domingo, 24 de outubro de 2010

A insistência das coisas

Busquei todas as coisas e senti a essência escondida
em cada esquina virada, em cada etapa vencida.
Juntei coisas, acervo sem vida. Mas eis que de repente em volta
as coisas, novamente todas, vi surgir dos escombros
de quimera e sina. Bateram minha porta, chamaram lá fora.
Escondida fingi não ouvir. Fingi, pois o eco rasgava uma vez mais
a pele do meu fantasma.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

As três mulheres

Duas horas e ainda escuto
sussurros da natureza que vive
lá fora. Na sala de estar
as redes de franjas longas relaxam
mamãe e tia Ló
Dois pares de seios moles se desmancham
debaixo da camisola transparente e
a boca aberta de mamãe mostra a gengiva fina e sem dentes
Há pouco, cochilavam de frente pra televisão e a aura
de vazio que vi sair de seus corpos
dizia solidão de mil derrotas. Sofriam
das fendas da carne consumada. Mas o espírito
desconhecia as inquietações
nas quais naufragara o meu que
lúcido de mim
velava por nós três

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Em si


Aquela velha que encontrei ontem a caminhar
tinha a indiferença de quem viu tudo,
a convicção do real e nenhuma ansiedade mais
Observo a leveza da espinha – passos de ganso...
Andar orgulhoso e grávido dos gestos que ainda não li, pois, em mim,
há vaidade a inquietar nestes dias sem paixão em que
o olho passeia sem ver
Mas aquela velha viu

Ana Barros
Natal, 02/09/03

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A internet e as cabras

Era sempre a mesma sentença: “Estás excluída!” E um dia, lá estava eu de frente para o computador. Naveguei. Li tudo que por hábito selecionaria de um jornal, revista ou livro; desliguei o aparelho. “Mas quê! Já terminaste? És mesmo resistente!” Não compreendi. Aliás, como resistente se desde criança leio tudo o que me chama a atenção? Não era eu um daqueles privilegiados que leem mais de dois livros por ano? Então, resistente a quê? Será que era porque não compreendia imagens? Excluída de que se encontrava meu pensamento contemporâneo e fugaz tanto em meus vizinhos como nos livros, revistas e jornais impressos ou virtuais?
Certo dia, ainda com aquela sensação de que poderia ser uma excluída, fiz uma viagem pelo interior, serra verdejante, perfumada de flores e brotos diversos. Conheci seu Antônio, velho robusto, músculos rijos de tanto rasgar a terra e colher seus frutos. Ao me aproximar diminui o passo e observei longamente aquele homem baixinho, de calção de algodão cru e botinas de couro de vaca nos pés gretados, que se abeirava do chiqueiro das cabras com uma foice numa das mãos. Num salto matreiro, decepou o galho da mangueira e jogou às cabras famintas.
O silêncio ali era diferente, compacto, quebrado apenas pelo balido e o badalar fraquinho dos chocalhos pendurados no pescoço das ovelhas. O mundo se resumia àquele velho e suas cabras; mundo de ausência de tudo o que é civilização e ao mesmo tempo presença mítica de tudo o que promete a civilização. Pois não eram a liberdade e a inclusão, os mais altos valores da sociedade virtual, os mesmos valores daquele velho que tinha como companhia as cabras e o tempo?
Voltei para a cidade rindo dos meus amigos e de mim. Ignorávamos a dimensão das palavras liberdade e inclusão. Aquele velho tinha a inocência e a intuição necessárias à união da parte com o todo; ele era sim um incluído.

Ana Barros
Natal, 16/06/00

domingo, 22 de agosto de 2010

Medusa

Observava seu rosto quando me detive na imagem
tantos anos a mesma e só agora completamente dada.
Confirmava que o tempo expõe nossos vícios
à contemplação que suspeitou algo escondido,
criando lodo no fundo até um dia irromper na superfície
sem mais cuidados nem pudor. Você não me surpreendeu...
Desde o primeiro momento sabia que nos veríamos de frente para o espelho.
Você com o semblante alterado, a voz raivosa, a pele
marcada pelo cinismo cruel dos velhos míopes.
Eu a esconder o lado ruim que agoniza no subsolo e morre antes do gesto.
Pensei no encontro que teríamos na casa de R
e não senti vontade de ir nem de ver de novo a imagem
gasta que hoje sei por que nunca enxerguei de frente.
Talvez receasse encontrar a verdade
revelando-se aos poucos a uma percepção esquiva
sempre a desviar do foco quando a nudez é completa.
Mas a sua nudez era tão visível quanto a minha coberta.

sábado, 21 de agosto de 2010

Minimalismo

Aprendi a bordar com as aranhas
No labirinto minhas mãos tecem com Aracne
E teu corpo é o meu corpo, teu suor meu sangue
O verbo salta dos teus sonhos. Silêncio
Escrevo – nada

domingo, 8 de agosto de 2010

O olhar enviesado

Íamos em direção à Rua. Falávamos de nossas vidas. Você sofria não de você, mas de mundo. Vi seus olhos levemente molhados e parei no meio do caminho para beijá-los. Você estava triste pela humanidade e feliz porque eu compreendia o seu devotamento. Amei-o ainda mais e tive vontade, se o físico deixasse, de carregá-lo nos braços como quem carrega um troféu. Contentei-me, contudo, em apertar-lhe as mãos longas e magras como a dizer “você é o cara!” De mãos dadas e a sua cabeça doendo de mundo, a minha não pensava senão fotografar nuances de sua nobreza. Diminui o passo para aproveitar as impressões que a tagarelice intelectual dava início. Atravessamos a esquina que separa a Avenida do Beco, onde alguns jovens fumavam crak. Procurei seus olhos na certeza de encontrar a doçura que minutos atrás tanto amei quando você sofria de humanidade. E o que vi foi um olhar enviesado de quem não queria encontrar no caminho a Humanidade. Soltou minhas mãos, apressou o passo, voltou e puxou-me enfim pelo braço e, sem dissimular o repentino ar de enfado do rosto disse retirando o celular do bolso e digitando cento e noventa: “Vamos sair daqui!” Meu amado não tinha mais o olhar úmido nem quebrado, esperava ansioso a viatura da polícia.