sábado, 18 de fevereiro de 2012

Cândida

_ O Senhor sabe como tento... Muitas vezes venho aqui lamentar a minha sina. Há pouco padre Severino aproximou a mão magra da minha cabeça e disse “tenha fé minha filha”. E o que peço é tão pouco... Senhor... não me olhe assim tão severo!... Quando caí àquela vez, lembra?, agarrei-me aos evangelhos e jurei fidelidade à Virgem. Mas o meu coração não tiquetaqueou junto ao dela... Logo esqueci as juras feitas debaixo de soluços à bondosa Santa que, como toda santa, olha do alto as filhas perdidas, e, se quisesse, já teria me aniquilado com a ira dos justos. Naquele mesmo dia acordei no quarto sujo e escuro aos sopapos e gritos do estranho que repetia “puta, ladra, vadia sem vergonha, cadê o meu dinheiro”? Dormente ainda das pingas que bebi, procurei as roupas jogadas no chão e saí correndo antes que a garrafa no ar partisse a minha cara. Ao abrir a porta dei de frente com a Sua imagem melancólica a me censurar... Baixei a cabeça envergonhada e chorei até perder as forças e adormecer sob o peso da dor. Lembra quando eu tinha dezoito anos e João de Deus me levou pro matagal e fez um menino em mim? Fui no banheiro... torci o pescocinho... E foi tão rápido... A condenação, não a do Senhor, que sabe tudo de mim e por isso mesmo só consegue se entristecer perante a minha fraqueza, mas a sentença dos homens que julgam. Naquela manhã de segunda-feira beijei todo mundo, até o guarda que me batia se não trepasse com ele. Estava livre... O Capitão, que de vez em quando pedia pra tirar a roupa e brincar de cavalinho com ele, perguntou-me se queria emprego em sua casa, “claro, agora mesmo”, respondi. E como brinquei naqueles dias... Diziam que eu não valia nada e as mulheres honestas passaram a me odiar. Olegário, homem sebento e depravado, me fez chupar o pau dele das oito às dez da noite quando fomos surpreendidos pela Ronda. Pra não ser expulsa da casa do Capitão, fui levada pela Ronda pro matagal perto de casa. Não vou mentir dizendo que foi ruim... Mas como prova do meu remorso entreguei-me à faxina da casa com a tortura dos condenados. Trabalhei tanto que fiquei doente e passei uma semana sem sair de casa. Mas era noite, sexta-feira e o pagode chegava aos meus ouvidos. Vesti minha saia de seda azul, acima muito dos joelhos, pintei a boca de vermelho e fui me divertir. “Cândida!” Era Zé Grandão. Segurava o cigarro com uma mão e com a outra torceu um beliscão na minha bunda: “Gostosa!”, disse no meu ouvido e, agarrando minha cintura, entramos no baile de línguas laçadas. Pediu duas pingas que bebemos de um trago só. Derrubamos ainda várias doses de vinho jurubeba e dançamos umas dez vezes Ai se eu te pego... O malandro foi me apertando, me apertando, me apertando... até eu sentir o volume que ameaçava furar a calça. Já estava de pernas bambas quando Zé Grandão puxou-me pra detrás da porta e rasgou minha roupa com os dentes e montou em cima de mim. Os olhos reviravam quando alguém gritou “a polícia!”. Cheguei em casa coberta apenas com o casaco de Luiz, o dono do pagode. Minha mãe dizia ter certeza do meu futuro de professora, só porque gostava de desenhar corações nos papéis que embrulhavam os pães da bodega de seu Chico. Se ela me visse agora... Alguém me chamou com voz de cantor. Era seu Santos, o pastor da Igreja Vida Pura, vinha me convidar pra conhecer “a casa do Senhor” e, quem sabe?, ser a mais nova eleita... Pensei: o Senhor cuida de mim... Veio bater a minha porta justo hoje... Beijei as mãos de seu Santos com a devoção de filha e o fiz esperar um pouco enquanto me aprontava. Vesti o vestido cor de abóbora que ganhei da filha do Capitão, “use pra ir à missa!”, ela disse com voz de donzela que conhece o fundo enlameado das mulheres como eu mas que sente grande pena de nós e roga aos céus redenção pra nossos pecados. Confesso que não via muita diferença entre mim e ela não... Várias vezes fingi não ver a sua afilhada, menina ainda, entrando na ponta dos pés no quarto da minha casta protetora. Apagavam a luz e eu podia ouvir sussurros entrecortados de suspiros. Senhor... não franza assim o cenho... Estou apenas repetindo o que é sabido lá em cima... Não fui à missa como queria a filha do Capitão, mas ao culto com seu Santos. A igreja estava vazia e o silêncio profundo me afastou completamente do mundo. Todas as portas e janelas estavam fechadas. Éramos os únicos fiéis envolvidos ali na atmosfera dos anjos. Ajoelhei-me, coloquei a cabeça entre as mãos e lamentei em voz alta, assim... como o Senhor já conhece. Depois de gritar e chorar de braços erguidos para o céu em busca de amparo abri os olhos e vi que alguém se aproximava, lentamente... Era seu Santos. Estava nu e me agarrou. Trepamos debaixo do peso da Cruz. O culto ia começar e os fiéis, com suas crianças inquietas, agitavam-se na calçada. Foi aí que seu Santos, percebendo o avançado da hora e o perigo de sermos descobertos, gozou sem esperar por mim. Depois, abriu as portas e janelas e começou a me bater no rosto e a gritar para todos ouvirem “sai deste pobre corpo, Satanás. Queime no fogo do inferno. Irmãos, invoquemos ao Senhor exorcizar o mal que se apoderou desta infeliz”, disse seu Santos abrindo as portas do templo e chamando todos para auxiliar na expulsão do diabo das minhas entranhas. Não imaginavam eles que o próprio diabo estava ali na minha frente e tinha as virilhas molhadas. Cheirassem seu Santos e saberiam que o capeta era real e não fedia a enxofre, mas a sexo. Depois da longa sessão de exorcismo, exausta e com as carnes moídas de tanto apanhar para ser purificada, alguns irmãos piedosos levaram-me para fora do templo e deixaram-me na calçada sob o olhar de desprezo das irmãs que escondiam os filhos pequenos nas dobras das saias. Arrastei-me até a beirada do muro onde me apoiei e pude ainda ouvir os irmãos repetindo diante do pastor ajoelhado e em êxtase “glória a Deus! Aleluia! Aleluia! Aleluia!”. Corri até aqui e prometi a Santa Maria Madalena nunca mais sair a não ser para o trabalho na casa do Capitão. Já havia se passado uma semana e a única pessoa com quem falei foi Lourdes, a vizinha, que me convidou para irmos ao pic-nic na Praia do Sol. Vi que estava branca como leite. “Que faço? Vou ou não vou?” Lembrei-me da promessa a Madalena... mas a minha pele estava tão branca... Lembrei ainda do biquíni verde-limão com franjinhas comprado no último verão e tão pouco usado... “Vou!” Arrumei a cesta com pães, frutas, carne assada, cigarros e a garrafa de pinga. Abri o bauzinho e escolhi as bijuterias da cor do sol, combinavam com o biquíni. Arrumei a palha do chapéu, apesar dos cabelos longos, que eu podia fazer um rabo, gostava de ir à praia de chapéu, “é sex”, disse um dia Manoel, meu primeiro namorado, quando mentimos dizendo que íamos à missa, mas, na verdade, e o Senhor sabe... fomos foder no monte de feno do curral. Por que Manoel agora? Ora essa! Abri a mochila e arrumei bem apertadinho o óleo de urucum, a garrafa de pinga, o batom vermelho, a água oxigenada para dourar os pelos, o maço de Derby e a caixa de fósforos. Passava das três da tarde quando entrei no banheiro. Raspei-me toda. Às quatro da manhã em ponto o despertador alarmou, mas eu já estava de pé desde às duas. “Cândida!”, gritou Lourdes do outro lado do muro, “o ônibus já chegou, apresse.” Olhei-me no espelho da sala pela última vez e gostei da aparência. Usava um short rosa com blusa amarela, ligadinhos, e tamancos dourados, bem altos. “Está sex”, diria Manoel. Acomodei-me com Lourdes no fundo do ônibus, onde a galera gosta de cantar, batucar, tomar umas e enroscar-se nas pegadas. Cantei, dancei, bebi e enrosquei muitas e muitas vezes... Quase perdi a voz, “ih... meu short”... abriu o fundo... mas que importância tem um furinho no fundo? A praia estava deserta e linda, éramos os primeiros a chagar. Procuramos uma sombra e acomodamos as mochilas e as cestas com a comida. O mar dourado e sensual num vaivém de ondas mortas parecia feito só pra mim. Num instante, percebi que todos haviam corrido pra a água. Olhei ao redor e vi que estava completamente só naquele paraíso de coqueiros e pedras negras. Respirei o cheiro de sargaços jogados aos meus pés pelas ondas selvagens da madrugada. Por fim, tirei o short e a blusa e estirei-me na toalha vermelha. “Ah se Lourdes estivesse aqui pra passar o óleo”... Fechava os olhos de prazer pelas carícias da areia fofa nos pés quando senti uma mão áspera e molhada puxar o meu biquíni e enfiar-me o dedo no cu. Dei um pulo, fiquei em pé e vi Antônio dos Milagres, que veio o caminho todo rezando o terço com a mulher e a filha, se preparando pra me imobilizar na areia. Arrancou-me o biquíni. Fiquei nua com uma mão na frente e a outra atrás. Ele foi se aproximando... Lambia os beiços, mordia a língua, grunhia... Enfim derrubou-me e se escanchou nas minhas ancas já entregues... Mas quando íamos gritar de gozo apareceram do nada a mulher e a filha de Antônio dos Milagres. Partiram pra cima de mim, puxaram os meus cabelos e me espancaram com murros e pedradas. Os amigos do pic-nic, inclusive Lourdes, olharam de longe e com ódio de mim e ali mesmo me abandonaram nua e desmaiada. Saí do Hospital agora e vim até aqui, ó Senhor, mais uma vez pedir o teu perdão...

Ana Barros

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