domingo, 4 de janeiro de 2026

O último fôlego de mamãe


Mamãe morreu hoje. Quatro da tarde de 20 de agosto de 2025Em seu apartamento, em Natal. Eu relaxava depois de perambular farmácias em busca de fraldas geriátricas e antidepressivos para controlar demência dela quando Rita gritou, “Ana, mamãe morreu!” Encontrei-a mole feito um mingau sob pressão das mãos da cuidadora, que chorava e tentava reanimá-la com massagens no peito. Mas mamãe já estava morta... de boca aberta a segurar o último fôlegoeste, agarrado pelfrieza que, rapidamente, endurece carnes e esvazia o espírito. Chorei sobre ela igual filha desamparada que fui quando me vi ameaçada de sua fuga por ciúmes de meu pai. Dali em diante não haveria nada mais que atasse ao velho tronco a mulher de 65 anos que hoje sou. Estaria eu, pois, completamente liberta dlaço ancestral de sangue e culpa, se assim quisesse. Chorei à orfandade do fim. Chorei a morte de todaas estratégias que havia repetido em seis anos de luta contra o não-ser de mamãe. Tentei unir seus lábios... mas aquela imagem parada no tempo não cedeu à vontade de fechar a boca de minha mãe. Resolvi passar então uma faixa sob seu queixo e amarrar no alto da cabeça, forçava assim as mandíbulas se unirem. Nada! a boca de mamãe permaneceu no gesto de rebeldia de quem havia esgotado todas as possibilidades a ela oferecidas e vividas com paixão em seu tempo. Esgotava no ato de findar as possibilidades que experimentara até mesmo nos delírios da demência, quando acreditou fazer suas atividades cotidianas como cortar carnes imaginárias e costurar o próprio lençol com um palito de dentes pensando ser uma agulha. Jamais uma fadiga, um cansaço, um lamentoConsiderava-se plena, realizada na terra. Por assim se ver não se achava superior nem inferior a ninguém, era tão somente ela, senhora de si. Cometa que atravessa o céu em menos de um segundo grávido de vidas profundas, assim foi a sua existência febril, não no sentido fugaz, ou vulgar do termo, ou ainda se perdendo e se reencontrando em acontecimentos paradoxais, como fazem os mortais inseguros como eu. Mamãe seguiu reto, em direção e intensidade aumentada, ao alvo que sempre soube ser o dela. Seguiu a intuição dos que são para o que nascemjamais abandonando certeza convicta das mulheres fortes, na qual permaneceu até àquela tarde em que, depois de banhar-se, almoçar e rezar o terço duas vezessem agonizar, puxou o ar e não mais soltou. Segurou o fôlego, o últimono eterno intervalo que separa nascimento e morte... 

 

Ana Barros                     

Natal, 14 de dezembro de 2025. 

  

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Vagalumes e vitrais





 

No museu da cidadezinha de Arês, escondida entre o mar de Tibau e a Lagoa de Guaraíras, Rio Grande do Norte, me deparei com coleções de garrafas separadas por tamanho, volume e cor. Garrafas cujas cores encheram os meus olhos da alegria infantil encontrada no contato com os materiais mais simples e precários, como são os vidros coloridos à luz do interior de uma igreja. Sim, o museu de Arês é na igreja de estilo barroco São João Batista. Pois bem, por este detalhe, escolher um lugar sagrado para acomodar resíduos profanos, aumentou em mim a sensação de completude, de aniquilamento de culpa. Da infância trazemos a memória de ordem, de disciplina, de cuidado e disposição dos objetos sobre o mundo a impor um ideal de permanência. Ideal este conquistado nem que seja da contemplação de um caco de vidro azul: do vinho do padre? da cachaça do sacristão? do licor da beata? do azeite do bispo glutão? Existir para o colecionador de Arês, tão disciplinado em guardar e arrumar garrafas e garrafinhas secas, possivelmente não consumidas por ele, tinha a ver mais com volumes, espaço, tempo e cor. Uma escolha estética em meio ao cotidiano medíocre das obrigações. Sabido é que de dentro dos frascos escorreram líquidos maravilhosamente iguais à beleza das garrafas. Deleite sensual para aquele, ou aquela, que enganou o tédio com vagalumes e vitrais.

Ana Barros

Natal, 18 de setembro de 2019.

 



domingo, 26 de janeiro de 2025

 Memória de flor 

 

Nasci flor 

Cheiro e escuta 

do útero de minha Mãe: 

- Ô de casa!... 

Foram-se todos 

Antes, porém, comeram a placenta  

e enterraram as cinzas do menino  

deixando para trás com o sal da urina velha 

o penico de ágata branco, o bule azul furado com o pé de mirra, 

Os cacos da panela de barro, o jirau com as  

touceiras de doze horas e o retrato boiando no lodo 

Os olhos vazios de tempo dançam nas horas... 

não veem o oratório ser comido pela broca nem 

o sino repicar missa dos mortos 

Esquecidos, os objetos adubam raízes 

memória de flor 

 

Ana Barros