domingo, 31 de dezembro de 2017

TEMPLOS

Não escondo minha irreligiosidade. Nem por isso cultivo indiferença a rituais, principalmente no período em que se comemora o nascimento do Cristo e a renovação do tempo. Se estou de frente à capelinha não evito o coro de anjos que chega até mim. Se caminho na rua do templo evangélico sou levada ao céu pela melodia gospel maravilhosa que vem na direção mundana da qual faço parte. Se escuto bater longe o tambor de Iemanjá, logo todos os terreiros tomam conta do meu corpo negro feito de mar. Porém hoje, véspera de Ano Novo, um novo e surpreendente ritual saudou logo cedo o fim do tempo consumado, fazer compras no mercadinho do bairro. O hábito de ir às compras no último dia do calendário é, talvez, o mais interessante entre todos os dias de compras no correr do ano. Interessante pela simples necessidade de matar algo, de livrar a carcaça do peso adquirido sem a reflexão de que um dia só não basta para desmanchar rochas metafísicas, nem aniquilar refugos espirituais apodrecidos na preguiça mental. Foi assim que, diferente de todos os templos conhecidos até aqui, eu descobria mais um, o mercadinho do bairro, no qual gostamos de esvaziar o saco com quem compartilhamos misérias produzidas no dia a dia do interior da casa. É puro êxtase esvaziar-se no último dia do ano, melhor ainda quando dentro do estabelecimento. Foi assim que chegamos, quase ao mesmo tempo, na gôndola das frutas tradicionais da ceia do Réveillon. Formávamos um pequeno e divertido grupo. Tagarelas alegres enchíamos as sacolas de peras importadas em promoção quando ouvi Júlia dizer alto “parece uma rapariga gorda”. Referia-se ao presidente Temer. “Kkkkkkk...”, gargalharam os demais que enchiam os sacos sem parar a conversa. “Mas Temer é magro e muito charmoso”, gritou o senhor de bengala com ares de militar da reserva e defensor do presidente. “É, mas tem o buchão de rapariga magra!” “Kkkkkk...”, gargalharam todos da analogia grotesca e politicamente incorreta da companheira de compras. O templo, ou melhor, mercadinho, acolhia seus fiéis com largo sorriso de cumplicidade e repondo as frutas macias e cheirosas. Os louvores, o gospel, as oferendas e as boas vindas ao novo tempo ali era escárnio contra o deus corrupto e mau. Júlia e grande parte dos clientes pagaram e foram embora. Os empregados mais uma vez renovam os alimentos com os preços tão altos quanto o dízimo cobrado pelos pastores das ovelhas jogadas no tempo do relógio que tictaqueia as últimas horas. “Deixe-me ir, querida!”, digo a Gracita, mulher de Antônio, meu colega na repartição. “Ainda vou pranchar os cabelos e passar o vestido... Vocês vão ver Bibi Ferreira na praça?”, pergunto encaminhando-me à porta. “Não... Vamos pra vigília da paz." E Ana Barros, tem notícia..., perguntei lembrando o primeiro nome das amigas do mercadinho que me veio à mente. "Ah, ela viajou com a turma da Terceira Idade... Réveillon em Tempo das Meninas."

Ana Barros
Natal, 31 de dezembro de 2017.

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