quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Não mais mentiras

Na semana que antecede o Dia dos pais me vem a frase tantas vezes dita com amargura por aqueles senhores pais de família que se sentem traídos: “o pai é o último a saber”. Os motivos do desgosto tardio variam dos mais sérios aos mais insignificantes acontecimentos do dia a dia de jovens impulsivos que, temerosos da ira paterna, aprendem a arte da dissimulação. A mãe, submissa ao rancor e inacessibilidade do marido, raras vezes não ficou do lado do filho, sozinha, com as confidências e a angústia da inação. Não obstante a culpa, chega por vezes relaxar, e até sentir prazer em ser cúmplice da mentira do filho se esta nada mais for que um inocente meio de ganhar um pouco de liberdade longe dos olhos de fogo e da chibata do dono da casa. Porém, quando o assunto é de caráter complexo, que exige reflexão e boa dose de autoridade, a mãe padece terrível pesadelo ao lado do marido que, enquanto ela vara noites de insônia, ele ronca o sono morto dos alienados. Na dúvida, basta observar o semblante das mães velhas para enxergar as profundas marcas de perturbação adquiridas ao longo dos anos ao esconder do marido confissões do filho. Por seu lado, o pai e marido ignorante da história corrida debaixo de seus olhos, envelheceu como patriarca poderoso, dono absoluto da mulher e dos filhos improdutivos. Ele envelheceu imaginando-se respeitado e rodeado dos bens que acumulou com trabalho árduo e indiferença à vida ordinária, esta, administrada pela mulher. A rotina do patriarca limita-se à tarefa nobre de expandir o patrimônio.

Carta ao pai, de Kafka, é talvez o mais contundente registro de ignorância paterna vista como poder absoluto e incontestável. Tímido, sensível e temente ao extremo à figura potente do pai, Kafka jamais confiou a este as inquietações de alma. Enquanto o patriarca judeu e comerciante pragmático cobrava a presença do filho na loja da família, o rapaz se refugiava na subjetividade que produzia personagens tão complexos quanto à sua própria existência. Como dizer ao homem autoritário e poderoso que não deseja seu posto tampouco seu lucro monetário? Como fazer o pai aceitar a sua indiferença à ideia viril de herança? Em vez de uma atitude objetiva de enfrentamento e ruptura, Kafka, que era graduado em Direito e funcionário de uma companhia de seguros, prefere viver entre imagens e pesadelos de uma profunda inadequação objetiva. Porém um dia, cansado das cobranças nem um pouco educadas do pai, Kafka resolve escrever-lhe uma carta, na qual relata sua insatisfação de filho por não conseguir ser o homem de negócios idealizado por um pai bem sucedido, autoconfiante e vazio de imaginação. A carta é longa e ressentida, 112 páginas de letra magoada. Na dúvida se manda ou não ao pai, procura alguém a quem possa confiar o segredo e que o ajude a tomar uma decisão sensata. E quem, na visão de filho educado na moral de culpa e castigo, merecia conhecer a sua intimidade? Ora, só podia ser a mãe. Ela lê o texto e, antecipando a tragédia anunciada, convence Kafka desistir da ideia.

Se um jovem do século XXI, desconhecedor dos dramas existenciais característicos de gerações que o antecederam, incluindo aí a época do escritor de A metamorfose e O processo, lesse Carta ao pai, talvez dissesse: “Porra é isso... Tô fora! Esse omi é um otário!” Possivelmente esse jovem raciocinasse de acordo com a elasticidade moral dos costumes e consequente amplidão das vontades individuais do seu tempo. Realidade impossível na primeira metade do século XX do jovem Kafka, cuja saída foi retratar o indivíduo prisioneiro de um poder tirano, invisível e fatal. Infelizmente poder que ainda pode. Porém, cada vez mais jovens o enfrentam com o desregramento e a desconstrução da arquitetura do segredo, do sagrado, do privado, da família. Para comprovar basta ir às ruas de qualquer lugar, grande ou pequeno, e observar as meninas e os meninos em suas tribos diversas, para quem as angústias kafkianas soam como risível impotência e medo exagerado de guerrear contra pesadelos reais. Essas meninas e meninos rasgam na pele, no verbo e na rua, sua vontade mais íntima, mais pessoal, mais coletiva. Exibem (não representam) a performance do corpo que deixou de ser binário para assumir vários.

Voltemos, pois, ao pai de Kafka. Será que ele desapareceu da História como patriarca envergonhado pelo escancaramento de todos os segredos da sala de jantar? Será que a mãe de Kafka também sumiu da subjetividade masculina na qual simboliza menos cumplicidade de igual do que uso em benefício próprio da fragilidade materna, do medo do marido e da proteção da cria? Na ausência de certeza, ou na ignorância de sua existência, basta acompanharmos atentos a crônica cotidiana das ruas e das redes sociais para avistarmos Kafka e os pais de Kafka nas casas que cultivam através dos séculos o retrato amarelo de família. Esta mantém e protege a herança como valor maior a filhos educados nos princípios do capital. O nome dessa família continua o mesmo desde o final do século XVIII: pequeno burguês.

Mas... e os jovens, cada vez em número maior, que afirmam vontade e destino, este, eterna guerra contra os valores burgueses, sem a bênção ou maldição dos pais? Olhemos, pois, esses jovens rebelados, prestemos a atenção às suas afirmações de mundo. Elas e eles são, em sua maioria, filhos de pais separados, ou de mãe , que trabalham o dia todo como autônomos, assalariados no comércio, indústria ou na prestação de serviços. Para estes não há segredos nem hierarquia patriarcal. Não há vida dupla: uma, representação pública; outra, reclusão marginal. Deserdado desde a origem, longe dos bolsos cheios e da superioridade fria de um pai julgador que ignora os desejos do filho, este estende a sua existência para além de uma herança, para além da cumplicidade de mãe e filho da qual, muitas vezes, padecem os dois de profundo rancor sobre o entulho recalcado e dissimulado na mentira. Mas também o bordão “o pai é o último a saber”, que só permanece onde há segredo entre mãe e filho, dá lugar à verdade, à ausência do labirinto subjetivo.

Ana Barros
Natal, 05 de agosto de 2017.









terça-feira, 6 de junho de 2017

As precatas



Durabilidade sem descarte já foi sinônimo de sobrevivência de costureiras e artesãos. Infelizmente, vergonha dos meninos que eram obrigados a usar a mesma calça de fustão até virar pano de prato ou cueiro de menino novo. As precatas, depois de muitas idas e voltas à oficina para repor a meia-sola, finalmente transformadas em molambo, viravam rabicho para pendurar chaves no prego da sala ou coleira pra prender o gato ladrão. Assim mesmo: precatas. Foi dessa forma, do verbo precatar [prevenir, acautelar], que o popular, para proteger os pés de picadas de inseto e furada de espinhos, passou a chamar chinelo de dedo, aquele de uso diário que faz “lepe-lepe” no soalho de tijolos. Ao nascer, a meninada já se apresentava de precatas nos pés. A vizinhança com algum artesão facilitava o acesso até ele que, de tanto tirar medida e bater sola, acabava sem enxergar os centímetros da escala. O ofício de décadas era enfim abandonado, ou na melhor das hipóteses, passado de pai para filhos se estes também fossem artistas.  

Pobres e numerosas, as famílias passavam longe das lojas, em número pequeno e exclusivas da cidade grande, quando a roupa encolhia e a sandália deixava o calcanhar de fora. E, diante da falta de dinheiro e da impossibilidade de copiar a moda urbana, a ordem era passar o que não cabia mais ao irmão da frente, cujo manequim tinha que se adequar ao sexo e ao tamanho da herança. Muitas vezes a saída era empurrar pano molhado para aumentar, ou arranjar calços para diminuir o calçado. Não havia outra escolha. Era ficar nu e descalço se invejasse a roupa e os sapatos dos filhos de...

A indústria com a sua peculiar multiplicação dos objetos só apareceria décadas mais tarde quando os artesãos já haviam desaparecido por morte ou abandono dos clientes, uma vez que estes passaram a comprar sandálias mais em conta, de um tipo de material barato e abundante: o plástico. Este substituiu a manufatura do couro e, consequentemente, das precatas. Roídos de despeito, os filhos do pobre olhavam os pés de quem chegava da capital com as suas “chinelas japonesas” tão ao gosto dos orientais em seu costume milenar de alpercatas de dedo. Em sentido contrário as nossas precatas, resistentes, artísticas no estilo cangaço, confortáveis no arrastar sensual do nordestino, adequadas ao clima e vegetação áridos, eram abandonadas em nome da variedade, da cor e do preço. Foi assim que [do nada] apareceu à porta da rua o caixeiro viajante, vendedor ambulante da época, a abrir a enorme mala de madeira apinhada de chinelas de todas as cores. O preço é irrisório comparado com o valor cobrado pelas precatas feitas à mão e sob medida. Mas agora todos podiam ter uns três pares no correr do ano. E cada irmão com os seus. A abundância do plástico, que daí em diante substituiria acessórios, utensílios e uma infinidade de quinquilharias, não quer dizer que a situação financeira das famílias tivesse melhorado: continuavam pobres e numerosas.

Além de ser objeto de vida curta, a nova sandália não tinha conserto, não havia meia sola nem oficina de reparo para ela que, em vez de rabicho ou coleira, jogava-se em algum terreno por perto. As precatas [duráveis] davam passagem à moda das coisas efêmeras cuja produção em massa obedece a preço, imitação barata e quantidade de acordo com a pressa que cada um tem em se desfazer do que não dá mais prazer ou do que quebrou antes mesmo de ser pago ao mascate, que reaparece um mês depois para cobrar trazendo na mala mais cores e novidades. E foi a partir do despertar de que as precatas haviam perdido a condição de objeto único e durável que a crença, agora, estava na multiplicação e infinita mudança das coisas.  


O plástico, em sua diversidade de formas e utilitários, contribuiu [e ainda contribui] na conquista de mãe e filhas da libertação dos utensílios domésticos cujo manuseio significa fadiga, cansaço e não prazer. Por ser desde sempre domínio das mulheres, os afazeres da casa, bem como pequenos mandados, eram invisíveis ou desprezados como “coisa de mulher” pelos homens: pai e filhos. Até mesmo as precatas esquecidas debaixo de um móvel qualquer, ou num canto de parede, levavam os homens de casa a gritar: “Rosinha, ô Rosinha, traga aí minhas precatas...!”.

Ana Barros
Natal, 25 de abril de 2017.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Relações naturais

olhei em redor de mim 

o chorume descia doce desde que beijei a boca do lixo
mas não tarda o fim amarga
abre a ferida metafísica que rói
a sem-razão no mundo que alimenta sombra
guerra? então é guerra!
o corpo doído doido desprega
das dobras tantas vezes chama
tantas vezes dobra
porém esqueceu de olhar [cadáveres assombram]
e outra vez repousa débil
na lama
                  
Ana Barros

Natal, 28 de setembro de 2015 (concluída em abril/2017)

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Retorno de Judas

A raiva que escondem o ano inteiro para mostrar longe das peias da obediência do convívio entre homens e coisas foi rasgada no Sábado de Aleluia. Dia inventado para minha desgraça e redenção dos que são roídos de culpa. Talhado de baixo para cima com a faca que haviam cortado as vísceras do porco – sou estripado. Vejo cuspir no chão os molambos que foram até ali intestinos. O círculo de revoltados se fecha em torno da minha agonia: paulada sobe, paulada desce, paulada zumbe no ar gritado de prazer e fúria. Marmanjos aproveitam a inação dos membros de fiapos dos quais sou feito e descarregam urros de vingança e ódio. Fui morto sem fugir à covardia dos que querem a vida sem fezes: sou o espírito do pesadelo. Sou a inércia rompida quando me amarram à estaca fincada na rua diante da turba que grita “traidor!”. Ali sou esquartejado. Tenho a cabeça atirada longe com um pontapé do peladeiro da rua, o mais empenhado na minha destruição que, ele não sabe, é também a sua. Arquejo sob os dribles dos moleques quando sinto a ponta da faca entrar nas órbitas dos meus olhos de esmeralda. Abandonado e arrastado na poeira, cego porque vi o que é não visto, apanho algumas pontas de linha que haviam enroscado na estaca e amarro no último molambo que restou de mim caído. Porém, para a minha imortalidade, bruxa Cuca, que protege Judas, espantalhos e bonecas de pano, surge diante de mim carregada de artifícios da criação. Aproxima a mão de jacaré do pequeno retalho entrelaçado de linhas e guarda-o no couro mágico. E, meia noite em ponto, hora do lusco fusco da danação, Cuca recompõe meu corpo despedaçado. Com o polegar e o indicador da mão esquerda ela fecha as fendas onde antes brilhava meus olhos e arremata com um ponto preto em forma de cruz. Surpreso por não repor os botões de esmeralda no lugar que fora vazado, imploro que ela faça de novo eu ser. Mas já é manhã, Domingo de Páscoa. Não mais vestígios de ódio, nem mais pedaço de Judas. Os meus algozes estão calmos e veneráveis nos bancos da igreja. Vestem branco e trocam a carne sangrenta por chocolate. O padre repete: “aleluia, aleluia, aleluia...”.

Ana Barros
Natal, 04 de agosto de 2011.


sábado, 4 de março de 2017

Arrebol dos impulsos

Há um dito popular tão justificado quanto negado por aquele que observa a vida ordinária de um ângulo psicológico, na perspectiva intuitiva mesmo: pau que nasce torto morre torto, dizem os deterministas daquele cuja índole, já na velhice, é idêntica à da infância dos impulsos. Há quem diga não existir a pessoa velha, que o velho é o mesmo indivíduo desde o dia em que nasce até o dia em que morre. Que envelhecer é o processo obrigatório de quem veio sem pedir e de quem volta também sem pedir. Que envelhecer é a impressão das horas na superfície de quem estendeu os limites de ser à ausência do limite do qual é feito. Envelhecer, enfim, é manusear o mesmo caderno cujas folhas, em branco no começo, são marcadas e passadas pelos dedos calmos e cruéis do tempo. Aqui teríamos não a pessoa velha, mas o indivíduo estendido ao ilimitado de suas possibilidades, só interrompidas pela morte, instante último no qual é feita a clara distinção entre aquele que entendeu a sua condição de gente e o que existiu alheio ao passar do tempo sobre as folhas ora amassadas, ora rasgadas, permanecendo assim no princípio da vontade. Para este, amadurecer é esquecer, é fixar os sentidos não no que angustia e move em direção a nada, mas no presente vivo e cheio de promessas de felicidade. A razão, ensimesmada no mundo dos sátiros, desdenha o aprendizado que a moral determina como adequado àquele que joga luz no submundo dos impulsos. Ser de agora: este que atravessa o tempo em atenção apenas à criança que foi sem nunca deixar de ser.  Muitos com esse perfil são engraçados na infância, cômicos na juventude e debochados na velhice. É comum familiares e amigos não respeitarem o velho debochado, não levarem a sério o que ele diz e o que faz. Apesar do físico devastado e da memória falha, basta um instante para reencontrar neles os impulsos para os quais a idade avançada, segundo os manuais dos bons costumes, deve moldar. Mas este que não se deixa carimbar com o selo do conhecimento, representa sem pudor no palco que os demais, lúcidos e reflexivos, sobrepõem máscara sobre máscara. Viram as costas à luz de Platão, para quem a maturidade desenvolve o conhecimento que adquirimos ao sair da caverna. O observador que compreendeu a máxima do filósofo que separa a vida entre o mundo dos sentidos [inferior] e o mundo das ideias [superior] vê a si mesmo sem compaixão e aprendeu a se esconder dos menos atentos aos vícios da vergonha invisível, ou seja, da paixão impulsiva. É este conhecedor da escuridão [dentro] e da luminosidade [fora] da caverna quem sustenta que pau que nasce torto morre torto. “Então todos nascemos torto?”, quer saber o homem sensato para quem a prática da disciplina alinha o troncho. Mas o observador, irônico pela experiência de jogar as cartas marcadas, olha o homem sensato e responde: “claro que não. Mas também não nascemos reto”.

Ana Barros
Natal, 23 de fevereiro de 2017.





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

LUCI

                                                                               
                                                                                                    
Ninguém percebe o alheamento dela às conversas dos adultos nem o convite a conhecer o espaço encontrado ao entrar na casa da tia velha e cega na manhã de domingo. Num piscar de olhos a menina desligada colhe para sempre os detalhes de duas vidas cercadas de outras vidas, todas, animadas pelo ritmo fatal do grande relógio da parede da sala, que já tiquetaqueou quatro gerações. Faz um ano que eu comprei a pequena propriedade onde Luci viveu com os pais até se mudar para São Paulo levando na mala os manuscritos que escrevera na infância solitária e povoada dos seres com os quais mantém intimidade desde cedo. Mas a nenhum editor interessou publicar: “tolos!”, disseram ao devolver a pasta com os escritos. Com a autoconfiança da escritora que gosta do que escreve apesar do mundo inteiro achar medíocre, ela guarda os originais para mais tarde publicar com recursos próprios. Mas a história termina aqui. Há meio século ninguém sabe dizer nada da menina nem que fim levou sua família, tampouco do acervo de Luci que, se viver ainda, já passa dos 90. Antes de entrar na intimidade da antiga moradora eu também não sabia nada da mulher que me levou à leitura de vinte cadernos em menos de três dias. Pois bem, o meu interesse por ela nasce ali quando, pisando onde antes era o seu quarto, percebo algo semelhante à tampa de um baú coberto por restos das ruínas do que foi a residência da família. Provavelmente naquele ambiente no qual me encontrava, a menina, a adolescente e a moça, escreveram boa parte da produção que eu, possivelmente, seria o primeiro a ler. Ao tocar o objeto semienterrado penso primeiro ser uma botija cheia de ouro e moedas antigas, o que não era raro acontecer no meio rural onde pessoas avarentas tinham o hábito de esconder da família dinheiro e joias debaixo da terra. Aqui acolá um parente malicioso e sabedor do segredo “sonha” com o defunto apontando o local do tesouro por ele deixado, consequência da sua estada no Purgatório, cuja tormenta só terá fim quando o escolhido arrancar a botija. Porém, ao enfiar uma estaca ao lado da arca e esta ceder com facilidade, tenho duas reações: a primeira, grande decepção por ver que ali só tem papel velho e, a segunda, uma felicidade indizível quando descubro tratar-se de manuscritos. Abaixo-me e arranco do meio do entulho o baú de um metro de comprimento por uns 60 centímetros de largura. Uma arca pequena que acomoda os originais de Luci, material para cinco livros entre romance, crônica e poesia [todos] rejeitados pelos editores e esquecidos ali ninguém jamais soube dizer por quem, uma vez que era desejo de Luci publicar quando pudesse pagar pela edição. A mim essa questão era menor que o interesse em tocar os cadernos e ler o que ela escrevera num tempo já apagado, porém, atualizado a partir do momento em que nele eu entrasse guiado pela leitura. Deixo a curiosidade me conduzir e entrego-me ali mesmo às folhas amarelas, mas bastante legíveis devido o cuidado que Luci teve em proteger os papéis ao vedar o baú com resina de goiabeiras, das quais ainda se viam alguns pés completamente queimados no entorno da tapera. Leio e, diferente da crítica dos editores, gosto de todos. Porém um, o menor entre eles, apenas cinco folhas escritas com a calma de quem conhece o Paraíso, me traz a sensação de que sou figurante naquela história. Leio e releio muitas vezes a narrativa em forma de monólogo.
                                                           
Ela é alta, loura, magra e mansa: chamamos de tia. É o único parente que conheço com essas características entre os negros e pardos de onde venho. A exclusividade no meio mestiço em que nasci faz com que eu ache a senhora de olhos azuis e longas tranças douradas a menina do conto de fadas do meu livro de português, cujos pais a abandonam na mata por ser diferente dos outros filhos. Sempre que a visitamos ela está asseada e cheirosa a lavanda dentro do vestido longo de saia franzida, mangas três quartos e gola redonda. Um xale de lã crua, no qual enxuga a secreção dos olhos, envolve o longo pescoço da mulher que caminha para os oitenta. As cores claras das estampas florais se harmonizam com os olhos translúcidos e a postura aristocrática da velha senhora. Demoro em me convencer de que ela não vê nada com aqueles olhos límpidos e interessados na conversa de cada um. Enquanto somos convidados a sentar nas cadeiras Luis XV, e o marido nos servir com chá de canela e biscoitos de maisena, ela relaxa os braços na espreguiçadeira de imbuia coberta de lona listrada já desbotada, no entanto, de uma beleza esmaecida pelo uso, cujo prazer em ver dá ao conjunto a impressão de uma tela de Renoir. Ao lado direito da entrada o porta-chapéus que, além de acomodar nossas sombrinhas, serve de suporte para os biscuits de porcelana e a estrela de pano, escultura que alguém fez diligentemente usando os retalhos dos vestidos da dona da casa, os quais acendem a minha imaginação propensa ao devaneio.  O marido, a quem ela chama “Vós” e ele, por sua vez, dirige a ela o mesmo pronome “vós” carregado da formalidade aprendida, dizem, de um parente português que viveu entre eles, é quem administra a casa e cozinha para os dois. Um empregado, jovem e robusto, dirige a velha Pick Up, cuida dos animais e da terra.  Sinto um calmo prazer em pisar o campo verde e bem cuidado que cerca a casa, tão branca em sua majestosa localização no ponto mais alto da terra dos dois velhos solitários e rodeados das coisas com as quais vou manter por muito tempo relações de magia, uma vez que aos olhos da infância as coisas adquirem proporções, cor, cheiro e sabor jamais repetidos na vida adulta a não ser pelo instante da lembrança descolada do tempo. Ali tudo é grande e luminoso: a sala com três tipos de cadeira, o alpendre com uma dezena de armadores de madeira nos quais não se vê há anos vestígios de rede armada; os quartos, três ao todo, que eles chamam de alcova, com duas camas de solteiro também estilo Luis XV, o fogão de lenha que vai de um canto a outro da cozinha retangular, a mesa de madeira enegrecida e lustrada pela gordura das carnes tantas vezes servidas tem dois bancos em cada lado, nos quais sentavam doze pessoas e agora servem de cama para os gatos e passeio, quando estes estão longe, das rolas que vêm catar os grãos deixados cair propositadamente pela tia cega.
                                                          
Tenho sete anos. Desde os cinco acompanho minha mãe nas visitas que faz aos parentes enfermos. Promessa a São Lázaro, de quem é devota, de visitar os “fragilizados” da família enquanto ela viver e tiver saúde. Nem meu pai nem meus irmãos a acompanham nessas obrigações piedosas: “quem deve suas promessas que vá só. Eu não vou!”, dizia meu pai zangado. “Eu também, não!”, completava a minha irmã mais velha agarrada à mão do caçula, o qual tinha por ela amor de filho. Assim terminava a discussão já conhecida de todos um dia antes da visita. Quanto a mim, pendurada no pescoço de minha mãe durante a frustrada tentativa de convencer todos a acompanhá-la, vou feliz e com o único intuito de ver as coisas, senti-las e cheirar os aromas que perfumam a estrada até a casa dos tios velhos. É desses passeios caridosos que faço meu lazer e libero a imaginação ansiosa. Há, no entanto, aqueles passeios dos quais eu não sinto outra coisa senão repulsa. Mesmo assim, não abro mão de nenhum. Penso: “quem sabe lá encontro algo diferente!” Lembro particularmente de uma dessas obrigações de minha mãe que ainda hoje me deixa de estômago revirado: A casa é de pau-a-pique, escura e miserável. Permanecemos duas horas no quarto com cheiro de urina dos lençóis do homem derrubado por uma gripe há mais de um mês. Mal nos despedimos do doente corro a cuspir até não lembrar mais das bolhas de catarro que ele, deitado, arremessa na parede colada à cama. Com o tempo, a demora na recuperação e a falta de higiene, os escarros dão à parede efeito luminoso semelhante a papel celofane dourado colado ali com o intuito de encobrir as imperfeições do barro jogado entre as varas que seguram a casa. Os reflexos da lamparina sobre a sujeira seca me acompanham até o dia da visita ao casal aristocrata. Aí as impressões sombrias do quarto insalubre desaparecem para dar lugar à luminosidade aberta que me deixa de ânimo revigorado e esquecida do outro parente, também só, mas ensimesmado na sua impotência senil [desconfio que ele jogue catarro na parede como ação deliberada de vingança]. Já o fato de visitar o casal pela manhã, hora que expande a luz no interior da casa [se há doença ou recantos frios são incendiados pelo brilho matinal], provoca em mim a primeira sensação de belo que tenho guardada, o que mais tarde, ao contemplar o que sobrou da casa, seria desfeito diante da surpresa em constatar que aquele espaço da minha infância havia encolhido, perdido o brilho. Compreendi desde então que as coisas têm o fim de seus donos, que tudo se torna fragmento, entulho no espaço morto. Não sei precisar, mas, pela destruição causada pelo tempo e o abandono, o casal morreu faz muitos anos. E, Junto com eles, todas as vidas com quem e para quem viveram. Apenas uma, a lagartixa que me deixava transida de medo quando me encarava a balançar afirmativamente a cabeça do meio da touceira de lírios do quintal, deixou seus ovos nos escombros: sou apresentada a mais nova geração de lagartixas. Mas a amplitude ilimitada da minha infância havia encolhido no remanso do corpo sem a luz matinal que acende a chama da inquietação.                                              
                                                                   
Os velhos morreram, as visitas cessaram. Além de eu ter crescido e encontrado outros seres e outros espaços, meus pais são agora os velhos da história. Os jovens, incluindo meus irmãos e eu, se mudaram para a cidade. Os poucos que de início resistem à tentação da rua, logo abandonam a herança adquirida e esquecem de vez a terra que eu guardei intacta com a solidez das coisas que viram cristais. Mas a morte do que fica velho, e os chamados insistentes das comodidades da vida na cidade transformam o que viveu em estorvo para os que continuam. Sem guarda, a porta se abre não mais ao sol e às visitas de domingo, mas ao mofo, ao cupim e às ervas daninhas. A casa branca e imponente encolhe e imprime o ar sombrio de filme noir. Nada mais da brancura da cal encontra-se nela. Nada de humano se mexe no silêncio triste da casa velha sem dono. Sento no tronco do que restou da árvore atacada pelo enorme cupinzeiro que ali fixou morada e contemplo a ruína com o mesmo interesse com o qual me olho no caco de espelho grudado no resto de parede: temos [a ruína e eu] o limite anunciado. Do meu lado, envelheci e diminuí alguns centímetros como acontece a todas as coisas gastas, inclusive à casa grande e branca da minha infância, agora velha também, porém, diferente de mim que guardo imagens, a casa está vazia de tudo, não só dos móveis e dos corpos que deram vida ao ambiente, mas daquilo que vi como grande e belo nas longas visitas que fiz na companhia de minha mãe a casa onde mantive diálogos com o não verbo. Ali, diante do silêncio cinza da natureza morta, livre da plástica que mascara o entendimento, encontro o tempo do relógio parado.

Ana Barros
Natal, 21 de janeiro de 2017.



         Ilustração: Binho Duarte

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Capital

Não é à toa que meu padrinho Vitorino repete a frase que me deixa vermelho de vergonha cada vez que peço a bênção. Ele, sentado na cadeira de balanço, porta aberta de frente pra rua, de onde todos podem vê-lo tirar o chapéu num solene cumprimento, diz alto e grave “Deus te dê fortuna” e solta da varanda uma moeda que cai reto na minha mão humilhada. Com o passar do tempo percebo o sentido daquele gesto. Era a senha para que eu decifrasse a vida pindaíba que carregava desde já. “Deus te dê fortuna” era o desejo do homem rico e orgulhoso convencido sempre das dádivas do céu na vida daquele que ajoelha e pede. E eu, moleque que veste roupas de segunda mão e dorme em cama com mais dois, devo ser como meu padrinho, ter calças de linho branco com os bolsos estufados de notas. A sua máxima de “homem de bem” estava no tamanho dos bolsos da calça. Os seus, não podendo fugir à premissa, exibiam dois volumes quadrados de cédulas variadas. As menores separadas das maiores. Explicava: “a salvação da alma está na quantidade de esmolas”. As notas de valor significativo guardava no bolso mais fundo e vistoso. Não explicava o porquê, no entanto, todos sabiam que a intenção era provocar a ira dos invejosos. E um destes, só eu sabia, era o meu pai, que me esperava na esquina de volta da bênção do domingo e arrancava a moeda da minha mão com o mesmo impropério: “aquele muxiba só deu isso?”.  

Lá em casa falta tudo, principalmente dinheiro pra fugir das cobranças penduradas no prego de Seu Felizardo. “Ah se eu tivesse o mar!...”, suspiro olhando a capa do meu caderno com a ilustração do mar azul a se misturar com o céu azul de Gullar que, mais tarde, não me cansaria de analisar em sala de aula com os meus alunos verdes de metáforas. E por falar em metáfora, logo cedo descobri a diferença entre o “duro” que mora na cidade onde tem mar e o “duro” que vive longe dele, o mar, este desconhecido dos que fazem da sala de estar o seu oceano pacífico. Sabia pelas fotografias maravilhosas do livro de História que ele, o “duro”, estava lá, a poucos metros das ondas que trazem de volta o sol nublado de tédio no correr dos dias cansados. De lá ele volta radiante, quase sempre bêbado, esquecido. Volta mais pindaíba ainda, porém de saco esvaziado.


Mas foi num domingo mofado do Baú de Sílvio Santos que conheci Capital. Não sou o homem que meu padrinho Vitorino quis que eu fosse, mas tenho algumas notas de 10 e de 20 no bolso e acabo de chegar à cidade onde mora a minha irmã há mais de 20 anos, o mesmo tempo que não nos vemos. O ônibus estaciona na Rodoviária depois de três dias de viagem e muito barro vermelho no meu bigode, que de preto ficou ruivo. Um sobrinho me espera com ar de quem está ali empurrado. O cumprimento é mudo e com a mão frouxa: “Já não pede a bênção...”, observo sem mágoa. Aliás, sinto alívio em não constrangê-lo na repetição do hábito há muito esquecido por minha irmã no sofá da sala, como veremos adiante. Meu sobrinho tem pressa em se livrar de mim. Com receio de que apronte alguma peça comigo considerei dar a ele as moedas que juntara de troco na viagem. Porém, em segundos, o rapaz havia me deixado para trás com a mala e o saco de comidas e correu cortando a fila que se formara mal o transporte parou no terminal. Subo no ônibus com dificuldade, sem ajuda. Alguns passageiros fazem palavra cruzada, outros cochilam nos assentos impregnados de marcas de fadiga. A maioria, em pé, colada um no outro, se balança indiferente aos movimentos bruscos do veículo.  Meu sobrinho tem mais sorte do que eu. Alguém desce e ele, quase derrubando a senhora a seu lado, cai sentado na poltrona. Quanto a mim, vou em pé com a mala entre as pernas. O saco de comida atrapalha a passagem no corredor, é impossível ser diferente. O jeito é passar por cima dele, que já começa soltar cheiro. “Que fome!”, meu estômago reclama ao sentir o cheiro doce de jaca, lembra que não como há quase um dia. Não dou importância nem à fome tampouco aos resmungos dos incomodados com o barro vermelho que voa do meu bigode. Esqueço os passageiros por alguns instantes e passo a admirar a paisagem da grande Avenida. Pergunto ao meu sobrinho que planta é aquela, enorme, de galhos flexíveis parecendo uma cascata de cipós: “pindaíba”, ele diz de dentes serrados em completo desinteresse de continuar o papo. “Quer dizer então que pindaíba é uma árvore?”, sem resposta... Era como se o silêncio dele dissesse: “deixe de pagar mico, bocó!” Sem conter a ansiedade quase machuquei as mãos ao apertar o apoio de ferro no qual me seguro. Quero saber logo o que é pindaíba além de “duro”, além de “liso”, qual a relação entre as duas palavras e aquela árvore medonha.  Aproveito que o sinal fica vermelho e deslizo o dedo sobre “pindaíba”. Está lá: “vem do Tupi pindá= anzol e yba=  vara. Era uma vara usada pelos índios como caniço. Quando não pescavam nada, voltavam apenas com a vara na mão, ou seja, na pindaíba”. “kkkkk...”, não consigo segurar o riso diante da estranha definição. Envergonhado do “kkkkk” dentro do ônibus lotado de mal-humorados olho em todas as direções para ver se alguém compartilha a minha surpresa. Fico feliz em constatar que ninguém, nem mesmo o azedo do meu sobrinho, havia dado a menor importância ao “kkk”. Foi então que senti uma mão apertando o meu braço apoiado no encosto da poltrona do lado. Uma senhora visivelmente aborrecida me faz inclinar até ela e dá a ordem: “não faça isso! Em Capital não se liga celular dentro do ônibus”. Respeito a ordem e enfio o aparelho no bolso. Mas ali, na catatônica Avenida por onde o veículo passa arrastando passageiros sombrios com seus celulares desligados e escondidos, sou tomado por outra sombra, a que me deixa desapontado, o mesmo desapontamento que vou sentir uma hora mais tarde ao encontrar a minha irmã no sofá da sala. A sombra não vinha das copas majestosas, nem dos prédios de edifícios, mas dos contornos redondos de Capital, geometria que imediatamente associo à passagem bíblica do bezerro de ouro cercado por ovelhas tristes e de carne pindaíba apodrecida longe do mar, este, que se dedica a roer e esquecer o que rói. No instante em que o ônibus atravessa a Avenida que liga o Norte ao Sul da cidade vejo que as coisas mudam apenas de humor e geografia. Em todas, porém, o imperioso tédio: embriaguez e ressaca. Se tiver mar corre-se a ele e afoga-se na evasão salgada e momentânea. Sem mar, Capital é uma enorme bacia redonda na qual o mergulho não passa da sala.

Meu sobrinho corre à frente. Ali mesmo na sala desce as calças e puxa o celular do fundo da cueca. Tranca-se no quarto. A minha irmã sorrir satisfeita para Sílvio Santos. Tem as pernas gordas sobre o sofá, uma bacia de pipocas de um lado e a garrafa de coca-cola do outro.  

Ana Barros                                            
Natal, 29 de novembro de 2016.