domingo, 23 de outubro de 2011

Confidências de um tagarela

Quando fiz doze anos olhei-me no espelho e disse, “quero morrer aos cinquenta". Ontem fiz cinquenta e o que me incomodou não foi ainda estar vivo mas a mudez do telefone que não surpreendeu com a voz feliz dos amigos, “vamos comemorar”? Talvez tenham até lembrado a data, porém, conhecia o desprezo deles por tudo o que era convenção. E não era por que fazia cinquenta anos que ia ser diferente. Eu é que sou convencional e cheio de entusiasmo pueril, valores ridículos que cultivei como artifício para tê-los em torno de mim, não por serem meus iguais ou coisa parecida, mas por ser, cada um, uma vaidade necessária à minha busca incessante de sensações e discussões intermináveis sobre a mais elementar perturbação que me deixasse de bode amarrado. Há pessoas que nasceram com alguma deficiência física ou mental e são levadas a conviver de bom ou mau humor com as limitações a elas impostas. Eu nasci com uma deficiência, física mesmo. Pois bem, a minha deficiência, mesmo sendo física, é invisível, subjetiva, só eu a conheço e a trato com os meus métodos dialéticos e verborrágicos que chegaram a causar brigas e mágoas profundas entre mim e Mariana, tão doce e camarada, mas tão vazia nas horas de argumentar alguma idéia que eu jogava para o grupo com uma mistura de genialidade e arrogância. Houve um tempo em que não esqueci sequer uma data que achasse interessante para algum de nós. Cheguei a aniversariar três vezes no ano só com o intuito de juntar a turma em torno de vinis de Pink Floyd, garrafas de qualquer destilado, tira-gosto de queijo provolone com azeitonas, maços de cigarro Continental e de longas discussões,cujo propósito era inferiorizar o cérebro do mais fraco de argumento levando invariavelmente aos palavrões e ao rompimento. Mas foi devido a esses encontros frívolos e narcisistas que cheguei aos cinqüenta e não me matei como planejei várias vezes ao contemplar o mundo cheio de ódio. Apesar do temperamento pessimista gozei o prazer dos que só conhecem o tempo presente. Quando dei por mim havia entrado na meia idade e os amigos, todos, tinham desaparecido, talvez se cansado da frivolidade do meu comportamento e desse meu hábito, que desprezavam, de fuçar as entranhas deles tentando arrancar de lá a menor mentira sob a capa de verdade. Fiquei desapontado com o distanciamento e tentei esquecê-los. Mas houve então uma coincidência dos fatos. Há alguns anos, acho que depois dos meus 45, passei a não dar mais tanta importância a datas nem a confraternizações. Talvez o cansaço de sempre ouvir o timbre azedo da minha voz dominando as conversas com um quê de sabedoria e superioridade, reforçando os mesmos conceitos, as mesmas impressões metafísicas que descobria em mim e nas centenas de livros que li e que deles tirava assunto para as discussões febris nas quais só eu compreendia, a descoberta frustrante de que nenhum dos meus amigos, além de não prestar atenção ao que a descoberta representava para nós e de fazerem gozações nas minhas costas, só iam àquelas reuniões para beber um bom vinho e provar da comida saborosa que eu mandava buscar, na minha conta, na Cantina do Portuga. Não nego as perturbações noturnas nem a vontade de procurá-los e dizer o que pensava de cada um quando percebi que as noites haviam se acalmado e o telefone emudecido, que ninguém mais me procurava, nem mesmo para saborear de graça a comida deliciosa. Teriam me esquecido? Mas hoje... Seria tão bom se me ligassem para uma farra qualquer... Eram cinqüenta anos... Eu, o último a entrar na maturidade. O penúltimo, Antônio, esqueceu que havia nascido só para não lembrarmos que envelhecera. Mas eu não aguentei o silêncio respeitoso e procurei ser o mais vulgar e grosseiro ao felicitá-lo no dia em que ele insistia esquecer que havia nascido: “Já encomendou o Viagra?” Ele, óbvio, não entendeu e eu mudei de assunto. Não só Antônio, mas Beatriz, a mais velha do grupo, deixou de dizer a idade e todos esqueceram o dia em que ela nasceu. Mas comigo foi diferente. Esquecido de morrer antes dos cinquenta passei a festejar o meu aniversário sozinho, com o copo de vinho e o silêncio da noite que chega melancólica depois de um dia sem os sinais da presença de quem gostaríamos ouvir bater a porta. Por que não inventei uma festa como fazia antes? Afinal, completava meio século e isso era um bom motivo para ser comemorado. Onde teria ido parar o entusiasmo juvenil que me levava a grandes euforias? Lembrei que quando fiz trinta anos, com uma calvície já bem acentuada e uma barriga de solteirão ocioso, descobri como saída honrosa para o meu fracasso estético entregar-me nas mãos do tempo sem maiores queixas. Descobri no pequeno intervalo entre a inconsciência juvenil e a maturidade amarga, que a fatalidade me atraía e que era impossível conhecer os seus encantos na juventude, quando o prazer se dá em desconhecer não a ruína que vai corromper um dia o nosso corpo mas a ignorância da vontade que incita o sexo. Se algum deles ligasse... Ainda dava tempo de comprar o vinho, as carnes, a lingüiça azeitada do portuga... Bobagem. Como posso querer isso se já não sabemos nada mais uns dos outros? Outro dia, Beatriz, que já havia passado dos 45 e começava a perder o viço daquela carne morena e lisa que tanto desejo provocou entre os homens do grupo, transando com quase todos, inclusive comigo uma dezena de vezes, disse na terapia de grupo que queria virar pó, pois nada mais lhe dizia respeito uma vez que havia perdido a juventude. Eu, que fazia parte da sessão, sem nenhum constrangimento retruquei e disse que o mundo é que não a queria mais. Tanto fazia virar pó ou não um sem fim de outros seres estavam encaminhados ou a caminho. Acho que por não me elevar acima das pulgas é que tenha aprendido a comemorar com bom humor a passagem dos anos. Pode ser que o que diga agora pareça blasfêmia aos ouvidos daqueles que têm horror da banalidade. Pois bem, não saberia existir fora da banalidade onde represento meus papéis e jamais dou cabo de mim mesmo. Paulo e Teresa não compreenderam as minhas atitudes e suspeitaram que eu fosse gay. Lembrei-me desse episódio quando reencontrei a minha primeira namorada dois anos atrás. Ela estava divorciada e eu, se quisesse, teria uma segunda chance. De repente, percebi por que não havia ainda me casado. Ela estava linda, magra, bem conservada sob o milagre dos cosméticos e dos disfarces da costura. Freqüentava a igreja e tinha um belo casal de filhos. Me perguntei o que faria ao lado dela feliz e resignada com a minha falsidade descarada. O que eu faria num banco de igreja ao lado de uma esposa casta e virtuosa, eu, cheio de pensamentos maus? Não. Mil vezes não. Melhor deixar como estava. Não incomodava nada a dúvida de Paulo e de Teresa sobre a minha sexualidade. Até porque, se fosse verdade a suposição dos dois, eu já havia adormecido as pulsões sexuais nas noites e noites de insônia em que me entregava aos questionamentos metafísicos e deles só me soltando quando encontrava uma resposta para as inquietações do espírito que não deixava de ser da carne. Mesmo sem dar a menor importância ao que meus amigos pensavam de mim percebi que algo havia crescido entre nós. Algo do tamanho de uma ponte que não nos sentimos com coragem de atravessar. Não por preguiça ou pela extensão da ponte, mas por medo do que haveria do lado de lá: uma prega no canto da boca desdenhosa de Paulo, os peitos murchos de Beatriz, a prótese na boca de Antônio, os óculos de grau no rosto marcado de Lourdes, alguns fios de cabelos brancos ridiculamente escondidos sob a tintura acaju da cabeleira escassa de Mauro, a obesidade matrona de Teresa, a impotência sexual dissimulada nas piadas libidinosas de Antônio, o flagrante de um casamento falido quando descobríssemos que Paulo e Teresa faziam parte do ECC (Encontro de Casais com Cristo), o meu celibato, o desespero de Cristina ao descobrir que os grandes lábios haviam murchado e que dois pentelhos brancos se destacavam impertinentes etc., etc.? Talvez fosse melhor não nos vermos mesmo. Nada mais tínhamos a dizer a não ser nos embriagarmos e repetir as mesmas conversas requentadas e ociosas do tempo frívolo que nos impulsionava a fazer tudo e a falar o que era para calar. Nu e de frente para o espelho, apanhei meu saco com a mão e descobri que as palavras um dia perdem a elasticidade como a nossa pele e nada mais temos a dizer ao outro uma vez que o cérebro agora se confunde com a periferia do corpo. Descíamos na linha do tempo e devíamos estar com a mesma cara de nojo, com o mesmo mau-humor, com a mesma sensação de ruína que cumula quem envelhece pleno de cinismo. Melhor não nos vermos mais. Evitávamos, além da conversa maçante, o constrangimento do real e o cansaço em responder perguntas vazias como “vai morrer solteiro?” “Como estás gordo e velho!” “Continuas pesquisando aqueles assuntos complicados?” “Por que não fazes o concurso da Receita Federal? O salário é 15 mil”... Mas seria tão bom ouvir a voz do outro lado do fio dizendo “vamos comemorar”? Quantas vezes ontem olhei o telefone... Mas o quê dizer quando as palavras têm sabor de coisa estragada? Sabia que não ligariam, mesmo assim esperei o dia todo perto da mesinha do telefone. Nada. Nenhum alô. Soube que Mauro e Alice são assessores dum político e ganha, cada um, salário de 20 mil reais. Ela fez plástica no rosto, aplicou silicone nos seios e na bunda e aparenta vinte anos. Ele diminuiu a papada e deu volume à cabeleira. Soube ainda que estão sempre viajando pela Índia – fazem parte de uma seita budista – ou passeando no shopping carregando grandes sacolas coloridas nas quais é comum encontrar lançamentos de Paulo Coelho. Confesso que quando soube do sucesso de Mauro e de Alice senti uma pontada de despeito percorrer o estômago. Um dia depois fui ao Shopping, não para encontrá-los, mas para também sentir o prazer que os dois gozavam no facebook. Depois de andar para lá e para cá, de olhar as vitrines e as meninas bonitas que sequer me dirigiram o olhar, senti os olhos míopes inchados de fadiga, pois havia escondido os óculos no bolso da calça na ilusão de encontrar uma jovem que quisesse trocar idéias comigo enquanto tomássemos uma taça de vinho. De repente parei no longo corredor iluminado e perguntei a mim o que faria se encontrasse num daqueles cafés o casal de amigos rejuvenescido, bem-sucedido, otimista e feliz. Gelei da cabeça aos pés e saí correndo em direção à rua onde chamei o táxi e caí no banco ofegante de medo.

Ana Barros

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