terça-feira, 30 de setembro de 2014

S E T A



Eu não tenho a astúcia de Ulisses

Nem os encantos de Circe

Também não tenho a alma que liga em cima

Nem a garra que prende embaixo:

amarro o tronco à raiz

E se o meu calcanhar em apuro

rasga o osso frágil de Aquiles - ainda assim –

atravesso o muro




Ana Barros
Natal, 05 de setembro de 2014.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

CRIANÇA QUE BRINCA: ADULTO FELIZ



É quase regra ouvir aonde vamos, ou estamos, que não há felicidade no homem. Colaborando com isso, grande parte da literatura, da filosofia, e todas as religiões, estão permeadas de melancolia e pessimismo. Parece até que, sem tristeza, não se pode ter arte, tão pouco vida. Uma das querelas mais apaixonantes e significativas da modernidade é a relação crítica entre o pensamento afirmativo de Nietzsche e o pessimista de Shopenhauer e Wagner, os quais, apesar da admiração profunda do primeiro, não conseguem sentir o mundo sem o fantasma da metafísica. E foi rompendo radicalmente com o ideal, que o filósofo de "humano, demasiado humano" nos leva ao contentamento na afirmação do existente com toda a sua complexidade e dor. Mas o que tem a ver este assunto com o título do texto? Tudo.

Pois bem, foi com a necessidade “nietzschiana” de alegria que aproveitei a rubéola do meu neto Heitor para tirá-lo da cama, do hábito de assistir televisão quando não está na escola e falar da importância da brincadeira como motivadora da felicidade que aniquila o desgosto com o devir. Heitor tem sete anos e Bento, seu irmão, dois. Bento morde e belisca Heitor, que não pode se defender por ser mais velho. Então eu disse, “fora do quarto, os dois, vamos brincar, na sala”.

E quanta bagunça de bolas misturadas a carros, guitarra luminosa, velocípede, vozes, gritos, riso e choro. Bento ensaia encrencas. Heitor ensaia chutes. D. Rosa, a outra avó, mexe as panelas do jantar e tem de segurar o liquidificador que quase caiu de uma bolada de Heitor. Do meu lado contorno os conflitos e ensaio, também. Bento agarra minhas pernas e Heitor deita no meu colo... Aí é hora de contar um conto: “Meninos, vocês sabiam que criança que brinca é adulto feliz?” “É?” surpreendeu-se Heitor. “Sim!” afirmei falando da minha experiência de menina solitária que teve como brinquedo as bonecas de pano, que até hoje faço, o espanador de sisal, cujas fibras trançava e transformava em boneca, os pés de milho com seus brotos dourados, ou ainda as vassouras de palha que, na imaginação fértil de criança, tinha-as como comadres e vizinhas de bate-papo. 

Aliás, conversar com as vassouras magras e os pés de mamão macho, aqueles com frutos pendurados, pois achava-os idênticos a mulher e não a homem, livraram-me não da loucura mas de casar com o primeiro que apareceu com a primeira menstruação e reforçaram desde cedo o meu contentamento com a vida. “Bem meninos, agora é hora de guardar os brinquedos, jantar e dormir. Amanhã volto aqui de novo, certo”? Bento aplaudiu e me deu dois beijos. Heitor, de cueca, pintado de rubéola e pasta d’água disse com um sorriso feliz, “venha mesmo, vó”.

Ana Barros
Natal, 11 de setembro de 2014.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

CRUA



A hora é breve se
ao outro
o outro
A mim
eu mesma
O peso é dobra
se a carne leve

Ana Barros
Natal, 20 de agosto de 2014.