quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A MORTE FELIZ


Para quem leu O estrangeiro, Camus pode parecer um escritor estranho com seu personagem avesso às convenções e ao comum da cultura humana. Mata por motivo fútil, não sofre à morte da mãe e não ama Maria, apesar da sensualidade e de tudo girar em torno das sensações do corpo. Na frieza e no absurdo da história nos identificamos e somos levados a fazer uma leitura transfigurada do pequeno romance. Camus, em sua estranheza, nos força a agir na lucidez, mesmo quando a consciência fica clara na solidão mais atroz, aquela que antecede a morte.

A morte feliz, romance póstumo, talvez um esboço de O estrangeiro, uma vez que os originais são anteriores à publicação deste, entre 1936 e1938, tem o personagem central com o mesmo nome, Mersault, e trata do mesmo tema, a revolta do homem diante do absurdo existencial, do qual não tem saída a não ser por meio do suicídio (O mito de sísifo, do mesmo autor), ou aniquilando a revolta no fogo da paixão clarividente da existência. “A conquista da autenticidade por um movimento na solidão e na natureza” justifica A morte feliz.

Ao contrário de Fausto (Goethe), protótipo do homem moderno, ativo e hedonista, o herói ocioso de Camus defende a inação sem contudo abandonar a entrega erótico-sensual de seus dias à natureza luminosa do sol, do mar e dos corpos femininos sem jamais se entediar nem sair à cata de paraísos artificiais. As mulheres, a amizade com elas, o sexo, o sol e o mar, símbolos da sensualidade, são presença marcante nos textos de Camus, sem com isso haver qualquer entrega nas relações cotidianas e comuns dos casais. Tanto em O estrangeiro quanto na Morte feliz, Camus procura despersonalizar o máximo para poder mergulhar na pureza e concretude da natureza e aí, na solidão e comunhão de iguais, ser feliz. “Até aqui, vivera. Agora, podia-se falar de sua vida. Desse grande e devastador arrebatamento que o levara para a frente, da poesia fugaz e criadora da vida, nada mais restava agora senão a verdade sem rugas que é o contrário da poesia.”

Grande leitor de Kafka e Dostoievski, Camus aborda o niilismo de seu personagem por um viés completamente amoral, humano em todos os sentidos, fugindo assim da perturbação judaico-cristã que tanto atormentou os dois escritores e tantos outros artistas que jamais conseguiram libertar a imaginação dos fantasmas religiosos. Camus rompe radicalmente com a metafísica, seja ela oriunda de religiões, da ciência ou mesmo da filosofia. O homem de Camus deixa o romantismo e a tragédia de lado para se assumir com toda a carga que o mundo comporta. Revolta-se, perde-se, agoniza em meio ao absurdo que é saber-se mortal e que nada tem sentido no universo. Mas esse mesmo homem, alerta e lúcido de toda a sua tragédia, se faz soberano de si mesmo e justifica-se no tempo finito como um Dom Quixote pleno de suas faculdades mentais, não devorando noite adentro romances de cavalaria, porém, virando as páginas destes num desprezo claro de quem alcançou a verdade. “Não se nasce forte, fraco ou com força de vontade. As pessoas tornam-se fortes, tornam-se lúcidas. O destino não está no homem, e sim à sua volta”, pensa Mersault perto de morrer.

ASSASSINATO JUSTIFICADO

Ao ler A morte feliz, possuídos da moral que nos impede de matar o outro, tendemos a ficar chocados com a frieza com que Camus leva seu herói assassinar um homem para poder ganhar a sua liberdade, pois que o outro tinha o que ele precisava, dinheiro. Patrice Mersault é um funcionário medíocre que trabalha oito horas diárias e não consegue tempo livre nem dinheiro para viver com prazer. Conhece o ex-amante de Marthe, sua atual namorada, Roland Zagreus, deficiente de cadeira de rodas, rico, culto e educado, que passa a gostar de Patrice e com este mantém diálogos reflexivos que estimulam Mersaut a matá-lo e roubar a fortuna guardada pelo inválido.

As semelhanças com Crime e castigo são bastante visíveis no sentido niilista dos personagens principais em matar por considerar o outro desnecessário ao mundo, a velha de Crime e castigo por ser desprezível em sua usura e o outro, Zagreus, por ser metade homem, não tem as pernas, e não dispor do tempo e do dinheiro com a liberdade plena de existir, desejada por Mersaut, jovem, atlético, viril e consciente das limitações existenciais para as quais toda a moral perdera o sentido.

Longe das angústias e da culpa que atormentam o antes racional e autossuficiente Raskólnikov, Patrice é lúcido e “inocente” de qualquer traço de arrependimento. Mesmo quando ensaia uma confissão ao amigo Bernard, “Não porque o segredo lhe pesasse. Não havia segredo nisso. Se até então se calara, era na medida em que, em certos meios, guardam-se os pensamentos, por saber que se chocariam com os preconceitos e a estupidez”.

Camus trata a lucidez com tanta veemência que, para nos convencer do real poder humano em sua finita existência, utiliza-se do assassinato como símbolo para nos fazer refletir sobre a inutilidade da moral quando tudo é permitido entre os homens, até mesmo matar o outro. Se Ivan Karamazov duvida: “Se Deus não existe, tudo é possível”, Mersault não expressa nenhuma dúvida, sabe que é mortal e também o que quer do único mundo que conhece. E o que ele quer do mundo é real, táctil, natureza e não ideia.

Patrice Mersault poderia ser um boêmio, ou o dândi tão cobiçado por poetas da França do século dezenove, mas ele é lúcido demais para ser um decadente. Enquanto o herói russo encontra redenção no sofrimento e na expiação da culpa, Mersault considera todos os atos humanos inocentes, uma vez que não há nada além do corpo que quer e da lucidez que se entrega. “Se sou feliz, é graças à minha má consciência. Senti necessidade de partir e de conquistar esta solidão na qual pude confrontar dentro de mim tudo o que havia para ser confrontado, o que era sol e o que eram lágrima... Sim, sou humanamente feliz.” Aqui a ênfase nitzscheana do amor fati, da conquista da autenticidade de um homem-deus. A morte vai encontrá-lo com o mesmo olhar e com o mesmo desejo. “E, pedra entre pedras, ele retornou, na alegria de seu coração, à verdade dos mundos imóveis.”

Ana Barros

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A passageira

A sensação de que o ônibus ia abrir em bandas e jogar os passageiros no meio da rua fazia com que os mais prudentes se protegessem de um possível acidente agarrando-se ao corrimão ensebado. Fora a preocupação com a autodefesa, mais instintiva que racional, ninguém parecia dar importância à falta de conforto do veículo, nem tampouco prestava atenção à paisagem que margeava o caminho por mais de dez quilômetros, cujos coqueiros, manguezais e o grande rio de água suja e luminosa imprimiam uma atmosfera poética à paisagem matinal. Alguns, vencidos pelo cansaço já àquela hora do dia, adormeciam e só acordavam no ponto final quando o motorista empurrava o pé no freio fazendo com que os dorminhocos saltassem do assento assustados e saíssem gritando gracinhas para o condutor bem-humorado. No entanto, a maioria dos passageiros fazia o percurso em pé agarrados aos ferros e com os semblantes vagos. O olhar baço perdia-se entre carros e edifícios numa espécie de torpor voltando a si apenas quando alguém puxava a cigarra ou dava um empurrão para abrir passagem. 

Eu e Augusta fazíamos parte daquela massa amolecida no tédio e no cansaço. Foram raras as vezes em que tive o privilégio de viajar acomodado numa daquelas poltronas velhas e impregnadas de suor acumulado durante dias, meses, anos, e que exalavam um odor nauseabundo. Augusta não abria mão de um bom lugar e viajou sentada todos os dias até se aposentar. Porém esse pequeno conforto tinha um preço: levantar duas horas antes para dar tempo de preparar o café, arrumar a marmita, tomar banho e sair pontualmente à hora cujo ônibus, sabia, tinha uma cadeira a sua espera. E aquela cadeira, há muito, passara a ser dela. Acho até que ambos, ônibus e passageira, haveriam de se aposentar no mesmo dia, pois aquele transporte não tinha menos de 30 anos, tempo igual ao que Augusta contava de percurso diário entre a sua casa e o trabalho. Já nos primeiros dias de passageira fizera questão da poltrona do lado da janela e na parte central do veículo de onde podia descer sem correr o risco de ser esmagada. Outro motivo para a escolha da cadeira era o nojo que sentia dos companheiros de viagem. Não era nojo pela falta de asseio àquela hora do dia, que os deixava com as axilas encardidas e mal cheirosas bem próximas do nariz de Augusta, mas nojo da ousadia e amoralidade de alguns daqueles marmanjos jovens e corpulentos. “Que vergonha sentiria se tivesse de viajar em pé”, me disse um dia em confidência, “espremida entre eles, com aquele linguajar porco e propositadamente amontoados no final do ônibus fingindo superlotação só pra se esfregarem nas mulheres.” Desprezava-os sob a virtude cristalizada. Na sua raiva contida jamais suspeitou que entre os depravados, como denominava os passageiros, pudesse estar alguém que a desejava, que a observava com carinho, que esperava um dia declarar todo o seu amor. Esse alguém era eu, repórter do JO, escolhido pela Redação para fazer uma reportagem sobre o ônibus da linha Z. Augusta foi a única entre os passageiros que não quis falar nem ser fotografada. Percebi na recusa, sendo isso mais tarde o motivo da minha paixão, instinto de superioridade e completa indiferença pelo meu trabalho, cujas informações seriam lidas em algumas horas por dezenas, centenas de pessoas instruídas e cultas, menos por Augusta, pois não dava a menor importância nem aos fatos acontecidos ao seu redor, nem tampouco aos divulgados no jornal. Feito uma alma penada a segui todos os dias sem jamais revelar a minha admiração por ela. Não que eu não quisesse, mas pela minha completa invisibilidade diante dela. Essa apatia, na qual fermentava o ódio pelos passageiros, entre os quais passei a fazer parte, escondia um motivo razoável.

Augusta tinha 12 anos e o primo, de 15, desceu sua calcinha... O irmão mais velho flagrou os dois e fez com que o pai desse uma surra de tira de couro cru em Augusta. O primo, além de deixá-la para trás sob humilhações e pancadas, contou o ocorrido para os garotos da rua, vindo a menina ser agredida com pedradas pela molecada desapontada com as negativas de suas investidas. Apesar do ódio reprimido e aumentado mais ainda com a presença dos passageiros, Augusta dava provas de grande afinidade pelo transporte velho, superlotado e mal-cheiroso. Via-se isso na escolha que fazia daquele ônibus como se só ele funcionasse. Era possível perceber em sua fisionomia relaxada na poltrona puída traços do prazer que sentia entre os passageiros desprezíveis. Seria o cheiro dormido daqueles homens, misturado ao fedor de peixe estragado e de perfume ordinário àquela hora do dia, uma mistura sensual capaz de fazer Augusta, em sua completa indiferença, amar e odiar ao mesmo tempo os companheiros de viagem? Voltarei a essa hipótese mais adiante.

Abrirei um parêntese para falar do jeito de ser um tanto irracional de Augusta, cujo aprendizado pela audição e olfato devia ao pai, educado na astúcia dos sentidos, tendo por mestres os bichos não domesticados como a cobra, o gato-do-mato, a raposa entre tantos outros. Num meio onde se falava pouco, apesar das constantes confusões entre as pessoas de casa, a acuidade dos sentidos gritava antes de qualquer palavra ou raciocínio. Porém, nem sempre o que era sentido, percebido, ouvido, correspondia à verdade mas tão somente a uma percepção carregada de moralismo e juízo de valor, no entanto, necessária na hora de dizer quem tinha poder. “Aquele ali não presta. Não quero você com ele, está me ouvindo?”, gritava o pai cheio de convicções e de punhos serrados ao saber do interesse de Augusta por algum garoto da rua. A rigidez paterna, cristalizada na convivência com os animais mais do que nas relações com os homens, teve efeito disciplinar feroz na vida da filha, vindo esta a sofrer mais tarde sob os excessos de imaginação do pai: “Por quê?”, perguntava angustiada ao mesmo tempo em que agradecia à herança instintiva capaz de afastá-la, pelo cheiro ou pelo som, dos homens que se amontoavam na porta traseira do ônibus. Havia, entretanto, uma grande contradição no íntimo de Augusta, pois, ao mesmo tempo que desejava não encontrar nunca mais os passageiros, ao entrar no transporte e sentar em sua cadeira com os sentidos bem aguçados, entregava-se ao devaneio daquelas viagens curtas e mecânicas, porém cheias de fantasias nas quais podia afogar um passado velho e desmemoriado. Um desses devaneios, por sinal coletivo e que nos distraía deveras, era a ladeira do gozo, cujo declive e imediata elevação causava gritinhos na mulherada e hurras debochados nos homens. Todos nós, inclusive Augusta, esperávamos com o coração suspenso a já conhecida sensação, efêmera como um piscar de olho, que percorria nossas partes baixas quando o motorista divertidamente tirava o pé do freio e deixava o carro cair ladeira abaixo. Augusta acompanhava os hurras masculinos de olhos baixos e vermelha de vergonha, expressão que denunciava, naquele momento de algazarra e erotismo, a mesma cócega que sentira ao entregar-se, lá atrás, às carícias do primo. O silêncio que se fazia depois da brincadeira devolvia-lhe à normalidade e, sem olhar para os lados, sabia exatamente onde estava: faltavam apenas três minutos para todos saírem desabalados, evadindo-se por caminhos e lugares nunca conhecidos. Desapareceriam da mesma forma que surgiram no ponto do ônibus: sozinhos e anônimos. Aliás, só vim conhecer Augusta de verdade trinta anos depois, na fila da Previdência Social, no momento em que dava entrada nos papéis da aposentadoria e eu, que a segui todos os dias à espera do momento, vi enfim chegar a hora. Fiquei a um passo na esperança que viesse precisar dos meus favores, fato que logo se concretizou ao receber da mão que estendia pela abertura do guichê os formulários para preencher e não ter uma caneta. Corri e ofereci a minha Bic azul. “Obrigada”, disse sem me olhar. Enquanto assinava, falava compulsivamente e sem mostrar qualquer interesse por mim. Tal comportamento me fez vê-la naquele momento igual a tantas outras mulheres quando, abaladas por um motivo qualquer de grande alegria ou de profunda infelicidade, escancaram sem reservas suas dores a qualquer um que encontram logo depois do acontecido, cuja perturbação parece destruir a razão se não jogarem fora um mundo corrompido de fatos, personagens e dor. Hoje tenho dúvidas se realmente eu era um estranho para Augusta ou se ela, na sua sensibilidade cega, não me teve secretamente como um daqueles passageiros intuitivamente odiados e amados, sem ela saber, por um cheiro perturbador. Na verdade, por viajarmos colados uns nos outros no ônibus lotado, por mais que me lavasse e usasse um bom perfume, estava sempre cheirando a eles, o cheiro primitivo ativado naquele cérebro aberto. O fato é que, ou pelo meu cheiro, ou pela pequena gentileza em oferecer-lhe a caneta, ela me dedicou inteira confiança e me abriu o seu coração virgem. A necessidade de falar era de tal forma intensa que parecia ter acabado de sair de uma prisão onde amargara anos de solidão e abandono. De uma prisão na qual, não obstante a promiscuidade dos corpos tocando uns nos outros, jamais interessara saber quem era quem. Justamente ela, que evitava diálogos com quem quer que fosse, falou como se fôssemos velhos amigos. Comigo, igualmente anônimo e malicioso, pois também não fazia parte do grupo de passageiros vulgares e libidinosos? Estava feliz. Finalmente assinava os papéis da aposentadoria e dava adeus ao trabalho e ao ônibus velho com seus passageiros igualmente velhos e cínicos. Velhos e cínicos porque eram poucos os que, por vários motivos, haviam deixado o transporte ao longo das três décadas. Os que permaneceram deixaram-se levar pela rotina indiferente do ônibus. Não que continuassem aglomerados na porta de saída esfregando-se nas mulheres, outros mais jovens os substituíram na ousadia, mas passaram a contar ali, naquele espaço coletivo, único em suas vidas diminuídas ao longo dos anos entre a casa e o trabalho, histórias picantes e fúteis de homens nos quais juventude e velhice se fundem numa espécie de infância depravada. Augusta trazia sempre o semblante carregado diante das lorotas dos velhos bêbados e licenciosos do ônibus. Naquele dia, na fila da Previdência, ela, uma velha também, porém sisuda e casta, estava feliz e excitada. Falava sem me dar tempo de perguntar ou responder. Tinha os olhos inquietos, muito abertos e dava a impressão de que perdia o controle sobre si, tão grande era a ansiedade demonstrada nos gestos. Falou-me do ônibus e da alegria de livrar-se da lata velha e dos passageiros mal educados. No começo, lembrou, foi difícil se acostumar com a indiferença deles. Por várias vezes quis esquecer a humilhação do primo e os ensinamentos do pai em relação à humanidade e se aproximou, até puxou conversa, mas o máximo que recebeu de volta foi um movimento de cabeça e um rápido distanciamento. De tanto aquele gesto se repetir, recolheu-se ao silêncio e ao desprezo. Passou a fingir que estava sozinha quando se encontrava no ônibus ou em qualquer outra aglomeração. Gostava de ser assim e com isso, acreditava, diminuía a mágoa. Interessei-me mais ainda pela sua história ao ficar sabendo que tinha mágoa. “De quem?”, perguntei escondendo a curiosidade apaixonada que devorava meu peito.

“Era tempo de partir”, disse de olhos vagos como se falasse sozinha, “Despedi-me de meus pais sem esconder a raiva nem a falta de afeto na mão frouxa que pedia a bênção. Abençoaram-me com um olhar de censura e um turbilhão de desaforo na garganta oprimida. Não íamos à missa, mas aplicavam em nós uma educação severa: “Filha ingrata, haverá de pagar!”, “gritou mamãe na tentativa de me fazer ficar.  Não me abalei e fugi guardando para sempre o momento estranhamente feliz do adeus entre mim e meus pais.” Dali em diante, acrescentou, lutou contra os ensinamentos incutidos sob castigos e ameaças, e o que era sagrado passou, sem quase nenhum trauma, ao esquecimento. No começo, ficou impressionada com a indiferença com que as pessoas passavam umas pelas outras sem se olharem. A nova maneira de existir a incomodava, pois de onde viera trouxera o hábito da solidariedade repetido em casa, tanto na troca de favores entre os vizinhos, como no sermão de padre Francisco que exortava os fiéis a praticarem a caridade e o amor ao próximo. Porém, os sentimentos de Augusta já não estavam tão seguros da necessidade dos gestos simples pregados pelo padre e repetidos pelos pais e os vizinhos. Na verdade, ao se misturar a pessoas tão diferentes das que conhecia, começou a negligenciar as crenças trazidas no mais fundo da alma, e, em pouco tempo, três anos talvez, já estava familiarizada à turba anônima e indiferente. Passou a viver sem testemunhas e entregou-se ao próprio destino, fosse lá como fosse esse destino. O que mais a deixava feliz e satisfeita era poder entrar e sair de casa a qualquer hora sem ser vista nem ter de dirigir a palavra a ninguém: “Viver entre pessoas apressadas e sem nome é muito bom"..., disse com ar de sonhadora e lembrando que viera de um meio de gente lenta, com tempo de sobra, verbo e nomes em excesso. Não era por acaso que tinha profunda antipatia por Dona Joaninha, beata fofoqueira sempre a observar e fazer perguntas maledicentes quando ela passava em frente a sua casa: “Bom dia Gutinha, quando é o casório?”“ Você não imagina como é bom estar desobrigada de ouvir as mesmas fofocas, as mesmas maldades; de dar e responder uns cem “bom dia...” “boa tarde...” “boa noite...” todos os dias!” O orgulhoso relato de Augusta tinha contornos evidentes da transformação pessoal pela qual havia passado e que parecia ter consciência ali, desabafando comigo. Bastava observar seus movimentos. Nela, físico e espírito, semelhavam-se à inércia e ao mutismo das lagartixas, seus animais de estimação, criaturas solitárias e silenciosas, adaptadas como ela ao caos da cidade grande. Reencontrara os répteis com grande felicidade nas frestas do muro de tijolos vermelhos e nas paredes brancas da sala: “Vieram comigo!”, assegurava, demonstrando com o comportamento esquivo compreender a estupidez e a plenitude daqueles animais frios colados na parede como a dizer: “Somos iguais.” Calou de repente e assumiu o ar de quem é tomado por uma lembrança na qual há ligação com o passado que descansa no subsolo e que surpreende, um dia, num instante de grande tensão, para desaparecer logo depois: Tinha seis anos e era hábito ficar à noite deitada na cama observando as víboras que vinham com a escuridão e ficavam ali, na parede iluminada, acima do guarda-roupa, paradinhas, a espreitar algum inseto. Uma noite após observar os estranhos animais por um bom tempo perguntou à mãe se esta sabia a diferença entre as víboras e os homens. Diante da negativa da mãe a menina respondeu com metafísica: “É que elas não pensam, por isso ficam paradas, quietinhas”. A estranha ligação com os répteis e o desdém pela oralidade confirmavam a rejeição que tinha pela inquietação dos homens, cuja revelação dera-se no diálogo precoce com a mãe e que tomaria conhecimento mais tarde naquela conversa comigo, talvez a primeira conversa de verdade em toda a sua vida. No fundo sempre soube por que desprezava D. Joaninha e as amigas beatas quando cobravam dela casamento, isto é, quando exigiam dela uma resposta. Antes da tagarelice das beatas e do excesso de cumprimentos das pessoas de sua terra, viu as lagartixas e as víboras limitarem-se a afirmar o mundo no mais profundo alheamento. Mas de repente, contradizendo o discurso metafísico no qual eram protagonistas os dois répteis, disse sentir nojo das pessoas que encontrava todos os dias a caminho do trabalho: “Conheço-lhes o cheiro e a vulgaridade”. “Finalmente” – respirou fundo – “faltam alguns dias para me livrar daqueles demônios.” “Mas não está feliz?”, perguntei curioso e cômico ao perceber que a excitação de minha amiga desaparecia dando vez a uma tristeza escancarada no olhar e no corpo desamparado. “Está sentindo alguma coisa”?, perguntei segurando seu braço. “Tenho medo...” “De quê?” Não respondeu. Levantou a cabeça e de olhos baços mirou longe. Falou como se estivesse hipnotizada: “Queria ter vinte anos, começar tudo de novo; pegar a primeira lotação, procurar o primeiro emprego, comer o sanduíche de mortadela no banheiro da empresa, comprar o primeiro par de sapatos, ir à cartomante”... Respirou fundo e continuou: “Ainda sinto o gosto da minha primeira viagem, quando rodei feito pião na roleta e o cobrador me empurrou para dar passagem a uma fila que se formava atrás de mim e me xingava com palavrões.” Parou de falar, escancarou os olhos e entreabriu os lábios tomada de assalto por outra lembrança que vinha atiçar a memória adormecida. Deixou-se levar para um lugar distante onde, provavelmente, havia enterrado os mortos: “Tão alegres!”, disse  melancólica ao recordar as amigas de infância sem contudo me dizer o que havia passado pela imaginação febril. Apesar da violenta descarga sentimental, aquela recordação não passou de uma pálida imagem de um tempo perdido entre perturbações noturnas e devaneios juvenis graças aos quais se livrara da “má fama” alardeada por D. Joaninha. Explicou: “Além da raiva dos meninos, os pesadelos me deixavam com cara de espantalho e todos riam da minha feiúra. Já os devaneios... aiii...” – gemeu ao sentir de novo o prazer solitário tantas vezes repetido no quarto fechado ou no pequeno banheiro do canto do muro – “me afastaram da morte.” Visivelmente abalada com as sensações nunca antes sentidas e de repente transformadas em calor, em febre, em inquietação, em agonia envolvendo-a da cabeça aos pés, fechou os olhos e tentou trazer à mente alguma imagem familiar e feliz. Vieram-lhe, pois, o rosto duro e zangado de sua mãe na eterna rejeição dela e dos irmãos pequenos quando, cheia de cólera e desespero de mãe jovem, lamentava-se e maldizia os filhos: “Queria que o diabo me carregasse”, ou: “queria me ver livre desses demônios.” Foram raros os dias em que a mãe não quis dar cabo dos filhos ou fugir para bem longe deles. O pai reaparecia com o riso patético e cínico ao contar uma das maldades envolvendo fraquezas de caráter de um dos poucos amigos. Imitava a voz e os trejeitos do infeliz numa teatralidade vulgar que provocava gargalhadas estridentes nos filhos capazes de arrepiar o mais estúpido dos moralistas: “Ríamos acanalhado... Meu irmão caçula rinchava e peidava... Papai... como era ridículo!”As reminiscências logo desapareceram e ela foi tomada de assalto pelo odor e as vozes dos passageiros do ônibus. A mulher frágil que sofria e se deixava ouvir parecia agora desperta e cheia de energia ao levantar apressada como se acabasse de sofrer uma fatalidade e o tempo de salvar-se exaurido. Entregou-me a caneta da maneira como recebeu, sem me olhar. Se o tivesse feito, possivelmente teria me reconhecido como um dos companheiros de viagem. Confesso que gostava de observar aquela solitária e nunca me cansei de seguir os passos dela. Gostava de estudar o seu comportamento encolhido, típico de animal acuado cujo menor toque dá um salto e foge em disparada. Gostava da mulher estranha, não sei se pela compaixão que me inspirava ou se pelo prazer que dava contemplá-la imersa numa cápsula de solidão quando todos, solitários na rotina do ônibus, presumi-se, tinham em casa alguém ansioso por uma chegada sempre a mesma hora, alguém com quem iam à missa, ao supermercado, às festas do bairro e de aniversários, alguém a quem amavam, com quem faziam sexo e tinham filhos, com quem brigavam e perdoavam logo depois, alguém...

O ônibus vinha. Pedi parada. Augusta não me viu, apesar de quase tocar meu braço ao se equilibrar nos degraus da porta. Tinha o mesmo semblante ausente e aparentava estar tranquila. Encostou a cabeça no vidro da janela e estirando um olhar vago entre os prédios, automóveis, árvores e toda a miudeza diluída naquele caminho por demais conhecido, deteve-se num objeto estranho. Avistava uma estátua viva erguida na calçada do prédio de lojas, pintada de prata e vestida apenas com uma sunga. O ônibus parou e o jovem magro, aparentando vinte e poucos anos e ar de quem deixara para trás uma cidadezinha igual a que ela também deixara, subiu e se acomodou na cadeira ao lado. Segurava um papel no qual estava escrito provavelmente um endereço. Leu e releu a anotação na dúvida se pedia ou não informação à passageira do lado. Olhou Augusta com o temor e a timidez de quem não quer incomodar. Após alguns minutos de hesitação e tomado de súbita coragem perguntou: “A Senhora é daqui mesmo?” Ela estava tão absorvida na contemplação da estátua viva que sequer ouviu o rapaz. “A senhora é daqui mesmo?”, insistiu o estranho demonstrando inquietação nas mãos. “Não!” respondeu secamente e sem desviar os olhos daquela estátua cuja imobilidade a fascinava tanto quanto a inércia das lagartixas na parede de sua casa. O ônibus parou na Avenida principal, Augusta levantou-se apressada e desapareceu sem deixar rastro. Antes de sumir de vez, porém, virou a cabeça para trás e ainda pode ver o rapaz com a mala e o papel na mão observando o semáforo fechado para pedestres. Sob seus pés destacavam-se duas grandes faixas brancas com setas indicando ida e vinda para quem atravessava a rua. O sinal abriu e o rapaz desapareceu na multidão.

Dois meses se passaram, nunca mais vi Augusta. Nesse intervalo, entretanto, procurei-a todos os dias entre os passageiros: “Onde andará? Terá se aposentado”? “Estará doente”? Fiz essas perguntas a todos que supus pudessem lembrar a mulher cujo nome ninguém sabia mas cuja antipatia conheciam e ridicularizavam: “Aquela velha doida?... É meeess...mooo... Faz um tempão que desapareceu... Terá morrido?" Assim, ninguém soube dar sequer uma pista de onde eu pudesse encontrar minha amiga. Mas uma semana depois, estando na fila do ônibus, percebi uma mulher a quem ainda não havia abordado. E que surpresa tive ao descobrir que as duas trabalhavam na mesma empresa. Sem esconder a perturbação, puxei a mulher pelo braço e procurei um banquinho ali por perto onde pudéssemos sentar e conversar tranquilamente. Ela estava maliciosamente feliz por me dar informações que tanto desejava. Senti vergonha da minha falta de pudor em bisbilhotar a vida de alguém tão reservada e indiferente àquela gente, talvez sequer conhecesse a colega que me falava. No entanto, verdade ou não, ela sabia da existência de Augusta e dos pormenores de sua vida. Dizendo-se preocupada com a saúde dela contou que a amiga tinha insônia e que dera para andar de um lado para outro na tentativa de descobrir o motivo da aflição nunca antes sentida. “Acha a casa triste, solitária. Caminha da sala pra cozinha e da cozinha pra sala sem pensar em nada”, relatou com ar desolado e fingida compaixão. Sabia onde queria chegar e estimulei suas impressões mórbidas. “Conte-me tudo!”, ordenei cheio da malícia e da curiosidade perversa dos amantes:

“Meus parabéns, D. Augusta, a senhora está aposentada!”, ouviu do gerente de Recursos Humanos. Desde então, tudo em sua casa continuou estranho e ausente uma vez que permanecia impregnada do vocabulário vulgar e do cheiro repugnante dos passageiros. Desesperada com a força daquelas sensações tão reais ligou o rádio em alto volume, tomou longos e demorados banhos, perfumou a casa toda e tentou controlar os nervos. Tudo em vão. A presença dos passageiros continuou cada vez mais forte e insistente sobre os sentidos  de Augusta. Desligou o rádio, capinou o quintal, fez um jardim, limpou a casa e foi contemplar as lagartixas velhas e gordas escondidas nas brechas da parede. Porém, pela primeira vez, achou aqueles bichos estúpidos e feios. Só o odor e as vozes dos passageiros tinham poder sobre o seu ser. “Será que só eu não fui?” A agitação tornara-se intolerável, viu mais uma vez a noite entrar pelo quintal e o mesmo pesadelo ameaçando enlouquecê-la: Estava no ponto do ônibus e não havia mais ônibus nem passageiros. Em pânico, corre pelas ruas desertas e não encontra nenhuma parada. Sabe apenas que está numa Avenida larga, cheia de edifícios de lojas fechadas e sem vestígios humanos. Após longos minutos de desespero vê enfim um ônibus se aproximando e estende a mão. Entra apressada e com o olhar ávido procura pelos passageiros. Mas quão terrível é seu espanto ao descobrir que os passageiros já não são os mesmos e que ela agora é uma velha no meio de um bando de adolescentes tagarelas. O celular de um deles alarma... Augusta pula da cama num salto e percebe que o barulho vinha do velho despertador programado há 30 anos para despertar às cinco da manhã. “Graças a Deus, foi só um pesadelo!”, pensou ofegante e limpando o suor que escorria pelo rosto. Ainda desfeita do susto estremeceu ao lembrar alguma coisa cuja importância o sonho havia embotado: “Está na hora!” Correu até a cozinha, tomou o café preto em pé ao mesmo tempo que preparava a marmita. Fechou a porta e correu em direção ao ônibus que apontou na rua. Pela primeira vez alguém ocupava a sua cadeira. “Esta cadeira é minha”, disse irritada à estudante educada e satisfeita em dar o assento àquela senhora de cabelos brancos que entrara no ônibus da linha A. Colou a cabeça no vidro da janela e fechou os olhos: “São eles!”, disse para si tomada de um amor violentamente casto. Queria cantar de tanta felicidade, pois o prazer daquele momento, tão arrebatador quanto o êxtase de Santa Teresa ao ser trespassada pelo fogo da flecha do Anjo sensual de Bernini, levou Augusta a encolher-se no canto da poltrona e comprimir uma perna na outra até sentir o gozo tremer as pálpebras cerradas.

Ana Barros

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O grito

Quem usa o transporte coletivo nas capitais nordestinas está familiarizado com jovens que todos os dias entram nos ônibus para divulgar o programa de recuperação de dependentes químicos ao qual fazem parte. São rapazes entre 18 e 24 anos que fazem o intercâmbio com outros internos que vão para o Estado de onde vieram. Mochila do lado, camiseta com o nome de Jesus, eles discursam com voz alta e cadenciada.

O que mais chama a atenção nesses rapazes, aliás, nunca se vê uma mulher entre eles, é a articulação emocional e carregada de realismo no depoimento de suas misérias. Fico atenta à conversa alta e enfadonha, pois nenhum passageiro gosta de ser incomodado nessas viagens entediantes do dia a dia das capitais. Mas, prestando bem a atenção naquele grito, rape cru, sem acompanhamento, pode-se extrair uma experiência de vida e consequentemente a morte de valores. Aqueles jovens desceram ao inferno e, no limite da destruição, entregaram-se nas mãos do doutrinamento católico, espírita ou protestante, que promete resgatá-los uma vez que o Estado brasileiro não dispõe de programas sérios de enfrentamento da questão, deixando quem precisa de ajuda correr de um lado para outro em pontos de ônibus em busca de socorro.

Quase todos dizem já está fora das drogas e do crime há algum tempo. Casaram, tiveram filhos. Uma família resgatada graças ao recolhimento em casas de apoio, cuja terapia é a via crucis da expiação pública. Além do desafio em se jogar no mundo hostil com as suas dores e as dores daqueles que os amam, vendem kits com canetas, bolsinhas para celular e outras miudezas a preço simbólico para ajudar na manutenção da instituição.

Diante da indiferença social, são apaixonados como um mártir. Acreditam e querem convencer aqueles que os desprezaram que são capazes de reverter a história, de ser um igual. Sabe-se porém o quanto é difícil acontecer essa empatia uma vez que a própria sociedade esconde neuroticamente as particularidades de quem diz que é diferente daquilo que pauta a cartilha moral. Para aqueles vindos das classes populares: o subúrbio, o gueto, a rua, a penitenciária e o manicômio. Àqueles de alto poder aquisitivo: o acobertamento em condomínios fechados, em clínicas particulares de recuperação, em longas viagens ao exterior, jamais a exposição pública dentro de um ônibus como terapia.

A última vez que vi e ouvi um desses rapazes falando o seu rape, comparei a cena com a mesma situação se fosse um jovem de classe social elevada. Para este a confidência com o psicólogo numa sala privada, longe de ouvidos e olhos curiosos. Para aquele, o eleito entre os milhares que sequer chegarão ao estágio do ônibus, a publicidade, a verbalização sem paredes nem psicólogo atento a cada detalhe. Para um, o escondido, o privado, a confiança e socialização. Para o outro, o escárnio e indiferença da maioria dos passageiros que chegam a ameaçar com denúncias à polícia numa demonstração de ódio pela pessoa que se revela como é diante do mundo na esperança de ser aceito e integrado. No entanto, observando a fundo o discurso repetido a cada subida no ônibus, encontramos naquele fluxo ritmado uma riqueza simbólica e uma profunda vontade de viver. E não há terapia mais humana, mais sensível, mais quente do que se expor perante o outro e vomitar o dejeto reprimido.

Ana Barros