quinta-feira, 2 de maio de 2019

Alfinete da armadilha


                                                                      A Eloisa Araújo*
                       
        
Caminhava na avenida perfurada de gritos de homens maus
quando a chuva lavou os meus cabelos com os dedos finos
de Nanã. A minha mãe é um plano bruto
Além e atrás habita o pântano de onde comanda o fim e o começo
E eu sou o começo. Minha mãe é rizoma e também é morte
À noite vai à casa da velha deusa e torce o pescoço do galo
Tenho comigo o bastão retrátil que ganhei do meu padrasto
Meu pai caminha no gelo e malha ferro
Meu pai, que deita ao meio dia e sonha com ostras e pombos
É dele que guardo deserto e lâmina: Saias escondem facas
Da minha mãe não guardei nem perdi. Sou idêntica e mesma
força a modelar o barro que não endurece. Sou filha do lodo
Armadilha roxa presa no pescoço


Ana Barros
02 de maio de 2019.


*Jovem feminista de 21 anos agredida na Av. Paulista
por três homens eleitores do presidente Jair Bolsonaro.
Sete de abril de 2019  




quinta-feira, 11 de abril de 2019

O cheiro do ônibus


A sensação era a de que o ônibus ia se partir em bandas e jogar os passageiros no meio da rua. Num “salve-se quem puder” agarram-se ao longo do corrimão ensebado e se equilibram como podem. No entanto, fora a preocupação com a autodefesa, ninguém parece dar importância à falta de conforto do veículo, tampouco presta atenção à paisagem que margeia o caminho por mais de quinze quilômetros até o centro comercial, cujos manguezais e o grande rio de águas sujas imprimem uma atmosfera romântica à paisagem àquela hora da manhã. Vencidos pelo cansaço acumulado muitos dos que vão sentados adormecem e só acordam no ponto final quando o motorista empurra o pé no freio fazendo com que os dorminhocos saltem do assento e gritem gracinhas para o condutor apressado. A maioria faz o percurso em pé. Tem semblante vago e olhar perdido entre carros e edifícios e volta a si apenas quando alguém puxa a cigarra ou dá um empurrão para abrir passagem. Bárbara e eu passamos metade de nossas vidas fazendo parte do coletivo de estranhos que, mais tarde, descobriríamos ser o nosso real afeto. Foram raras as vezes que tive o privilégio de viajar acomodado numa das poltronas velhas e malcheirosas, impregnadas que eram do suor e da gordura dos passageiros. Bárbara jamais abriu mão de um bom lugar e viajou sentada todos os dias até se aposentar. Porém o pequeno conforto tinha um preço: levantar três horas após deitar-se para dar tempo fazer o café, arrumar a marmita, tomar banho e sair pontualmente à hora sabida do ônibus que tinha a poltrona à sua espera. E aquela cadeira há muito passou a ser dela, Bárbara. Acho até que ambos, ônibus e passageira, haveriam de se aposentar no mesmo dia, pois aquele transporte não tinha menos de trinta anos, tempo equivalente ao que ela contava de percurso diário entre a casa e o trabalho. Decidida a marcar território quando o assunto era o seu prazer, disse que a terceira poltrona atrás do motorista e junto à janela era dela. Tinha dois motivos para a decisão radical: primeiro, descer sem ser empurrada e segundo, o nojo que sentia dos companheiros de viagem. Não só o nojo pela falta de asseio àquela hora do dia, que os deixava com as axilas azedas próximas do nariz de Bárbara, mas a ousadia dos homens que se concentravam no final do corredor com o único propósito de encoxar as mulheres. “Morreria se tivesse de ir em pé entre eles...!”, me disse sem suspeitar que entre eles houvesse alguém que a desejava, que a observava com carinho, que esperava pacientemente ser visto. Esse alguém era eu, repórter da revista Bagaço, escolhido pela redação para escrever um artigo sobre os passageiros da Linha Z. Bárbara foi a única que não quis falar nem ser fotografada. Percebi na recusa, motivo principal da minha paixão, instinto de superioridade e completa indiferença pelo mundo do qual eu era porta voz e cujas informações seriam lidas por milhares de pessoas cultas. Mas ela não dava importância a pessoas cultas que sabem da vida dos outros pelos jornais, tampouco dava atenção aos fatos corridos ao seu redor. Para ela a vida acontecia longe dos leitores do meu jornal, longe de gente como eu, que vive de criar enredos cuja finalidade jamais atrairia sua atenção. E foi depois daquela entrevista sem a opinião de Bárbara, sem a qual o meu texto perdeu o sentido e não valia a pena ser publicado, que passei a andar no ônibus da Linha Z só para encontrá-la.

Nascida no dia da santa cujo nome constava na folhinha, Bárbara estava mais para Iansã do que para a mártir cristã. Crescera livre em meio às brincadeiras com dois primos da mesma idade que, junto à menina, inventaram muitas maneiras prazerosas de permanecer longe dos olhos dos adultos. Com doze anos Bárbara ainda brincava de esconde-esconde com os meninos. Depois de escalar todas as árvores e se esconderem no paiol de milho, o local mais apropriado para a brincadeira dos adolescentes era o quarto de despejo que, além de víboras e traças, guardava malas e uma cama velha há muito abandonada. Ali os primos brincavam todo o período da manhã enquanto os adultos da casa ocupavam-se das coisas sérias. Porém um dia, com quase 18 anos e esquecida dos primos que haviam se mudado para outra cidade, Bárbara, de súbito, disse aos pais que partiria dali a algumas semanas, tempo suficiente para completar a maioridade. Não adiantaram as lamentações nem o choro, ela foi assim mesmo. Desembarcou na cidade grande e lá esqueceu quem havia deixado para trás. Pela primeira vez entrou num ônibus: lotado, malcheiroso e barulhento. E foi naquele espaço, diferente de todos os recantos que ela havia se escondido com os primos, que sentiu o mesmo cheiro e a felicidade da infância. Dali em diante, até se aposentar, Bárbara fez aquele percurso dentro do mesmo ônibus. Viajava todos os dias com a fisionomia relaxada inclinada e quase adormecida na poltrona de ferro coberta de escaras de mofo. Expressava o prazer da menina que ainda andava com ela. E, numa espécie de transe, Bárbara descobriu que o cheiro daquele transporte era o mesmo odor azinhavrado dos primos quando a agarravam e rolavam os três para debaixo da velha cama. Havia no ônibus a combinação sensual e potencialmente viril da mistura de suor dos homens com perfume e salmoura de peixe estragado, composto que ia além da imaginação infantil e que nela provocava ondas incômodas de desejo. Mas foi pelo poder do olfato que ela amou e odiou os companheiros de viagem por três décadas.

Bárbara viera de uma família na qual a palavra servia apenas para insultar o outro na hora das refeições e de deitar, momentos que aproveitavam para fazer as observações maldosas sabidas, ou criadas, por algum vizinho no correr do dia. Mas a sagacidade dos sentidos teve poder maior na educação quando o assunto foi orientar os filhos sobre bem e mal. Porém, nem sempre o que era sentido correspondia à verdade, mas tão somente à imaginação do pai, forjada nas próprias experiências de homem para o qual o silêncio diante da natureza dizia mais que o pequeno vocabulário que dominava. Foi assim que o pai protegeu Bárbara da maldade do mundo. Ensinou à filha distinguir bem de mal acendendo as narinas para captar o cheiro de quem se aproximasse, fosse bicho ou homem. O hábito que lhe daria poder para agir sem precisar recorrer à outra arma que não fosse a dos aromas. A orientação paterna logo serviu para afastá-la dos homens pendurados à porta traseira do ônibus. No entanto, Bárbara jamais soube por que ao mesmo tempo em que desejava não encontrar os passageiros, ao entrar no transporte e acomodar-se em sua cadeira, entregava-se ao devaneio daquelas viagens curtas e mecânicas, porém plenas da sensação de que algo doce e bom há ali, mesmo se tratando do ônibus da Linha Z. Uma delas, por sinal coletiva, e que nos distraía deveras, era a ladeira do gozo, cujo declive causava gritinhos sensuais nas mulheres e escrachos dos homens: “vamos gozarrrrrrr...!”, gritavam eles no instante que segurava o êxtase antes do mergulho relaxado do ônibus. Todos nós, inclusive ela, esperávamos com o coração suspenso o prazer que acendia nossos sexos quando o motorista engatava a marcha na banguela e deixava o carro cair ladeira abaixo. Bárbara acompanhava a algazarra de olhos baixos, sangue nas faces e um leve sorriso nos lábios entreabertos. Sentia a mesma cócega efêmera e maravilhosa que tantas vezes a surpreendera nas brincadeiras com os dois primos. Passados os dois segundos do gozo coletivo o silêncio era absoluto e devolvia todos à normalidade do trajeto. Alguns minutos depois não haveria mais sinal dos passageiros naquele veículo desprezado por pessoas cuja libido seria recarregada no trabalho para mais uma descarga no dia seguinte. Evadiam-se por ruelas e espaços jamais conhecidos senão por eles próprios. Desapareciam da mesma forma que surgiram no ponto do ônibus: sozinhos, indiferentes e anônimos. Aliás, só vim me aproximar de Bárbara 15 anos depois, na fila da Previdência Social. “Chegou o momento”, pensei feliz e postei-me a alguns passos à espera que ela solicitasse o meu favor, fato realizado ao receber da mão estendida pelo guichê os formulários para preencher e não dispor de uma caneta. Rápido ofereci a minha. “Obrigada”, ela disse sem olhar o dono da mão estendida. Enquanto assinava, Bárbara falava compulsivamente sem demonstrar interesse no entorno. Falava com os próprios botões sobre aquele instante há 30 anos esperado como troféu. Iria para casa e nunca mais entraria no ônibus da Linha Z. Tive dúvidas se realmente ali eu era um estranho ou se ela, na sua impressão olfativa, me reconhecera como um dos passageiros. Na verdade, por viajarmos apertados como linha no carretel, por mais que me lavasse estava sempre com o cheiro do ônibus, cheiro há muito reconhecido pelo cérebro da mulher que aprendera com o pai captar odores e através deles definir os conceitos de bem e mal. E foi pelo meu cheiro, e não pela pequena gentileza em oferecer a caneta, que ela confiou a mim sua história.  

Bárbara parecia despedir-se não do emprego, mas de uma prisão na qual a sentença imposta havia sido trancar a fala. Justamente ela, que evitava a prosa com quem quer que fosse, desatou a língua e falou como se fosse uma velha amiga, o que não deixava de ser verdade uma vez que andávamos emparelhados no mesmo transporte. Estava feliz em assinar os papéis. Em nenhum momento se referiu ao trabalho do qual dava adeus. Regozijava-se de não mais ter de pegar o ônibus com os seus passageiros fedidos, agora velhos e safados. Velhos, fedidos e safados porque haviam endurecido seus vícios ao longo de décadas naquele trajeto comum e vulgar, cujas novidades se resumiam aos frequentes acidentes e mortes de percurso. Não que eles continuassem aglomerados na porta traseira do ônibus importunando as mulheres. Homens jovens haviam ocupado o posto. Agora, além de encoxar as passageiras, muitos dos novatos da Linha Z acessavam vídeos pornográficos no celular e se masturbavam atrás de quem viajava em pé, independente de vestir saia ou calças: “É só ralar num rabo gordo que eu gozo”, ouvi do rapaz que desceu às gargalhadas depois de esfregar-se na bunda recheada de espuma de Janny, travesti que se deleitava com os assédios. Mas voltando aos velhos, era naquele espaço único de suas vidas invisíveis fora do ônibus que narravam crônicas de velhacos. Eram monólogos de aposentados ociosos ou de bêbados, que além de não ter outra vida senão a da rua, a família não os queria dentro de casa. E assim, rejeitados pelos de casa e sem nada que fazer fora, passavam o dia para lá e para cá insultando as passageiras com palavrões e piadas sórdidas. Bárbara manteve sempre o semblante carregado diante dos velhos pornográficos que um dia foram jovens, mas já pornográficos. Naquele dia, porém, na fila da Previdência, ela, também uma velha, estava simpática e excitada. Falava sem dar tempo de perguntar ou responder. Tinha os olhos inquietos, muito abertos e dava a impressão de que perdia o controle de si. Falou do ônibus e da alegria em se livrar da lata suja e de seus passageiros sebosos. No começo, lembrou, foi difícil se acostumar: ora com a indiferença das pessoas, ora com a depravação com que os passageiros se comportavam dentro do ônibus. Por várias vezes se aproximou, puxou conversa, porém o máximo que obteve de volta foi um movimento desdenhoso de cabeça e o passo apressado de quem foge de uma incômoda possibilidade.

“Era tempo de partir...”, ela disse olhando longe como se assistisse ao próprio filme na tela azul do infinito: “eles me abençoaram rogando pragas”. Apesar das ameaças e maldições dos pais, pouco tempo depois Bárbara já havia esquecido todos. Deixou-se impregnar da vida sem referências cuja representação maior, o pai, se achava com poder para decidir sobre o destino dela, a filha que decidiu criar as próprias regras. De onde viera, o hábito selava o caráter dos filhos, fato que assegurava ao pai a certeza de ter o controle na mão, fosse pela imposição dos castigos, fosse pela rotina da moral silenciosa do homem do campo. No entanto, Bárbara, ao se misturar com pessoas estranhas e diferentes das que havia deixado para trás, abandonou as poucas lembranças no fundo da mala, na qual havia deixado algumas fotografias e imagens de santo que guardava como proteção. Em apenas dois anos já havia se familiarizado à turba indiferente da cidade grande e passado a viver sem mais referências. Viera de um lugar de gente lenta, com tempo de sobra pra ver e falar em demasia. Preferiu, contudo, escapar das vistas e dos comentários maldosos dos adultos e brincar de faz de conta com os dois primos. O relato de Bárbara era o enredo de uma estrangeira. Semelhante aos répteis, seus animais de estimação, criaturas solitárias, aparentemente inertes, silenciosas e adaptadas, como ela, à dinâmica urbana. Reencontrara os bichos rastejantes com grande felicidade nas frestas da parede de tijolos vermelhos do quarto em que morava: “vieram comigo!”, disse demonstrando com o comportamento esquivo compreender a plenitude daqueles bichos frios colados à parede como a dizer: “eu sou você.” Calou de repente e assumiu ar de quem lembrava algo há muito esquecido.

Tinha seis anos e era hábito à noite, deitada em sua pequena cama, observar os filhotes das lagartixas colados na parede iluminada por velas, acima do guarda-roupa, paradinhos, a espreitar algum inseto atraído pela luz. Uma noite, após observar os bichos por um bom tempo, perguntou à mãe se ela sabia a diferença entre as víboras e os homens. Diante da negativa da mãe a menina responde: “é que elas não precisam falar, sabem de tudo com os olhos”. A ligação com os répteis explicava a rejeição de Bárbara pela fala, cuja revelação dera-se no diálogo precoce com a mãe, ao qual eu tomaria conhecimento naquela conversa, talvez o primeiro diálogo de sua vida com um estranho. No fundo ela sempre soubera por que desprezava as tias quando exigiram dela arranjar casamento, isto é, quando quiseram dela o mesmo compromisso que haviam firmado com o mundo na idade da sobrinha. Porém do mundo das casadas Bárbara sabia que nada mais que traições, rabugice e veia quebrada haveria de ter. E, longe da solidão casada das tias velhas, preferiu um só lugar na cama, o seu. Ficava difícil compreender por que Bárbara, solitária, silenciosa e pouco dada às camaradagens masculinas, escolhera estar sempre perto dos homens. Cheguei a considerar a hipótese de que ela gostasse de mulher: “Seria homossexual... Ou bi?”, me fiz essa pergunta por algum tempo sem querer jamais uma certeza. Mas essa fraqueza de caráter não diminuiu meu sentimento por ela.  “Finalmente”, respirou fundo, “faltam dois dias para me livrar daquele ônibus imundo”. “Mas você não está feliz?”, perguntei ao perceber que a excitação da minha amiga dava lugar à tristeza mais doída. “Está sentindo alguma coisa?” Não respondeu. Levantou a cabeça, olhou longe e disse: “queria começar tudo de novo... Pegar o ônibus, procurar emprego, comer sanduíche de mortadela no almoço...”. Respirou fundo e continuou: “ainda sinto o gosto da primeira viagem... Rodei feito pião na roleta e o cobrador empurrou-me para dar passagem à fila que se formou atrás de mim gritando palavrões”. Parou de falar, fechou os olhos e entreabriu os lábios tomada por uma lembrança erótica: “cachorra quente...!”, sorriu da comparação que um dos meninos fizera com ela quando brincavam de esconde-esconde. A recordação não passou de pálida imagem, logo tentou trazer à superfície outras histórias felizes. No entanto, viu o rosto transtornado da mãe a gritar “filha da puta!”, e o do pai ridicularizar um compadre que falava fino. Imitava a voz e os trejeitos do amigo recorrendo à teatralidade que provocava gargalhadas nos filhos cúmplices da falta de escrúpulos do dono da casa. Riso debochado naqueles momentos nos quais todos esqueciam a moral paterna e passavam a zombar do outro. De repente as lembranças desapareceram e ela se desmanchou sob o vento que soprou cheiros e vozes sobre ela. Abriu as narinas, inspirou fundo e de olhos fechados. Inclinou o ouvido direito em direção ao som para o qual eu não tinha tímpano. Levantou-se enfim com a pressa de quem acabou de sofrer uma fatalidade e o tempo exigisse que tomasse uma decisão imediata. Devolveu-me a caneta da maneira como recebeu, sem me olhar, e desapareceu.

O ônibus se aproxima, peço parada. Bárbara não me vê, apesar de tocar no meu braço ao se equilibrar nos degraus da porta. Encosta a cabeça no vidro de sua janela e estira um vago olhar entre os prédios, automóveis, árvores e toda miudeza entre lixo e tecnologia produzidos pelos moradores naquele caminho por demais conhecido. Detém-se num objeto estranho, a estátua viva pintada de prata e vestida apenas com uma sunga. O ônibus para. Um jovem magro aparentando vinte anos e ar de quem havia deixado para trás uma terra igual a que ela também havia abandonado, sobe e se acomoda na cadeira ao lado. Segura um papel no qual tem algo escrito. Lê e relê a anotação na dúvida se pede informação àquela senhora. O rapaz olha Bárbara com timidez. Alguns minutos se passam. Tomado de súbita coragem pergunta: “a Senhora é daqui mesmo?” Ela estava tão absorvida na contemplação da estátua viva que não ouviu o rapaz. “A senhora é daqui mesmo?”, insiste o estranho. “Não!”, respondeu secamente sem desviar os olhos da estátua cuja imobilidade conversava com ela. O ônibus parou na Avenida, Bárbara levantou-se apressada e desapareceu. Antes, porém, ainda viu o rapaz com a mala e o papel na mão observando o semáforo. O sinal abriu. Os dois desapareceram na nuvem de fumaça escapada dos veículos. Não a vi mais nos dois meses seguintes. “Onde ela andará? Terá se aposentado”? “Estaria doente”? Fiz estas perguntas a todos que supus lembrassem da mulher cujo nome não sabiam, mas de cuja esquisitice faziam piadas: “aquela velha doida? É mesmo... faz um tempão que desapareceu”. “Vi no Facebook que ela fugiu com o cobrador... kkkkk.”“Vi na TV que ela morreu quando gozava no ônibus desgovernado, que se partiu em bandas na ladeira do gozo...” Já havia desistido quando fui procurado duas semanas depois por um homem de meia idade que se dizia amigo de Bárbara. Dissimulei o meu ciúme, pois não imaginava Bárbara com um amigo, e puxei o informante pelo braço procurando um lugar onde pudéssemos conversar. Ele estava visivelmente angustiado e com olheiras de quem havia chorado noites adentro. Mas eu, ansioso por saber logo notícias de Bárbara, subestimei o aspecto mórbido do amigo da minha amiga e não considerei a possibilidade de uma notícia ruim. Envergonhei-me de bisbilhotar a vida de alguém ausente e indiferente a mim, talvez nem fosse íntima daquele homem amassado e infeliz. “E se for seu amante?”, pensei sobressaltado. Imediatamente, porém, voltei ao que importava de fato, que era saber dele pormenores daqueles dias em que deixei de ver a mulher que ocupava a minha solidão. O homem contou que Bárbara tinha insônia e dera em andar de um lado para outro na esperança de descobrir o motivo daquela aflição. “Achava a casa triste... Caminhava da sala pra cozinha e da cozinha pra sala sem pensar em nada”, disse franzindo a boca numa demonstração de dor profunda. “Conte-me tudo!”, implorei.

“Parabéns, dona Bárbara, a senhora está aposentada!”, ela ouviu do gerente de Recursos Humanos. Desde então sua vida mergulhou no mais profundo abismo, na mais agoniada ausência daqueles que não encontrava dentro de casa, ou seja, os passageiros do ônibus. Desesperada com a força daquelas presenças dentro dela ligou a TV em alto volume, tomou longos banhos, perfumou-se, desinfetou a casa, tomou chá de camomila e tentou esquecer. Tudo em vão. A presença dos passageiros dominava os sentidos completamente dominados pela ausência e o cheiro do ônibus. Desligou a TV e foi contemplar os répteis que, apesar de alguns bebês, também haviam envelhecido e quase paralisado de tão gordos. Pela primeira vez achou os animais feios e os enxotou com a vassoura.  O cheiro e as vozes dos passageiros chegaram no pé de vento que escancarou a porta. “Será que só eu não fui”? Vê mais uma noite chegar e o mesmo pesadelo enlouquecê-la: estava no ponto do ônibus e não havia mais ônibus nem passageiros. Entra em pânico. Corre pela rua deserta e não encontra a parada. Está na avenida e não há vestígio de gente. Depois de longos minutos de desespero vê enfim um ônibus que se aproxima. Estende a mão. Entra ofegante e, com o olhar aflito, procura os passageiros. Mas os passageiros não são os mesmos e ela é a única velha no meio do bando de estudantes tagarelas. O celular de um deles alarma. Bárbara pula da cama e percebe que o barulho vinha do próprio celular programado para despertar às quatro da manhã. “Graças a Deus foi um pesadelo!”, disse fazendo o sinal da cruz. “Meu Deus, tá na hora!” Toma banho, corre à cozinha, prepara a marmita enquanto come. Fecha a porta e corre em direção ao ônibus que aponta na rua. Sobe. “Esta cadeira é minha!”, diz à estudante de fones nos ouvidos. A jovem finge não ouvir. Bárbara arranca-lhe os fones e a puxa para fora do assento. Num ímpeto de alegria se acomoda na cadeira que pensa ser a sua. Fecha os olhos e abre as abas do nariz: “são eles!”, diz enchendo os pulmões com o cheiro do ônibus. Queria cantar, pois o prazer que sentia era tal qual o que arrebatou Santa Teresa diante do anjo, gravura que recortara de um livro encontrado no lixo e que mantinha colado à cabeceira. Não sabia dizer o porquê daquela inquietação sentida sempre que mirava à imagem de olhos virados para cima em estado de gozo. Como não sabia cantar abandona-se no canto da poltrona e comprime uma perna na outra e vira os olhos para o céu. O motorista, que parece ter vinte anos, fala ao celular quando engata à banguela e grita: “com emoção ou sem emoção, galera?”. Os estudantes em coro respondem: “é pra fuderrrrrrr...!”, e o ônibus cai da ladeira do gozo...

Ana Barros










domingo, 17 de fevereiro de 2019

À borda do ralo


Não toquei na arte, eu, que tenho os moldes da minha avó-feiticeira. Foi com eles que apaguei os pigmentos da tatuagem de sangue. Tenho lembranças. Elas vêm, desenham e vão embora. É tempo de medo. E vem a necessidade de recorrer à minha avó com seu olho baço de juízo. É a imagem assentada da mulher velha ao pé do fogo em dias de raios e trovoadas que acalma quando ensurdeço ao meu próprio grito. Não encontro sinal a não ser o da minha avó armada de natureza no tempo sem o movimento no qual desmancho. Arrastei-me em confusões nas quais lambi mel e dor. Porém a carcaça expôs o esconderijo das recompensas malogradas: enigmas foram desvelados. Assim se estendeu a paisagem do meu nascimento à morte, da libido encarnada à solidão branca. Não conheci a minha avó jovem. Velha a vi desde sempre e de sua frieza fiz um avatar. Nela, a idade crescida formou encouraçado contra fluxos de mesmo: a minha avó conhecia ressacas... Contudo, bastava vê-la à noite com a varinha a encantar os corvos. Longa intimidade com a minha avó-feiticeira. E se quebro à hora ela reaparece jovem e goza ao dizer: “de novo!”. Aí me faz carregar a pedra acima, rolar a pedra abaixo. Uma pedra com desafio de erguê-la ao cume sem jamais chegar. Uma pedra áspera que me obriga querer peso leve, queda retorno. Subida, descida, ao infinito riacho... Eu: “Saberei frear a liquidez do ralo”? Ela: “Congela. Queima.”. Minha avó, feiticeira e assassina de feitiço. 


Ana Barros
Natal, 10 de janeiro de 2019.




segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Simpatia


Minhas mãos frias percorreram
A calçada com seus guardas noturnos
Você caído a meus pés pedia
Que a sua dor fosse a minha
A mentira escreve à tela do celular
A vida real grita entre nós
O cão dorme enrolado no lençol que é seu
O casaco de lã que ganhei no Natal
Mofa em armário desprezado no quintal
O gelo degela os meus sonhos e
Já não quero casaco no armário velho do quintal
Agora você dorme aquecido e sonha
O cão dorme com o seu cobertor e sonha
Eu volto para casa com os braços nus
E não sonho

Ana Barros
Natal, 30 de outubro de 2018.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Fake news existem desde sempre


“Aspiro à minha obra”. Quando se trata de Nietzsche,
esta máxima pode se referir tanto à obra escrita
quanto à sua vida-obra desse andarilho
subjugado pelo pensamento e pela liberdade interior."


Notícia falsa, calúnia, mentira, falácia... são várias as traduções de "fake news", termo contemporâneo usado para qualificar informações duvidosas. Podemos achar que a "fake" é novidade em nossa vida tomada pelas redes sociais. Mas não é. É novidade apenas o meio disseminador, o veículo: internet, Whatsapp e demais inovações tecnológicas das mídias. Desde o princípio da linguagem e dos sinais que mulheres e homens distorcem a comunicação, inventam e reinventam de acordo com os seus interesses e os interesses de seu grupo econômico, político ou religioso. Trago aqui um exemplo de "fake news" famoso e que ainda causa muita polêmica e indignação por ter sido cometido contra um dos maiores filósofos do século 19, Friedrich Nietzsche. Pois bem, a sua irmã, casada com um nazista e, consequentemente também seguidora de Hitler, adulterou a obra do escritor beneficiando assim a ideologia a qual seguia com o companheiro numa colônia construída pelos dois, no Paraguai, para cultivo de uma "raça pura". Odiado e difamado entre intelectuais, universidades e toda uma massa de pensadores, jornalistas, religiosos (muitos destes, até hoje), ignorantes que acreditaram nas falsas teorias de Nietzsche em favor do nazismo, o filósofo só foi biografado e reconhecido como ferrenho, duro defensor das liberdades do indivíduo muitos anos depois, já no avançado século 20. Como jornalista e defensora das liberdades individuais, nas quais não cabem o ódio e o preconceito, desejo fortemente que usemos essas mesmas ferramentas instantâneas da tecnologia da comunicação para desfazer as "fake news". Estas, que ameaçam nossa vida e a vida de milhões de pessoas que, por serem diferentes daquelas que pregam a hegemonia do "correto", da "ordem", da "família", do "bem", do "bonito", do "higiênico" e dos "valores da pátria", são hoje as responsáveis pela violência, pelo desprezo, pelo encarceramento e morte praticados pelos mesmos agentes que levaram milhões de judeus, ciganos, gays, mulheres e deficientes à execução. 

Ana Barros
Natal, 11 de outubro de 2018


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

A Minha ilusão banguela

                       
Hans Baldung Grien, 1513
O exame estava marcado para as quatro da tarde. O homem magro e pálido, pouco acima de metro e setenta, se dirige à recepção sem cumprimentar ninguém. Senta-se na parte recuada da sala e abre um livro. Lê quase tocando as folhas com o grande nariz adunco. Tem as pernas inquietas. É nervoso. A acompanhante preenche a ficha: “Nome?” “Cícero das Neves!”, responde com autoridade de quem administra a existência ordinária de alguém importante. Era por esse alguém que havia jurado dedicação até que a morte os separasse. O professor Cícero se dizia tomado pelas causas nobres da ciência e estas, como é próprio da rotina sistemática de um acadêmico de seu porte intelectual, não permitem envolvimento com decisões domésticas nem regramento de filhos. Adélia ficou com esse encargo, chamado de refugo existencial pelo pensador ocupado com causas nobres. Certa vez, ao orgulhar-se do sucesso do marido para sua médica, ouviu desta: “que causas nobres são essas que enchem o tempo de seu esposo e esvaziam o seu?”. Adélia sabe exatamente que tem o domínio sobre a vida privada e desse domínio impõe a nobreza que eleva o outro lado, aquele das coisas pequenas que Cícero chama refugo. “A doutora não conhece o lado que eu mando, e que enche meu tempo”, respondeu a esposa que encontrou no casamento o triunfo moral e o conforto da matéria. Aliás, a mãe, quando conheceu o genro, já um acadêmico bem sucedido, fez esta observação pragmática para a filha: “você agarrou um bom partido, hein!”.

“Idade?” “Sessenta e cinco!”, respondeu a mulher do professor.

Aos quarenta, Cícero passou a disfarçar a idade no corte do cabelo conservando uma franja de fios ralos para dissimular a calvície. Mudou o corte das roupas até então costuradas por Adélia. Deu em andar com peças e acessórios adquiridos das mesmas grifes dos jovens alunos. Tal comportamento levou Camisa de Vento, punk e estudante de filosofia, fiel discípulo de Cícero por considerá-lo o mais anarquista dos pensadores contemporâneos, a discursar violentamente na aula em que o mestre aparece bem vestido e com os cabelos tingidos de louro: “o Senhor é a aberração do capitalismo!”, gritou cuspindo no chão. O incidente não perturbou a frieza do professor, tampouco alterou seu humor ao constatar a debandada da turma entre risos e pilhérias. Em vez de acabrunhá-lo, a crítica do aluno deixou-o ainda mais vaidoso. Quem entrasse em sua casa naqueles dias se deparava com um grande espelho pendurado em frente às estantes. Enquanto pesquisa, contempla a imagem não menos de dez vezes. Aqui acolá vai até à cozinha e diz para a esposa afogueada e com cheiro de cebola: “como rejuvenesci com esse corte!” Adélia conhecia as manias do marido e aprendeu não duvidar nem valorizar o que ele diz e, de uma discussão banal, se estender a brigas que só terminam quando os vizinhos correm à janela a xingar “pare com isso, professorzinho de merda!”, e ela, poupando-o de escândalos, fechar a porta e correr aos pés de Santa Rita de Cássia. Adélia sabe que Cícero foge do burburinho como fogem os ratos à menor suspeita de ataque. E foi para ele que reservou o melhor cômodo da casa, do qual se responsabilizou pela arrumação das centenas de livros e do silêncio absoluto conseguido ao isolar as paredes com espuma. Conhecer era o objetivo de Cícero. E este ele só conseguia desprezando o mundo das coisas vulgares, como eram as relações com a família e os vizinhos. Adélia apoiava o marido, porém não dava importância às especulações nascidas desse orgulhoso solitário. Nenhuma curiosidade a motivava entrar no ambiente abarrotado de papel que, só ele, desejoso de alturas, tinha o acesso. Orgulhava-se do saber do marido e isso era bom, tão bom quanto sentar no sofá depois de lavar a louça para ver a novela das nove.

Era naquele lugar cheio de livros novos e velhos que Cícero passava o tempo quando não dava aulas. Ao se impressionar com uma teoria e dela especular um conceito que superasse o de seu autor, não largava o estudo enquanto não tivesse a certeza de um raciocínio inteiramente seu. Apesar de reconhecidas pela academia, as teorias de Cícero jamais saíram das paredes universitárias. Entre os alunos não passava do primeiro ano. Passados os dois semestres, agora familiarizados com a comunidade acadêmica, optavam por professores menos herméticas e adeptos das redes sociais. Cícero era inimigo das novas tecnologias, o que levou Camisa de Vento pela segunda vez atirar farpas ao ouvir do professor que “os homens do verdadeiro saber preferem o papel”.Verdadeiro saber é o caralho!”, rebateu o aluno anarquista abaixando as calças.

Portas e janelas fechadas. Cortinas descidas. Som desligado. Crianças caladas. Terminada a averiguação do lar a mãe pega os filhos e se fecham no quartinho dos fundos. Ali assistem TV até o momento em que o professor grita da porta: “o lanche!” Todos, menos os calouros, conhecem e comentam o comportamento do professor de História da Filosofia. E, sabendo da antipatia dos veteranos, Cícero aproveita o intervalo de um ano para viajar a congressos na companhia das novatas deslumbradas com o mestre. Não raro alguém pergunta a Adélia por que não é vista nos eventos com o marido. Prontamente ela recorre a casa como motivo para não se ausentar. O domínio da vida privada havia se tornado tão exclusivo dela que Cícero só foi saber que os filhos frequentavam a Igreja Universal quando viu o caçula submetido à sessão de espancamentos numa das reportagens em que analisava seitas religiosas. Na matéria, o pastor expulsa o demônio do corpo do filho do cientista ateu. “Malditos alienados... A culpa é sua!”, diz à mulher e ali mesmo esquece o assunto. Sua vida tinha objetivo maior que o de convencer o filho da não existência de demônio. Além do mais, terminava a sua tese de doutor. Faltando uma semana para submeter o trabalho à banca mandou encadernar o volume de 600 folhas. Ao voltar com a papelada debaixo do braço olhou Adélia com um largo sorriso de incontida vaidade e disse tomado de soberba: “terminei! São 600 páginas de conhecimento autêntico!” “Posso dar uma olhadinha? Queria...” Adélia não terminou a frase. “Você? (kkkk...) Não entende uma vírgula!”, disse comprimindo o livro ao peito numa atitude infantil de quem protege o brinquedo da cobiça da coleguinha. Adélia ficou paralisada. Não que fosse novidade o desprezo dele pelas suas opiniões, mas por sentir naquele exato momento algo diferente das outras vezes em que foi insultada por não acompanhar o raciocínio complexo do pensador. Sente ferroadas no corpo. Arrasta-se até o sofá e cai semiconsciente. Volta a si quando Cícero bate a porta, já um hábito quando foge de alguma encrenca doméstica. Por alguns instantes pensou ser um pesadelo. Contudo, ainda era dia. Passa as mãos nos olhos molhados e grita da janela pela qual ainda o vê agarrado aos papeis em direção à rua: “filho da puta... Enfie seus papeis no cu!”. É a primeira vez que sente a dor vazia do abandono. Não consegue organizar os pensamentos que anarquizam o cérebro até então cheio, ordenado na vontade do outro. O coração bate descompassado, a garganta se fecha na angústia suicida. Mas não vai se matar, acredita no inferno e em almas penadas. A partir dali as noites chegaram pavorosas: há sempre alguém a rir da burrice dela. Ora é Cícero, ora o seu professor que, lá atrás na escolinha, por mais que repetisse que “nóis quer” é errado, Adélia repetia “nóis quer”. Esperava que, ao casar com o professor, deixaria de dizer “nóis quer”. Porém ela continuou com a sua gramática particular e o professor fingiu que era surdo. Não só as noites, os dias também ficaram insuportáveis. O tédio ocupou o lugar da satisfação de dona de casa, único prazer até ali conhecido. Adélia não entende a agonia que faz de repente a vida grande demais, absurda e à beira do desespero. A escuridão na qual se debate, no entanto, dá a ela o clarão real do qual viu a mãe saltar. “Vou embora!”, pensa sem entender que a mãe, diferente dela, fugira com outro homem e, graças a essa decisão, aprendeu que a vida chega para uns por linhas quase apagadas. Mas Adélia não era mulher de voltar ao passado e de lá sair com um presente ativado. A experiência exigia elaboração mental complexa, condição nula para quem se deixou apagar feito fósforo riscado. Não sentia admiração pela trajetória da mãe. E logo esqueceu a mãe. Foi a partir daí que, tomada do ressentimento nascido no pântano da rejeição, passou a observar Cícero nos mínimos movimentos. Queria a confirmação de que ele era o homem com quem dividiu a cama por tanto tempo. A cama, mobiliário sagrado, acolhida permitida por Deus para dois corpos erotizados, transforma-se em símbolo da depravação fora do casamento e do enfado ao longo deste.

Dois meses depois de conhecer o namorado a mocinha leva o estudante de filosofia para morar no pequeno apartamento de três cômodos. Paga as despesas com o salário de balconista. O orgulho em dividir a existência com um homem culto e de futuro garantido fez com que ignorasse que em todos habita um eu em pano de fundo. No entanto, esse eu do amado era escancarado, exigiu dela exclusividade e obediência. O que veio depois já se sabe: casamento, filhos e demissão do emprego de balconista. “Tenho filho pra criar e marido pra pensar”, repete o refrão ao balançar o menino no berço. Adélia não consegue parar de pensar no Cícero humano que acaba de conhecer, o Cícero anterior ao doutor Cícero que jamais existiu a não ser na imaginação da moça romântica. O ódio que se instalou a partir daí não permite que faça um julgamento dos valores do homem de ciência. Faz, sim, a análise devastadora de mulher enganada cuja vingança é tomar de volta as qualidades criadas de suas próprias necessidades. É tomada por essa nova percepção do marido que ela vê escandalizada cada detalhe do corpo surpreendentemente feminino de Cícero. “Será fresco...?”, pergunta ao emaranhado de suposições trazidas pelo eu do marido até então escondido dela.

“Sr. Cícero, por gentileza, tire a roupa... óculos, relógio... Vista esta bata com a fenda para trás. Usa dentadura? Tire-a!”

Cícero não se preocupou em saber se amava Adélia. Ela estava ao alcance das mãos, isso era o suficiente. Além de não ter tempo para digressões sentimentais era bom ser cuidado por uma mulher dócil. Porém, apesar da ausência de revolta, estava próximo o fim da história a dois do casal que, desde o início, se manteve divorciado. Adélia sentiu esse fim como algo perturbador que resolve um dia assumir o comando dos nervos. Não era aquele fim pelo qual os corpos e os bens são divididos com grande cólera porque a paixão e o ódio subverteram a ordem. Mas o fim através do qual se enxerga de vez o outro e a ilusão dá lugar à dança dos espectros cujo espasmo adentra noite e dia na ânsia de revelar a verdade. Chegou enfim o momento do choque do ressentimento contra o ídolo de papel. Adélia logo abandona a formalidade da mulher digna com a qual desempenhou o papel de esposa. Recorre agora à ironia quando se dirige ao marido: “doutor Cícero, sua ração está na mesa!” “Doutor Cícero, suas putas no telefone!” “Doutor Cícero, já lavei seus molambos...”.

“Sr. Cícero, tirou a dentadura?”, pergunta a atendente ao encaminhar o paciente à sala do exame.

Adélia, que alternava os olhos entre o piso branco e o marido, ao ouvir a atendente levantou-se num pulo e correu em direção aos dois. Teve que se segurar na poltrona para não desmaiar ao vê-lo dobrado com uma mão prendendo a fenda traseira da bata e a outra tapando o buraco em que se transformara a boca. Olhou-o como se nunca o tivesse visto. Não era o cientista vaidoso quem estava à sua frente, mas um velho banguela, nu e cego dentro de uma bata ridícula. Sente a cabeça rodar e sai para tomar ar. Ao retornar não consegue controlar o desespero e grita engasgada de nojo: “o doutor não tem os dentes!”. Ninguém ouviu nada na sala em que todos deslizam os dedos na tela do celular ou ouvem música de fones nos ouvidos. Depois de se acalmar com um copo d’água trazido pela atendente e ver que ninguém dava atenção ao seu drama, Adélia tira o terço da bolsa e reza pra lá e pra cá no corredor.

Quando soube do câncer Cícero tentou se matar arranhando os pulsos com uma lâmina de barbear. “O doutor está proibido de se matar!”, disse Adélia vestida de nova autoridade. Dali em diante fez questão de cuidar dele. “Ninguém cuida do meu marido como eu”, teria dito à cunhada antes de despedi-la na porta. Era um poder não sobre o intelectual, mas sobre um moribundo sem mais o valor moral que valesse a simpatia da esposa. Era outro agora o poder que ela desempenhava sobre o homem derrotado não pelo câncer, mas pela boca banguela. Cícero se tornara igual a todos os homens que caem doentes nas mãos de esposas velhas, sabedoras da intimidade revelada por completo na rotina de um hospital. São esposas velhas que cuidam de seus homens com a ira velada de mártir.  Esquecem a dor do Cristo no manejo da mão pesada sobre o corpo impotente que de algoz passou a vitima. Adélia, no acerto de contas de dois derrotados, ela, por se descobrir num deserto sem futuro, ele, empurrado que foi para fora do presente, se demora no ardil dos suplícios. Estes, tolos e amargos chás de cascas de pau, papas sem açúcar empurradas goela abaixo, supositórios enfiados sem nenhuma delicadeza, banhos frios com mãos sem pudor que limpam o cu do doente sem lembrar jamais que um dia desejou aquelas partes do macho liquidado. Zomba, junto às amigas do Terço das Mulheres, da trouxa morta caída entre dois ovos imprestáveis. Afora as pequenas vinganças de Adélia no manuseio da higiene e alimentação de Cícero, este ainda amarga a solidão do quarto não mais de um cientista rodeado de livros e da aura de gênio, mas o quarto esterilizado de um doente terminal. Assim que adoeceu, a família encarregou-se de dar fim à tranqueira do doutor. E foi assim que o acervo de mais de três mil títulos foi retirado da casa e queimado no quintal pelo pastor acompanhado dos dois filhos do casal. A justificativa apresentada pelos três religiosos foi a de que os livros representavam o diabo e por isso tinham que ser destruídos. “O diabo que habita esta casa tem um nome: doutor Cícero!”, sentenciou o pastor, o mesmo que havia exorcizado o caçula na TV, ao riscar o fósforo sobre a montanha de papel encharcado de gasolina. Adélia acompanhou o desfecho com uma fagulha de gozo: “há muito eu devia ter feito o mesmo!”, disse aos botões.


Ana Barros
Natal, 20 de julho de 1997.
(concluído em 02 de agosto de 2018)

           


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Meia noite









Instante após instante
É cerração
Que fazer na ausência da surpresa que hidrata a sede de pequenas ilusões
A ilusão morreu da velhice que nutre o gosto
Coube a mim
(vazia)
Decidir o que comer fora do silêncio instalado no palco luz e movimento
Há uma cota de evasão no tempo que joga dado
E todos os jogos foram jogados de forma a evitar noite fria
Eu vi o jogo jogado
Ali diante de meus olhos claros
Não mais fogo fátuo Não mais cristal trincado
Todos estão trincados
E inteiros
É meia noite
Luz minguada do mundo

Ana Barros
Natal, 20 de junho de 2018.