domingo, 20 de maio de 2012

Um elogio à desordem


Não sabia o que fascinava em ter minha casa entre duas famílias com crianças. Do lado direito, Ana, do esquerdo, Vicente, ambos de cinco anos. Os avós, os pais e tios de Ana ralham com a menina o dia todo. Os avós, os pais e tios de Vicente amam o menino o dia todo. Eu, entre eles, me delicio. É tanto que viajei um dia desses para o interior e lá tive a impressão de ouvir Vicente dirigindo seu carrinho, conversando com seus camaradas de imaginação. Ouvi também a avó de Ana gritando com ela e a traquina respondendo com sua inocente espontaneidade. Sorri satisfeita lembrando a desordem e os sons que chegavam até mim vindos das duas casas. Barulho de coisa viva-quente-inquieto-buliçosa-humana.
           
Seria só a impulsividade das duas crianças e o nervosismo dos adultos ao seu redor que tanto me atraiam? A viagem me fez compreender que não. Havia outro lado, sombrio, que ainda não conhecia, mas que espreitava o momento certo de se revelar: a solidão, o silêncio, a paz, a ordem que chega com o desaparecimento da inocência, inocência que eu tinha o privilégio de mais uma vez experimentar, primeiro por ser avó de Heitor, também de cinco anos. Segundo, por residir próximo à desobediência dos dois pequenos. Além disso, a viagem trouxera à luz outra face da vida, aquela que se esvai na reclusão da casa daqueles que perderam a leveza da cumplicidade juvenil, ou por doença, velhice, ou por entrega mesmo depois das bordoadas da vida.

Visitei dois amigos já idosos, Sther, viúva, sozinha, 72 anos, e Olegário, 80 anos, casado e com filhos já casados. Fui primeiro à casa do velho. Apesar de morar com a família, encontrei-o só e em crise desesperadora, tinha mal de Parkinson. A ordem, o silêncio e o vazio absorviam aquele homem ainda com fortes sinais de virilidade consumada. Era agora uma pessoa sozinha num espaço que conheci noutro tempo cheio de vozes, discussões, risos estridentes, som de sanfona (ele era músico), de pandeiro, batida de talheres nos pratos pelos jovens da casa numa performance musical. Ao avistar Olegário lembrei-me de Otávio Lamartine e de Hemingway, que se mataram numa idade já bem avançada: teriam eles chegado ao ponto final do duelo que mantiveram com a morte durante toda a vida? Ou os meus amigos desconheciam qualquer conflito com a morte ou, ao contrário dos dois escritores, iriam duelar até o último instante.

Sther também se encontrava só quando a visitei. Os filhos estavam longe e ainda não havia tomado banho por não conseguir desabotoar o vestido. Olhando em torno observei que as almofadas estavam geometricamente em ordem sobre o sofá bem conservado, não havia sequer um gato para desarrumá-las. O piso brilhava, os lençóis das camas não revelavam dobras, sinal de que ninguém ali se deitava há bastante tempo. A casa da minha amiga estava em ordem.

Ouvindo Ana e Vicente tagarelando, cortando papel, sujando a sala, pisando com os pés sujos as cadeiras da avó, pedindo comida a todo instante, chamando palavrões, beliscando os meninos da vizinhança, me dei conta de que consumimos toda a nossa juventude, toda a nossa energia criativa desejando que os filhos cresçam para que, enfim, possamos ficar sozinhos e em paz. E um dia a solidão e a paz batem a nossa porta, chegam sem avisar. E aí, de tanto querer e pedir silêncio, de tanto reprimir o riso e a alegria da juventude, de tanto condenar a volúpia da vida, de tanto ir à igreja rezar pela paz e a ordem, eis que o silêncio mais nocivo entrou em nossa casa, que agora está fechada, em paz, em sossego, em ordem com o tédio mortal.

Ana Barros

               

terça-feira, 15 de maio de 2012

Amor fati


Ela criou calos – a alma
Aqui... passa bem os olhos... Sente a depressão rasgada
Não lembro qual foi o tempo em que afaguei sem tombar
em algo feio feito um calo
Tentei até suavizar usando os óleos
que encontrei na catedral:
mas a carne santa não tem calos...
Como cauterizar o que insiste em ser duro?
E a pele estirou
à seiva de pedra

Ana Barros

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O terceiro ato


A última vez em que a pedra atingiu o alvo eu não morri
Apanhei a pedra e arremessei de volta com o cinismo dos mortos
Você rangeu os dentes ao ver que o escudo
feito por mim havia se rompido e a pedra além de ferir
retornou perfurante – não por vingança – pois esqueci
de agir e os fios partidos abriram à doçura gasta
“A vez é sua” eu disse deixando o palco
Sem olhar você vestiu as máscaras e os papéis
dos meus antepassados dos meus antepassados dos meus
(ante) passados... Começava
o terceiro ato

Ana Barros

domingo, 22 de abril de 2012

A estética do feio (II)


Saí de casa sem nenhuma pretensão à felicidade. Saí por pura vontade de mundo, nada mais. Nem tédio nem alegria, apenas o contentamento por achar-me entre estranhos e saber que as possibilidades de me desencontrar eram enormes e nada fazer para ser diferente. 

Pisava João Pessoa pela primeira vez. E, ao chegar naquela cidade calma, limpa, organizada e sem o comércio caótico de ambulantes no Calçadão da linda praia de Tambaú, tive a sensação de que ali encontrava “a promessa da felicidade”, que eu havia desprezado na turba de Ponta Negra, mas ressurgida naquele paraíso onde os homens pareciam ainda mamar nas tetas da Mãe-Terra.

Logo deslumbrei com a aparência de paz e equilíbrio surgida das ruas e casarões conservados como se os seus donos doutrinassem do além regras e costumes, ainda tão vivos entre povo e cultura.

À noite, como em todas as excursões, os grupos se dividem por afinidade e ganham os espaços oferecidos pelo pacote turístico ou então se aventuram a conhecer os recantos mais exóticos e excluídos do roteiro fechado entre agência e guia. Mas em J.P., como repetia o guia tagarela, só havia três opções de lazer: a Orla de Tambaú, o Shopping Manaíra ou ficar em casa. O meu grupo escolheu passear no Calçadão de Tambaú. E a surpresa foi enorme ao me deparar com uma realidade completamente oposta a que vivenciara em Ponta Negra. Encontrei pessoas felizes passeando como se estivessem numa pracinha do interior. E não são doidinhas nem playboys que invadem o Calçadão, não. São pessoas simples, comuns do dia a dia de uma cidade de porte médio como J.P. São moradores acostumados a passear, sim, passear como antigamente, sentar nas beiradas das calçadas, namorar, entabular uma conversa com o compadre ou a comadre, chupar roletes de cana, sim, em J.P. vende-se roletes de cana, enormes tapiocas recheadas de coco, carne e queijo acompanhadas com enormes canecas de café servido em bules de alumínio. É um momento de encontro, diversão e gastronomia caseira, daquelas de sentar no mercado e comer com muito gosto, sem a preocupação com a fria e falsa etiqueta de shopping center.

Depois de andar para cima e para baixo, de me acomodar entre dezenas de pessoenses famintos e alegres e de comer a minha tapioca com coco e tomar a caneca de café preto, voltei ao Calçadão na esperança de encontrar algo comum em outras capitais: a pulsão urbana, a vida noturna que escorre nos becos, a contradição escondida à luz do dia dos normais. Mas quê! Nenhum sinal do diferente, nenhum mendigo, nenhum noiado, nenhum ladrão; nenhuma prostituta, nenhum veado, nenhuma garota de programa, nenhum punk ou tribo de preto, nenhum camelô vendendo qualquer tipo de mercadoria. De repente parei de andar e sentei-me com os demais na beira da calçada e me espantei com a tranqüilidade que tomou conta de mim diante daquela ausência de movimento e decibéis acima do suportável no interior de carrões importados, de crianças e marmanjos insistindo por uma esmola ou pela aquisição de alguma quinquilharia. Porém... não o estalo do belo sentido no caos de Ponta Negra: “como, será possível que em tão pouco tempo eu tenha esquecido o outro lado da vida pulsante, das forças antagônicas encarnadas naquele domingo em Ponta Negra?” Foi então que me dei conta de que os valores, moralmente fortalecidos e adormecidos na cultura do em torno, ainda sombreavam o meu poder analítico tanto quanto a opressão simbólica dos casarões sobre os costumes de J.P., a qual, tanto no nome quanto na bandeira do Estado da Paraíba, com seu slogan Nego (afirmação do próprio João Pessoa na querela da política café com leite) banhado de vermelho, sangue de João Pessoa, e do preto, luto por João Pessoa (governador da Paraíba assassinado em 1930), carrega o peso da vaidade de um único homem e da exclusão da maioria, justificada pela História oficial.

Retornei a Natal três dias depois cheia da ingênua alegria romântica de paraíso reencontrado e logo quis compartilhar com meu filho a surpresa de encontrar um lugar tão natural e ainda limpo da civilização globalizada. Qual foi o meu desapontamento ao ouvi-lo dizer enfático: “Mãe, João Pessoa é uma cidade macho; povo e elite!” Foi aí que a minha ignorância sócio-antropológica foi ao chão. Foi aí que enxerguei o porquê de “limpeza” da cidade; de seus prédios sem as pichações e sem os graffitis tão característicos dos centros urbanos da atualidade; do secretário estadual de cultura Chico César declarar à imprensa que o governo não iria financiar duplas sertanejas nos festejos juninos; da ausência dos “malucos”, dos travestis, dos drogados, das garotas e dos garotos de programas, dos vendedores ambulantes, dos moradores de rua, enfim, de tudo aquilo que, no meu tédio moribundo-pequeno-burguês, havia odiado em Ponta Negra.
Percebi que em J.P. havia, voluntária ou não, uma contenção, um controle das pulsões de homens e mulheres. E como na existência nada acontece sem o seu oposto, sem a sua negação, imaginei a sede de liberdade e de contradição enclausurada, escondida, dissimulada em alguma parte da cidade. Possivelmente há indivíduos atuantes na periferia do núcleo cultural que, independentemente do poder cristalizado, transcende de forma niilista ou não a morte da cultura.

A imagem perfeita para concluir este artigo não poderia ser outra senão a de Báucia e Filemo, personagens míticas do Fausto (Goethe), cuja casinha em cima de um monte era o que ainda insistia de permanente num mundo fluído e moderno. Fausto, em sua cegueira desenfreada por desenvolvimento e fuga do tédio, não suporta a visão daquele pedaço de memória e manda tocar fogo nos velhos e na casinha. Ergue-se no local mais um novo empreendimento.

Ana Barros