segunda-feira, 25 de abril de 2016



à chave fechei a porta
e ali deixei ficar
alma carne e ruína
ninguém a incomodar
senhora que destina

Ana Barros
Natal, 24 de abril de 2016.

quarta-feira, 9 de março de 2016

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Um tal de Shakespeare



Tardezinha. De repente o sol morre entre as nuvens negras e carregadas. O vento varre as ruas. Batem portas, janelas. Arrancam árvores e postes da iluminação. A noite precipita-se sobre homens, mulheres e crianças abandonados à vontade indomada do mundo. Mamãe se benze três vezes de frente para o oratório. Acende os lampiões de querosene com os quatro filhos agarrados à saia. Eu, caçula, tremo de medo. Perguntei soluçando a meu irmão mais velho se já era o começo do fim. Ele, vendo o meu espanto, aproveita para me deixar ainda mais aterrada: “claro que é. A primeira vez não foi com fogo, pois, agora é com água”, disse sem se importar com o meu coração domado nos princípios do Catecismo e do Caminho do Céu, os quais eram lembrados todas as noites antes de dormir por mamãe sentada à beira da nossa cama. Purgatório, inferno, diabos, apocalipse, ranger de dentes, palavras carregadas de certeza incontestável e do medo com o qual nossos pais nos mantinham perto deles obedientes e covardes. Mas a minha covardia teve fim quando baixou na cidade um circo cujos atores representavam as tragédias de um tal de Shakespeare. Até então eu só conhecia o filme A Paixão de Cristo, exibido na pracinha no período da Semana Santa, o qual reforçava ainda mais a minha angústia já que as imagens haviam saído dos livros sagrados, únicos na pequena estante improvisada com caixotes de maçã colhidos na feira, estavam agora ali, na tela, com som, sangue, suor, violência e todos os truques necessários à imitação do real. Em vez de ilusões e de sentenças medonhas de além mundo, os atores do circo gozavam de todos e de tudo, não poupando o padre, o rei, a polícia, os políticos, tampouco as famílias nobres, das quais copiávamos lá em casa os exemplos de conduta e castidade, pois meu pai não queria saber de filho ou filha imitando “a ralé”. Fui algumas vezes ver o espetáculo. Fui escondida de meu pai. “Moça de família não vai a circo aprender imoralidades”, dizia ele quando insistia conhecer o palco mambembe. Era ponto final. Mas quando os atores foram embora levando com eles o riso e a dúvida, deixaram em mim também o riso e a dúvida, pois foi aí que conheci um tal de Shakespeare. Paixão à primeira vista.

Ana Barros
Natal, 02 de janeiro de 2015.

sábado, 30 de janeiro de 2016

À boca miúda



Há palavras que repetimos a vida inteira e não nos damos conta de que se tornaram clichês vazios, ou seja, palavras vestidas do próprio sentido. Um dia chega em que, instintivamente, nos pegamos repetindo o jargão sem o conhecimento da origem, tampouco de que se trata, apesar do emprego estar absolutamente adequado ao discurso. Paramos aí para uma pesquisa, não ao professor Google, mas àquela pessoa que sabemos ter mais sabedoria que nós pelos anos vividos para nos dizer o que vem a ser... E numa simples conversa de neto e avó vamos encontrar deliciosas explicações para nossas frases feitas há século. Foi assim recentemente com a expressão à boca miúda para dar nome ao comportamento fofoqueiro recorrente nas rodas de conversa dos compadres ou das comadres em esquinas, calçadas, bares, ou mesmo na missa de domingo. Como uma palavra traz outra, ou outras, em sua origem, a vó tenta responder ao neto curioso o que vem a ser à boca miúda com uma imagem concreta que desse peso e autenticidade ao conceito por demais batido e repetido: “Lembra do fuxico de vó Marica? Pois bem, falar à boca miúda é o mesmo que fuxicar.” A vó foi ao quarto de despejo, abriu a maleta de tábuas amarelas, herança de vó Marica, e mostrou ao neto um pano composto de círculos de vários tecidos lisos e com estampas coloridos chuleados na borda e emendados um no outro. “Não entendi, vó”, disse o menino ainda mais confuso. “É simples, meu bem”, ela disse carinhosamente. “Veja o formato desse fuxico” – mostra-lhe o detalhe de um, verde-limão –, “ele não está franzido como se fosse uma boca encolhida? Então, isso é a representação artística de à boca miúda, ou seja, o corpo do fuxico que saiu da cabeça do fuxiqueiro.” “Ah, vó, agora é que não entendi mesmo...” A mulher, cheia da astúcia das avós maluquinhas, sem dar tempo ao menino de se defender, aproximou o máximo a boca feito bico, aliás, feito fuxico, e cochichou chuviscando cuspe no rosto do neto: “Vou dizer à tia Zefinha quem comeu o bolo de leite...” O menino arregalou os olhos e gritou: “Isso é fuxico, vó”.

Ana Barros         

Natal, 24 de janeiro de 2016.





A dança das agulhas



O vídeo da TV Brasil http://tvbrasil.ebc.com.br/…/uso-da-internet-e-cada-vez-mai… mostra uma das facetas contemporâneas mais analisadas por críticos da mudança de costumes nas relações humanas depois das novas mídias sociais. O destaque é para os idosos que se identificam cada vez mais com o computador e menos com os grupos de amigos formados há anos na comunidade. A reportagem fala desse perfil de idoso como regra. No entanto, principalmente no interior do Nordeste onde a cultura da oralidade e da vizinhança permanece ativa, o contato humano, sem interferência da tela e longe da solidão, permanece ativo e rico. Cooperativas de artesanato, turismo, esportes, lazer, eventos festivos e de qualidade de vida, sem esquecer as limitações de acesso e de políticas públicas ainda em curso, são itens na agenda de muitos velhos no Brasil. É um movimento dinâmico e com possibilidades de mudança à medida que novos idosos vão ocupar um espaço cada vez mais atual, não só em relação à tecnologia, mas em função do nível cultural e político da população envelhecida. Hoje há que se observar que as gerações de idosos expostas em espaços públicos remetem-se a épocas do patriarcado, da repressão sexual, machista e, mais do que em todos os tempos, de inferiorização da mulher e do idoso. Muitos destes ainda buscam a rua como adolescentes que foram castrados de dar vazão aos impulsos próprios da idade. A dança, os jogos, o namoro e os passeios entre eles, vividos com a intensidade juvenil desbloqueada pela moral que se rasgou de tão imprestável no corpo que joga fora os princípios de culpa e pecado, jamais serão substituídos por informações e imagens frias de um computador. Receio, sim, que a minha geração, daqui a pouco velha, seja ela propícia a essa clausura virtual, pois, infinitamente mais livre, racional, culta e independente que avós e mães, se não tiver construído o tempo e o espaço para o contato com pessoas, longe do mundo da técnica e dos negócios, sobrará a ela certamente a cadeira de frente ao monitor, no qual vê tudo sem nada tocar. Talvez tenhamos que aprender com nossas mães, e demais idosos, a arte de fazer crochê com os moldes passados de mão em mão, a arte da conversa na rua, a arte da dança e do riso mais do que a arte do isolamento, que pode ser boa, e é, para criar, aprimorar conhecimentos, desenvolver habilidades, sarar mau humor, jamais para ser um com os outros.

Ana Barros
Natal, 12 de janeiro de 2016.