quinta-feira, 3 de outubro de 2013

AMULETO



Apesar de toda tecnologia do mundo virtual e positivismo de um homem saturado de ciência e objetos de consumo, através dos quais pensa viver no "melhor dos mundos", há uma vivência paralela, à margem e bombardeada pelos fragmentos desorientados e às vezes loucos que são jogados sobre quem vai passando ao largo. Para livrar-me da descarga venenosa pensei: aonde buscar o antídoto? Noutro tempo, não muito longe, procuraríamos o curandeiro, a benzedeira e a cartomante para os banhos de sal grosso, de ervas, adivinhação do futuro e a promessa de cura com ramas verdes, murchas à medida que iam surrando a imundície que emporcalhava corpo e espírito. Porém hoje...

É bobagem achar que as coisas mudaram com a chegada das redes sociais, principalmente do Facebook, que nos dão a ilusão de que somos altamente bem informados e resolvidos, não carecendo mais de patuás nem de despachos em encruzilhadas, bastando para isso compartilhar com os amigos virtuais fotografias e informações nem sempre belas nem confiáveis. Pois bem, nunca se viu tanta mandinga, catimbó, patuá, pai de santo e terreiro como nos dias atuais.

Diante de um tempo conceitual ao extremo, que apenas passa o dedo sobre a tela e o aparelho vai fazendo e definindo tudo, cabe aqui a pergunta: para quê o místico se a frieza da máquina nos salva das crises existenciais próprias de um romantismo cujos ídolos e mitos não só estão mortos como ultrapassados? Porém, a realidade paralela à virtual diz que homens e mulheres continuam sentindo e sofrendo igualmente a todos os seus antepassados, pois, apesar da sofisticação de hábitos cosmopolitas, cuja massificação dá a ilusão de que todos são iguais, continuamos humanos, sozinhos, frágeis, doentes, carentes e mortais.

Arrastada pela onda que leva todos, até mesmo os mais reacionários, me vi diante do artesão cabeludo da Praça Padre João Maria, espaço famoso de Natal pela aura não só mística como também hippie dos anos oitenta, pedindo socorro para que me ajudasse limpar o lixo que emaranhara-se na minha cabeça ainda com fios de cabelo amarrados ao museu dos costumes. Com voz pausada de guru baiano ele disse: "Você não deve olhar o lixo de frente... não o encare jamais!” Sua ênfase lembrou o mito de Perseu na versão de ítalo Calvino: “Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar, Perseu se sustenta sobre o que há de mais leve, as nuvens e o vento; e dirige o olhar para aquilo que só pode se revelar por uma visão indireta, por uma imagem capturada no espelho”. Qual é o seu signo, jovem?" "Libra", respondi. "A sua pedra é o citrino, esta aqui." Mostrou-me um lindo amuleto pendurado num cordão preto e o amarrou no meu braço contra os olhos do monstro que porventura viesse em minha direção.

Gostei da elegância do artefato preso acima do pulso, o que me fez chamar a atenção para a mesma prática em corpos de crianças nordestinas e, bem recente, na cabeça de meu neto Heitor que, por orientação de um remanescente da cultura africana, experimentou o que foi comum em bebês para sobreviver às intempéries da natureza e à maldade dos homens, estas, em tudo iguais umas às outras. Para isso, colava-se uma trouxinha de alguma mistura semelhante à cera de abelha numa das mechas do cabelo do pequeno ou amarrava-se o patuá num cordão e pendurava no bracinho ou no pescoço do recém-nascido. Não sei se interferiu em alguma coisa na existência de Heitor e dos demais meninos e meninas nordestinas. Sei apenas que continuo com o meu amuleto preso ao braço em posição estratégica contra o mau-olhado.

Ana Barros

domingo, 29 de setembro de 2013

VELÓRIO DE ANJO




Há dias minhas lembranças, que são por demais lá do cafundó, me fazem sentir vontade de escrever sobre um assunto muito comum na minha infância de zona rural: o velório de anjo. Anjo porque criança morta é símbolo da mais profunda piedade e elevação às alturas, sentimento comparado à pureza de um anjo. E como foram muitos os meninos e meninas de morte prematura àquela época de poucos recursos sanitários e consequente higiene precária! Nos inúmeros velórios que fui na companhia de Tutu e de meus irmãos ouvi as mulheres dizerem em voz baixa que a criança havia morrido de “mal do sétimo dia”. Vim saber mais tarde que aquele diagnóstico popular era a simples e terrível denominação do tétano, doença naquele tempo de falta da luz elétrica e de informação, tão assustadora que, para pronunciá-la, dava-se três tapinhas na boca seguidas da expressão “Ave Maria. Ave Maria. Ave Maria”.

Por esse tempo conheci uma senhora, já velhinha de mais de 80 anos, sem filhos nem companheiro, cuja falta de cuidados com os recém-nascidos levou a enterrar oito anjinhos. Quando jovem, além de passar os dias trabalhando em lavouras de senhores proprietários de terra, ela ainda dava escapulidas com os companheiros de labuta, o que a fez parir constantemente sem condições materiais para cuidar dos filhos. Diziam as conhecidas à boca miúda, que a amiga deixava o recém-nascido na rede o dia inteiro enquanto trabalhava ou ia às brincadeiras com os camaradas da roça. Ninguém para dar uma olhadinha, uma mamadeira ou um chá ao pequeno. Em poucos dias, no máximo sete, quando a mãe retornava da roça ou do rala-bucho, o bebê havia virado anjo. E lá corriam as carpideiras a lamentar o pequenino, ora dentro de um caixãozinho de madeira ordinária, ora sobre um lençol estirado no chão batido com círios ao redor.

Apesar da tristeza que me fazia perder o sono depois dos velórios aos quais sempre fazíamos questão de ir, pois era um motivo para sairmos à noite, não deixei de admirar, e até hoje tentar reproduzir em meus trabalhos manuais, a renda de papel seda branco que as mulheres faziam para cobrir o caixão dos anjos. Depois de vestirem o pequeno defunto com uma túnica branca de algodão, enfeitavam-no com jasmins, também brancos, e por cima, em vez de véu, uma manta de renda belíssima de papel.

Ana Barros


Ana Barros

terça-feira, 24 de setembro de 2013

FUMAR JÁ FOI UM... CHARME



Lauro apagou o cigarro antes de entrarmos no bar onde ele, com a atenção e o cuidado de todas as pessoas bem informadas, leu o aviso pendurado na parede ao lado, o qual dizia ser proibido fumar naquele lugar. Logo abaixo, o número da Lei em negrito. Gostei da atitude de Lauro não por eu ser uma adepta dos bons costumes nem tampouco me considerar uma pessoa politicamente correta. Gostei porque trouxe à lembrança a fragilidade dos costumes aos quais nos agarramos como a moral mais exata e permanente quando, observemos, não passam de quimeras, cinzas jogadas no tempo. Uma dessas quimeras é justamente a atual proibição do fumo em lugares coletivos e fechados e o patrulhamento dos adeptos da boa saúde. Senão, vejamos a história dos hábitos de nossos antepassados de cinquenta, cem anos atrás e vamos constatar, com certa melancolia, a nulidade no presente de quase toda a moral instituída por eles como verdade. E, se continuássemos vivos além de cem anos, haveríamos de presenciar a derrota de todas as nossas convenções.

Olhei Lauro esmagar o toco do cigarro sob o sapato e vi outra cena de tempos muito para trás quando, ainda menina de sete, oito anos, acompanhava meu avô Chico Pereira na "degustação" de um longo e grosso cigarro brejeiro, ou "pé-de-burro", como era vulgarmente chamado entre os camponeses. Longe de imaginar que um dia aquela permissividade seria punida com o rigor da Lei, meu avô, como todos os adultos que não só fumavam na presença e com as crianças, mas as levavam com eles para ajudar no trabalho do campo, outra prática hoje substituída por auxílios de governo, picava o fumo de rolo numa tábua, fazia o cigarro seguido por seus trabalhadores e por mim, que observava como os homens enrolavam o papel seda, ou mesmo o papel de embrulhar o pão. Esse ritual acontecia sempre depois do almoço, entre a sesta e o retorno ao roçado, com os homens portando o resto do cigarro molhado de saliva escura atrás da orelha para fumar em algum instante qualquer, amparado no cabo da enxada.

Jamais fumei um cigarro até o fim. O estômago começa a embrulhar, a cabeça roda e não paro de cuspir o resto do dia. Insisti várias vezes no vício que meu avô, minha mãe, irmãos e tios desenvolveram largamente e sem impedimentos de ninguém, hábito que mais tarde, junto ao uso do álcool por alguns, traria sequelas e morte. Insisti, mas o organismo sempre rejeitou o que noutros era prazer. E foi graças à fraqueza da minha fisiologia para os transportes motivados por algumas drogas lícitas como o tabaco e o álcool, que não me tornei usuária, nem dessas substâncias nem de outras que, por ser matuta e vir parar na capital já formada na cultura do medo, passaram invisíveis por mim, não só pelo medo incutido como pedagogia mas, principalmente, pelo físico propenso a adoecer.

O que observo aqui é a importância das coisas em que nos cercamos num momento como prazerosas para logo adiante deixarmos de lado como nocivas, pecaminosas, feias e não mais necessárias. Aqui o costume passa a ser crime, ou não, dependendo da sociedade do momento. O que é comum proíbe-se e vira Lei, ou esgota-se no hábito e vira consumo, ou corrompe-se a Lei nos usos à margem do poder. Ou ainda criam-se leis para justificar os usos. Quanto a meu avô, sem conhecimento de nenhuma norma proibitiva, deixou de fumar o seu "pé-de-burro" uns dez anos antes de morrer, aos 70.

Ana Barros

terça-feira, 17 de setembro de 2013

SOLO DE OUTONO



Esquadrinhava os cômodos que abandonei na confusão de rendas amarelas e perfumes fora de validade, quando senti grande alívio em trincar o espelho que ainda ontem avaliava o meu corpo parnasiano. Percorri sem pressa o caminho que leva à praia sentindo os seixos machucarem a carne amaciada com beijos falsos e cremes de Paris. Pensei: “Thais no deserto do arrependimento?” Não... não peço como pede a mulher desvairada de liberdade consumada a um monge miserável e louco e culpado e de sexo encolhido na frustração do desejo – que me livrasse do inferno da culpa. Até porque as faces excitadas onde o religioso poderia cuspir a sua saliva impura – murcharam. Embora eu traga entre as pernas um rio seco sem mais vazantes nem cardumes a intumescer o ventre, exulto à alegria de pisar o solo rugoso tão velho quanto o tempo, tão diluído quando à luz. Exulto à alegria da natureza vazia que cria o novo e repele o que exaure sem um deus para espiar corpos deformados. Os pensamentos voam ao vento ancião e impotente da noite que foi facho e agora sombra. Caminho e toco as ondas mortas e jogo fora os panos castos que insistem esconder o que antes despia. E longe da superfície me entrego ao fantasma do nada que me empurra correnteza abaixo sem se preocupar com o dia que nasce e que de novo é novo nos ponteiros do relógio.

Ana Barros