domingo, 10 de março de 2013

PORQUE DESLIGUEI A TV

Já faz algum tempo que resolvi desligar o aparelho de televisão. Esqueci que ele dorme esquecido num canto qualquer da casa. Teve vezes que liguei querendo me distrair um pouco, mas logo o enfado em ver a repetição exaustiva das falácias que, num parto doloroso, uma vez que dói mexer nas emoções cristalizadas, resolvi arrancar de mim.

Se gozamos ao assistir novelas na TV, enfiados até o pescoço em mentiras, traições e falsidades, com o tempo e a falta de um meio de cultura melhor, estas passam a ser citadas como verdade. E arrancá-las de nosso cotidiano custa o preço do silêncio nos cômodos da casa e à entrega, ou não, a outros veículos mais inteligentes.

Como sou dada ao retorno da mesma coisa até sentir o zero da necessidade, resolvi ligar a TV na sexta-feira, final da novela da Globo, Lado a lado. E foi como se tivesse chegado de viagem a um país distante, onde não se valorizasse cultura semelhante àquela que a tela me oferecia como motivo para a minha educação feminista, pois, estrategicamente, a Globo transmitia o fim do folhetim no Dia Internacional da Mulher, oito de março.

Como já fazia muito tempo que não assistia novelas, quase perdi os sentidos ao ver a personagem miserável em que a Globo havia transformado a atriz Patrícia Pillar. Não compreendi por que alguém ainda perdia o seu tempo sentado de frente para a TV para assistir tamanho absurdo cultural. Mas quando se trata de algo chamado arte ou cultura para o povo, feito para o público, tive o cuidado de demorar mais um pouco em minhas reflexões para poder escrever o que descobria em minhas próprias experiências, as quais são semelhantes à de todos que desligam a TV. E foi com orgulho e vitória que percebi de vez a nulidade da TV em minha vida na noite de sexta-feira, oito de março. Orgulho porque estava completamente livre de algo que não me fazia falta, igualmente a uma daquelas paixões pela qual sofremos horrores e, passados alguns meses, ou anos, enxergamos envergonhados, apesar de não haver vergonha nenhuma em se apaixonar, o desperdício de tempo e de energia com algo tão inútil como a paixão. Vitoriosa pelo salto de qualidade em minha escala de valores. Não posso chamar de outra coisa senão de aberração, apologia aos instintos mais baixos, a exploração de valores mesquinhos em personagens que, em vez de crescer, de amadurecer em seus papeis, tornam-se figuras raquíticas, absolutamente más, sem o mínimo de sensatez, ou o contrário, anjos, bondade absoluta, ingenuidade ridícula e insana. Ou seja, um maniqueísmo patológico que leva o que se impõe com a força bruta de seu caráter à condição de mostro, marginal, bandido sem redenção nem atenuantes morais. Quem é mal é mal o tempo todo, tira vantagem o tempo todo sobre pobres vítimas da bondade total para no final pagar todas as penas como um demônio queimando no fogo eterno do inferno. Isso para deleite do telespectador, que frequentemente interfere na trama diabólica.

Confesso que já senti empatia com esses tipos mesquinhos da TV. Há como que uma necessidade de vingança virtual, uma vez que na realidade há a autocensura e a lei punitiva, na crueldade repetida todas as noites nos capítulos que parecem não ter fim. Há um gozo mórbido na tortura que é a novela feita para estimular os valores menos lapidados pela consciência despertada. Podem ser os mesmos valores que encontramos nas tragédias de Shakespeare, nas novelas de Dostoiévski, em Sófocles, entre outros do mesmo poder psicológico na construção de personagens complexos porque humanos.

A diferença, entretanto, é que nestes há uma moral das alturas, uma ascese do pensamento que reflete, busca e supera. Nada mais tocante que a agonia metafísica de Raskolnikov em Crime e Castigo, com a sua redenção na dor e no castigo, este, não imposto pelos homens, mas pela consciência do indivíduo que acusa e liberta. Isso é a moral dos grandes da literatura... Édipo, cego para a banalidade do devir mas lúcido do seu crime, que é a persistência no conhecimento que cega para dar à luz. Sempre uma moral para aquele que entra no livro e se confunde com os tipos descritos com profunda compreensão, amor e empatia com o homem comum perdido no tempo existencial.

As novelas da TV brasileira, apesar do conhecimento emitido por alguns antropólogos a respeito de seu poder na releitura de assuntos como feminismo, homossexualidade, meio ambiente, etnia, entre outros, estão fora da capacidade luminosa da moral. Se existe nelas uma moral, é a moral do pequeno, do vazio de dor e cura. A imagem da baronesa Constância (Patrícia Pillar), humilhada por todos e abandonada numa fazenda por aqueles a quem fez o mal, resume a insignificância dos personagens. Se neles há crescimento, é o crescimento do abismo entre o animal e o pensamento.

Ana Barros

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

PONTO E VÍRGULA


Talvez para a grande maioria das mulheres cause inveja não poder, como as artistas famosas e outras celebridades do mundo da mídia e da moda, fazer uma plástica depois dos quarenta. Digo depois dos quarenta, pois é aí que nos damos conta de que existe o fator tempo, até então ignorado sob o império da rigidez da carne e a ilusão de eternidade na qual a juventude desliza impulsiva e erotizada.
Não conheço outra evidência mais circunstancial do prenúncio da temporalidade do que as marcas do tempo cravadas em nosso rosto de meia idade. Infelizmente, quase todas nós desejamos apagar qualquer vestígio desse companheiro de viagem. E nada melhor do que recorrer à plástica, cuja prática desmancha as impressões externas de nossas experiências de mundo.
Falo da mulher porque ela é, heroica ou indiferente, quem tem o privilégio de saborear de forma diferente do homem as ilusões e fantasias que a vida oferece. Apesar do cotidiano pragmático já bem equiparado ao masculino, permanecemos investidas de sentimentos e sensações comparadas em sua amplitude e ambivalência ao ritmo irregular da natureza. Apaixonar, desiludir, amar, esquecer, enfim, viver muitas experiências, milhares de vezes, cada uma como se fosse a última e descobrir espantada que sempre é igual à primeira vez: tudo acaba. Engravidar, parir, educar os filhos... divorciar, enviuvar ou acostumar-se a um casamento frio. Vestir-se de autoridade sem deixar de ser amiga, sensível, companheira. Compreender. Silenciar. Amansar a voz, aceitar as diferenças e falar com os olhos. As mulheres são vistas assim.
Lembro de uma crônica de Afonso Romano de Sant’ana, A mulher madura, na qual lamenta o marido não ter paciência para conhecer esta mulher. Na plenitude espiritual, que coincide com a menopausa, a serenidade, a libertação dos desejos sexuais, uma vez que nessa idade a mulher se surpreende com uma erotização livre da moral e dos valores sacralizados pela família e a igreja, o homem vai embora deixando para a mulher colher o melhor que a vida pode dar: o retorno a si mesma.
Mas voltando à tendência humana de negar o tempo gasto, que fazer das cicatrizes internas, invisíveis, profundas, que nos fizeram maduras e indivíduos no correr do tempo? Ora, o passado serve justamente para lembrar que o instante só existe através dos seus fragmentos.  No entanto, teimamos em desdenhar o espelho real, pois é feio, duro, desumano. Preferimos o espelho da fantasia negando toda uma história que, sem ela, não teríamos existência alguma. Portanto, é isso que acontece quando estiramos as marcas do tempo no rosto e exigimos a mesma cara dos vinte anos. Queremos apagar a existência consumada, ter o tempo de volta. Podemos fazer isso?
Digo que não seria capaz de uma proeza tão fantástica, impossível mesmo para quem se tornou cúmplice do tempo. Já saí da casa dos quarenta. Tenho todas as marcas anunciadas da velhice. Nunca as quis nem pedi, pois não as conhecia. Mas chegaram com os quarenta e hoje não sei pensar, agir, sorrir, olhar, sem aquele algo estranho, diferente, racional, grave que se imiscuiu em minha interioridade. Quando lembro dessa chegada, me vêm à mente os versos trágicos de Fernando Pessoa: Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade/ Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.
"Vencido" e "lúcido". No entanto, só quem experimenta esse conhecimento sabe a dimensão de ser vencido, despojado das armas e dos cuidados com valores que envelheceram e não representam mais nenhum poder. Lucidez do momento extremo e paradoxal entre um intervalo (pretensamente jovem e eterno) que expira, e o outro (maduro e conhecedor do fim), que se anuncia sabendo de antemão o limite.
O conhecimento da verdade, e que nada podemos fazer para ser diferente, é o que temos de maior ao atingirmos à maturidade. Longe de ser um elogio à derrota, mas amor a todo o passado, amor a todo o presente e ao futuro, até mesmo saborear a derrota inevitável que não se verga diante do novo que irrompe vigoroso. Mesmo com o ar cansado dos olhos, a pele já amolecida e os cabelos mesclados de branco, quando temos o privilégio de compreender o submundo do devir, somos agraciados com a leveza dos vinte anos. Conhecemos o amor, o belo, a doçura, a melancolia... sem cair no sentimentalismo que empobrece. Se temos filhos, quanta graça. Eles passam a ser o que fomos na idade deles e nós, agora refletidos, reavivamos os sentimentos dessa época inquieta e utópica, só que desta vez (ainda inquieta) com a lucidez do eterno círculo. Aí podemos compreender nós mesmas, a criança, o jovem, o velho e as demais coisas ao nosso redor, pois que aprendemos com o melhor dos amigos, o mais áspero e o mais generoso dos amigos: o tempo.

Ana Barros 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

RECOLHIMENTO DO MAR NOTURNO


O véu é espesso e desmancha o mundo
Ausência que tudo cobre...
Já não escuto e nem vejo
o que antes era achado
Dirijo os meus olhos para este mar
que já não é mar, para este céu que já não é céu:
a noite me envolveu na penumbra da
ilusão que faz de tudo nada
Tenho às mãos o que deixou de ser segredo
Prazer imóvel que move
um oceano nos olhos

Ana Barros


sábado, 8 de dezembro de 2012

MEIO DIA

O lugar a voz e a imagem
aonde quer que eu fique
ou vá:
alfinetes na carne sem alma
O gelo secou a vergonha e a pele já sem assaltos
ao sol do meio dia acalma
Mas o olho cego exige
desmanche à dureza azul
Mas o que teve início não dorme
Mas o que alongou não encolhe
Pode uma sombra aqui e acolá
Pode um simples bater de olhos... de novo
os  ponteiros se juntam

Ana Barros

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

CIRCE


Talvez por uma questão de segurança, facilidade na aceitação das idéias, cumplicidade de afetos, ou por mera afirmação naquilo que acreditamos próprio dos    anos que temos,   ou  ainda por pura pretensão e desinteresse pelo que é diferente, nós, os     inquietos outonais temos a tendência a escolher como parceiros de amizade, ou de amor,  aquele cuja idade se aproxime da nossa.
É cômodo tagarelar na presença de alguém em quem podemos projetar a nossa sombra. Sombra que nos arremesse para um espelho espiritual. Outras vezes, o discurso performático de nervos, de verbo, de gestos e nuances, deixa-nos cegos ao mundo em redor e de olhos voltados para as próprias entranhas. O que aí conta é a exibição estouvada de nossas vaidades. Nesse tipo de conversação em que esquecemos da presença do outro, experimentamos um êxtase comparado ao sentido por evangélicos fanáticos no auge do devaneio religioso. Somos tão autossuficientes em nossos juízos de valor quanto um deus.  Que mundo haveria além da inquietante subjetividade que nos faz sentir acima dos demais? A objetividade, a atenção para o mundo circundante ficam para mais tarde quando o tempo cuida de acalmar a ansiedade, de fechar as asas cansadas. Em Seis propostas para o próximo milênio, Ítalo Calvino fala belamente dessa temporalidade invocando os mitos de Mercúrio, ou Hermes, deus alado da comunicação e do princípio de individuação, e Vulcano, ou Hefaísto, “deus que não vagueia no espaço mas que se entoca no fundo das crateras, fechado em sua forja onde fabrica interminavelmente objetos de perfeito lavor em todos os detalhes – joias e ornamentos para os deuses e as deusas, armas, escudos, redes e armadilhas”. Num momento somos ágeis, alados e o mundo a extensão ególatra de nossos voos. Noutro, possuídos pela consciência da morte e do gozo único sobre a terra, podemos forjar na toca em que caímos com o nosso peso temporal, os mais belos instantes de prazer do mundo translúcido.
Fôssemos menos nervosos prestaríamos a atenção nos adolescentes e, particularmente, em algumas mulheres que chegaram além dos sessenta e a nossa escolha preferencial por companhias sofreria um abalo vertiginoso. Descobriríamos espantados a quantidade de tempo em que estivemos ensimesmados, mesmo na aparente companhia de outros, enquanto outras pessoas, na ponta inicial os adolescentes, e as mulheres pós-sessenta no final da escala em que nos posicionamos ao meio, ou não desenvolveram ainda um olhar inteiro (moral), ou já o cegaram de vez. Somos pois o grau maior de uma tensão aniquiladora. Estamos agonicamente situados entre o caos do princípio e a possibilidade da ordem, que é o fim.
O problema dessa escolha arbitrária é a singularidade existencial das mulheres cuja realidade privativa e subterrânea tomou um rumo diferente daquele conquistado pelos homens, que é o espaço exterior, a vida objetiva. Déssemos trégua à ansiedade por seres semelhantes a nós mesmos e apurássemos os sentidos na direção desses dois grupos que tanta reprovação provoca nos espíritos sensatos e comedidos e a promessa da felicidade seria então uma efetividade em nossos dias mais lúcidos e produtivos e não um acaso do destino, fatalmente selado como ideal no fim da jornada.
Os impulsos ainda incondicionados do adolescente só diferem num aspecto da força “desorganizadora” da mulher pós-sessenta. Aquele é um desbravador, um deus rebelde e inconsequente que tudo pode, um sátiro dando cambalhotas num destino que se prenuncia. A mulher pós-sessenta, pela imposição cultural de sua época, obrigada a frear a fúria primordial na profissão ou no casamento, adormece os impulsos para mais tarde, livre das gravidezes e dos filhos já adultos, lançar o seu grito de liberdade. Distante da tagarelice maníaca dos adolescentes e cheia de desprezo pela velhice adere a uma fina ironia, algumas vezes torna-se até rabugenta e utiliza-se de um humor ácido e debochado para enfrentar resignada a vida insípida ao lado dos filhos indiferentes e do marido maquinalmente silencioso. É a anti-Medéia liberta das peias do pudor e das obrigações conjugais. Mataria os filhos não por ciúme do marido infiel mas pelo retorno à liberdade perdida. Emancipada das mamadeiras, das fraldas e de um sexo frio, essa aniquiladora de valores seria agora bacante não fossem os anos de exaustão física e mental consequentes de uma rotina diária de fadiga e repetição, o preconceito em torno da velhice, a moral social e familiar diante do comportamento dessa fêmea que se tornou mulher tardiamente.
Um tipo mulher síntese do sabor e da sutileza doce-amargo do que é humano, ela experimentou toda a sorte de derrotas, frustrações e êxtases místicos, intuitivos (menos sexuais), sem contudo manter grande intimidade com o espaço lá fora. É dentro da própria casa, em contato com os filhos e o marido, que adquire vícios, aprende a manipular os sentimentos e incorpora ao longo do tempo uma personagem em desacordo com a que vinha desempenhando como mãe e esposa. É no devaneio que essa deusa, cínica e erotizada, lúcida de sua derrota, dá um soco na pudicícia paralisante da família e, mesmo confinada entre quatro paredes, agride a vergonha daqueles que a queriam deserotizada por ser “uma senhora”.
É comovente a ânsia de viver dessa que sabe já ter consumado uma enorme quantidade de vida. Sobra-lhe pouco tempo... Descobre-se real, um em si capaz de amar e ouvir os apelos carnais do mundo. Perdeu a moral e o respeito que a alimentaram até então. Não tem mais drama interior.
Mas o físico dessa heroína da despedida não está em harmonia com o intelecto. Precisa agora de artifícios para sobreviver como bengala para as pernas reumáticas, óculos para a vista cansada, prioridade em filas de banco e supermercado, pois é idosa, etc., etc. No entanto, nuca esteve tão lúcida, apesar de ninguém na família dar atenção às suas conversas nem valorizar o seu saber. Ela lê desolada nos olhos de todos uma mistura de raiva e intolerância pela inutilidade a qual se transformou. Não vê saída senão resignar-se ou fingir.
Adolescentes e pós-sessenta são dois extremos de uma felicidade sem regras. Em ambos, a fruição natural desse estágio psicológico é sufocado primeiro pelos pais, aliados do Estado e das instituições em geral, detentores de poderes soberanos sobre a vida e a educação de homens e mulheres. No segundo momento, pelos filhos que, já adultos, profissionais e sem tempo para perder com conversas ociosas, fazem vista grossa à pessoa que ronda no entorno da casa como um espectro que todos esperam ansiosos a hora de sumir de vez.
Não fosse a invisibilidade em que é transformada, os filhos compreenderiam a dramaticidade e mesmo certa dose de humor denunciados nos gestos da mulher que são o resumo simbólico da saga familiar. Simbólico que é de todos e de cada um daqueles que são impotentes para desfazer a malha conflituosa cristalizada numa única pessoa, a mãe, que se joga involuntariamente sem mais nenhuma chance de interferência no mundo, com a sua ironia estéril, com o seu distanciamento teatral da mesmice cotidiana em que viveu até se dá conta de si mesma. Em seu devaneio somente ela no reduto doméstico consegue rir de si e dos outros numa aura de lucidez disfarçada na insensatez.


 Por que  perdermos tempo falando e ouvindo a voz lamurienta da moral quando deveríamos atentar para a grandeza dessa Circe contemporânea que, do alto de sua magia, transforma todos ao seu redor em porcos, ou para a irresponsabilidade juvenil? Não existe resposta, pois as viagens são empreendidas de forma nebulosa no labirinto que não permite ao viajante enxergar o ponto de chegada.

Ana Barros








segunda-feira, 8 de outubro de 2012

UM ARTISTA DA FOME


Um dos contos mais surpreendentes de Kafka, Um artista da fome, conta a exibição pública de um jejuador de circo, cujo espetáculo principal tem como atração a contemplação da multidão do homem faminto e esquálido dentro de uma jaula. No início, o jejum programado para durar 40 dias, por exigência do jejuador, se estende por tempo indefinido até consumar-se na morte do artista.  

Entremeado de imagens que nos levam tanto ao homem e à época que se despede (idealismo/romântico), quanto ao outro momento que se anuncia (moderno), Kafka introduz em sua prosa o abandono do indivíduo em função da supervaloração da multidão e do gosto massificado do espetáculo. Sedento por novidades, o público se cansa do ritual diante da jaula e parte para outras diversões. O empresário, que vê a cada dia a multidão debandando, dispensa o jejuador e este se oferece para trabalhar num grande circo com sua infinidade de homens , animais e aparelhos que sem cessar se substituem e se complementam uns aos outros... E, já tendo passado muitos e muitos anos jejuando sem ser visto por um público agora indiferente tanto à fome quanto à causa real de seu enfraquecimento, talvez sua esquelética magreza proviesse de seu descontentamento consigo mesmo, o homem estava completamente coberto pelas palhas que forravam a jaula, tendo um inspetor passado por lá e perguntando por que deixavam a jaula desocupada, quando deveria ser ocupada por algum animal, foi aí que se deram conta de que o jejuador arquejava.  

Aqui talvez o instante supremo do conto quando o inspetor mantém o único diálogo da história com o jejuador. Este aproxima os lábios com dificuldade do ouvido do outro e responde por que continua a jejuar: – Porque – disse o artista da fome levantando um pouco a cabeça e falando na própria orelha do inspetor para que suas palavras não se perdessem, com lábios alargados como se fosse dar um beijo -, porque não pude encontrar comida que me agradasse. Se a tivesse encontrado, podes acreditar, não teria feito nenhuma promessa e me teria fartado como tu e como todos. Morre logo depois. Os empregados limpam a jaula e jogam fora o corpo magro misturado às palhas. Em seu lugar puseram uma pantera jovem, cuja energia e alegria de viver atraíram a multidão, que voltou correndo a comprimir-se contra a jaula.

Há nessa metáfora, até certo ponto cômica, a angústia do homem moderno em descobrir-se dividido entre a negação de uma existência que, na sua cada vez mais avançada civilização tecnológica, despreza o indivíduo em função da massificação de consumo e diluição do que até então parecia eterno, como bem deixa antever no texto a mudança constante dos empregados do circo e a insistência em continuar na mesma condição de jejuador, ou seja, na esperança mítica de que a existência tenha compaixão do infeliz caído no mundo e ofereça o paraíso reconquistado dos filhos de Caim.  Mas a natureza indiferente e a vontade de potência, mais animal que humana, forçam o homem lúcido a enfrentar a vida, mesmo com toda a estupidez das multidões, com o vigor e a esperteza de uma jovem pantera.

A sensibilidade do artista da fome, que o desarma e enfraquece diante da corrente existencial dos fatos, aniquila qualquer movimento em direção ao salto sobre a desordem. Jejuar pode ser ainda o ato mais provocante da vontade de nada, pois o mundo com suas pessoas e vulnerabilidades não promove o alimento necessário para um ser cujo corpo deprime das inquietações do mundo.

Kafka nos mostra com seu herói fracassado a outra face moral da vida. A pantera cheia de energia é a superação sutilmente revelada como símbolo transfigurador e a justificação da existência com o que há de enérgico e vibrante. Para aquele que sobrevive do olho e da compaixão do outro em sua inutilidade humana, restam a indiferença e a morte. Ou o eterno jejum metafísico.

Ana Barros

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A MORTE FELIZ


Para quem leu O estrangeiro, Camus pode parecer um escritor estranho com seu personagem avesso às convenções e ao comum da cultura humana. Mata por motivo fútil, não sofre à morte da mãe e não ama Maria, apesar da sensualidade e de tudo girar em torno das sensações do corpo. Na frieza e no absurdo da história nos identificamos e somos levados a fazer uma leitura transfigurada do pequeno romance. Camus, em sua estranheza, nos força a agir na lucidez, mesmo quando a consciência fica clara na solidão mais atroz, aquela que antecede a morte.

A morte feliz, romance póstumo, talvez um esboço de O estrangeiro, uma vez que os originais são anteriores à publicação deste, entre 1936 e1938, tem o personagem central com o mesmo nome, Mersault, e trata do mesmo tema, a revolta do homem diante do absurdo existencial, do qual não tem saída a não ser por meio do suicídio (O mito de sísifo, do mesmo autor), ou aniquilando a revolta no fogo da paixão clarividente da existência. “A conquista da autenticidade por um movimento na solidão e na natureza” justifica A morte feliz.

Ao contrário de Fausto (Goethe), protótipo do homem moderno, ativo e hedonista, o herói ocioso de Camus defende a inação sem contudo abandonar a entrega erótico-sensual de seus dias à natureza luminosa do sol, do mar e dos corpos femininos sem jamais se entediar nem sair à cata de paraísos artificiais. As mulheres, a amizade com elas, o sexo, o sol e o mar, símbolos da sensualidade, são presença marcante nos textos de Camus, sem com isso haver qualquer entrega nas relações cotidianas e comuns dos casais. Tanto em O estrangeiro quanto na Morte feliz, Camus procura despersonalizar o máximo para poder mergulhar na pureza e concretude da natureza e aí, na solidão e comunhão de iguais, ser feliz. “Até aqui, vivera. Agora, podia-se falar de sua vida. Desse grande e devastador arrebatamento que o levara para a frente, da poesia fugaz e criadora da vida, nada mais restava agora senão a verdade sem rugas que é o contrário da poesia.”

Grande leitor de Kafka e Dostoievski, Camus aborda o niilismo de seu personagem por um viés completamente amoral, humano em todos os sentidos, fugindo assim da perturbação judaico-cristã que tanto atormentou os dois escritores e tantos outros artistas que jamais conseguiram libertar a imaginação dos fantasmas religiosos. Camus rompe radicalmente com a metafísica, seja ela oriunda de religiões, da ciência ou mesmo da filosofia. O homem de Camus deixa o romantismo e a tragédia de lado para se assumir com toda a carga que o mundo comporta. Revolta-se, perde-se, agoniza em meio ao absurdo que é saber-se mortal e que nada tem sentido no universo. Mas esse mesmo homem, alerta e lúcido de toda a sua tragédia, se faz soberano de si mesmo e justifica-se no tempo finito como um Dom Quixote pleno de suas faculdades mentais, não devorando noite adentro romances de cavalaria, porém, virando as páginas destes num desprezo claro de quem alcançou a verdade. “Não se nasce forte, fraco ou com força de vontade. As pessoas tornam-se fortes, tornam-se lúcidas. O destino não está no homem, e sim à sua volta”, pensa Mersault perto de morrer.

ASSASSINATO JUSTIFICADO

Ao ler A morte feliz, possuídos da moral que nos impede de matar o outro, tendemos a ficar chocados com a frieza com que Camus leva seu herói assassinar um homem para poder ganhar a sua liberdade, pois que o outro tinha o que ele precisava, dinheiro. Patrice Mersault é um funcionário medíocre que trabalha oito horas diárias e não consegue tempo livre nem dinheiro para viver com prazer. Conhece o ex-amante de Marthe, sua atual namorada, Roland Zagreus, deficiente de cadeira de rodas, rico, culto e educado, que passa a gostar de Patrice e com este mantém diálogos reflexivos que estimulam Mersaut a matá-lo e roubar a fortuna guardada pelo inválido.

As semelhanças com Crime e castigo são bastante visíveis no sentido niilista dos personagens principais em matar por considerar o outro desnecessário ao mundo, a velha de Crime e castigo por ser desprezível em sua usura e o outro, Zagreus, por ser metade homem, não tem as pernas, e não dispor do tempo e do dinheiro com a liberdade plena de existir, desejada por Mersaut, jovem, atlético, viril e consciente das limitações existenciais para as quais toda a moral perdera o sentido.

Longe das angústias e da culpa que atormentam o antes racional e autossuficiente Raskólnikov, Patrice é lúcido e “inocente” de qualquer traço de arrependimento. Mesmo quando ensaia uma confissão ao amigo Bernard, “Não porque o segredo lhe pesasse. Não havia segredo nisso. Se até então se calara, era na medida em que, em certos meios, guardam-se os pensamentos, por saber que se chocariam com os preconceitos e a estupidez”.

Camus trata a lucidez com tanta veemência que, para nos convencer do real poder humano em sua finita existência, utiliza-se do assassinato como símbolo para nos fazer refletir sobre a inutilidade da moral quando tudo é permitido entre os homens, até mesmo matar o outro. Se Ivan Karamazov duvida: “Se Deus não existe, tudo é possível”, Mersault não expressa nenhuma dúvida, sabe que é mortal e também o que quer do único mundo que conhece. E o que ele quer do mundo é real, táctil, natureza e não ideia.

Patrice Mersault poderia ser um boêmio, ou o dândi tão cobiçado por poetas da França do século dezenove, mas ele é lúcido demais para ser um decadente. Enquanto o herói russo encontra redenção no sofrimento e na expiação da culpa, Mersault considera todos os atos humanos inocentes, uma vez que não há nada além do corpo que quer e da lucidez que se entrega. “Se sou feliz, é graças à minha má consciência. Senti necessidade de partir e de conquistar esta solidão na qual pude confrontar dentro de mim tudo o que havia para ser confrontado, o que era sol e o que eram lágrima... Sim, sou humanamente feliz.” Aqui a ênfase nitzscheana do amor fati, da conquista da autenticidade de um homem-deus. A morte vai encontrá-lo com o mesmo olhar e com o mesmo desejo. “E, pedra entre pedras, ele retornou, na alegria de seu coração, à verdade dos mundos imóveis.”

Ana Barros