nada a não ser a frustração de ver que a memória mergulhada nas configurações de uma época despertou no presente real do objeto que virou história. A casa se fez minúscula, acanhada, baixinha, sem a magia nem os fantasmas do corredor escuro. Os utensílios majestosos agora são cacarecos inúteis desprezados no quintal. Os móveis, roídos e oxidados, escoram alguma parede mole ou servem de abrigo à cadela com filhotes. Nenhuma roseira ao redor, nem a horta suspensa no jirau para evitar os cururus, nenhuma galinha de pintos ciscando no terreiro, nenhum jumento disputando o monturo com os porcos, nem mais um daqueles homens rústicos com a enxada no ombro e o cigarro de palha no canto da boca. Nada mais ali tem a ver com a memória redescoberta no tempo das coisas mortas e dos homens de tempo minguado.

Ana Barros

Foto: acervo do Memorial dos Fortunato
                                 



sábado, 22 de fevereiro de 2014

E DO SAL SE FEZ UMA SALADA

Se alguém perguntar o que mais gosto da vida sem pensar digo que é a necessidade de brincar. Brincadeiras às vezes absurdas a uma existência dos fast food que só vendo para acreditar nas aventuras compartilhadas apenas por amigos que se deixam andar por terras ainda úmidas de gente, cheiro e sabor. Pois bem, Vou falar aqui não das inúmeras experiências vividas na infância do sítio Gurjaú, com Tutu e meus irmãos, mas da última, brincada na casa de Pium da amiga Marilu Albano.

É domingo de manhã e só tem na geladeira um pedaço de carne de sol, um punhado de proteína de soja, um coco seco, uns 100 gramas de goma e um quilo de farinha de mandioca. Tudo bem dou um jeito de fazer alguma coisa para o café e o almoço, eu disse. Quero sal e o rapa-coco, pedi à dona da casa que respondeu: “Só tem sal grosso para churrasco. E raspar o coco, só se for com uma colher.” Tentamos com a colher, com o garfo e nada de sair a carne saborosa do coco já quase todo roído pelos nossos dentes afiados. “O liquidificador, passa pra cá a faca que já já corto esse danado em tiras e o trituro no liquidificador.” “O liquidificador não tem copo”, ouvi a desculpa. Insistente disse que a comida sairia de qualquer jeito, pois não iríamos embarcar numa aventura? “Vou pegar o rapa-coco da vizinha,” se prontificou a dona da casa trazendo além do rapa-coco um molho de alface e outros dois de coentro e cebolinhas, tudo cultivado na horta, ali, fresquinhos e dados à vizinha que só tinha em abundância para o almoço das visitas sal grosso colhido do mar.
                                                                                   Foto: Belki Albano
De posse dos ingredientes, raspei o coco, soquei a farinha de mandioca com o coco até ficar um grude e fui amassando com o pouco de goma até formar uma boa quantidade de massa de beiju. Esquentei a assadeira e fui dando forma às massas com cheiro dos alpendres de antigamente. E, em vez de duas tapioquinhas transparentes que mal alimentaria uma pessoa, fiz cinco lindos e fartos beijus amarelos, pois a farinha de mandioca era colorida. Ah, e o sal? Como foi que eu temperei o beiju? Simples assim: a minha amiga e dona da casa é uma antropóloga que tem uma tábua de carne imensa, presente de um amigo que também gosta de coisas de índio, e uma pedra de alguma gruta perdida por aí mais um pote de sal grosso, tão salinizado que o depósito de argila parece uma peça de arte cravejada de cristais, lindo por demais. Enquanto a proteína da soja hidrata, pilo o sal com a pedra e num instante estão prontos os beijus e uma paçoca maravilhosa feita com a soja e o pedaço de carne de sol que, na falta do liquidificador, piquei miudinha com a faca e misturei à proteína.

Já passa do meio dia quando os amigos Belki, Ziza e Carmela sentam-se à mesa com Marilu e eu para saborearmos a comida farta e saudável feitas com o mínimo de ingredientes e o máximo de amor.

Ana Barros