Mamãe morreu hoje. Quatro da tarde de 20 de agosto de 2025. Em seu apartamento, em Natal. Eu relaxava depois de perambular farmácias em busca de fraldas geriátricas e antidepressivos para controlar a demência dela quando Rita gritou, “Ana, mamãe morreu!” Encontrei-a mole feito um mingau sob a pressão das mãos da cuidadora, que chorava e tentava reanimá-la com massagens no peito. Mas mamãe já estava morta... de boca aberta a segurar o último fôlego, este, agarrado pela frieza que, rapidamente, endurece carnes e esvazia o espírito. Chorei sobre ela igual a filha desamparada que fui quando me vi ameaçada de sua fuga por ciúmes de meu pai. Dali em diante não haveria nada mais que atasse ao velho tronco a mulher de 65 anos que hoje sou. Estaria eu, pois, completamente liberta do laço ancestral de sangue e culpa, se assim quisesse. Chorei à orfandade do fim. Chorei a morte de todas as estratégias que havia repetido em seis anos de luta contra o não-ser de mamãe. Tentei unir seus lábios... mas aquela imagem parada no tempo não cedeu à vontade de fechar a boca de minha mãe. Resolvi passar então uma faixa sob seu queixo e amarrar no alto da cabeça, forçava assim as mandíbulas se unirem. Nada! a boca de mamãe permaneceu no gesto de rebeldia de quem havia esgotado todas as possibilidades a ela oferecidas e vividas com paixão em seu tempo. Esgotava no ato de findar as possibilidades que experimentara até mesmo nos delírios da demência, quando acreditou fazer suas atividades cotidianas como cortar carnes imaginárias e costurar o próprio lençol com um palito de dentes pensando ser uma agulha. Jamais uma fadiga, um cansaço, um lamento. Considerava-se plena, realizada na terra. Por assim se ver não se achava superior nem inferior a ninguém, era tão somente ela, senhora de si. Cometa que atravessa o céu em menos de um segundo grávido de vidas profundas, assim foi a sua existência febril, não no sentido fugaz, ou vulgar do termo, ou ainda se perdendo e se reencontrando em acontecimentos paradoxais, como fazem os mortais inseguros como eu. Mamãe seguiu reto, em direção e intensidade aumentada, ao alvo que sempre soube ser o dela. Seguiu a intuição dos que são para o que nascem, jamais abandonando a certeza convicta das mulheres fortes, na qual permaneceu até àquela tarde em que, depois de banhar-se, almoçar e rezar o terço duas vezes, sem agonizar, puxou o ar e não mais soltou. Segurou o fôlego, o último, no eterno intervalo que separa nascimento e morte...
Ana Barros
Natal, 14 de dezembro de 2025.