sábado, 10 de dezembro de 2011

Entre a liberdade e as olheiras

As mulheres que hoje se encontram entre quarenta... cinquenta... se veem diante de um problema crucial: compreender a juventude dos filhos quando elas mesmas não conheceram essa fase da vida pois estavam, à época, ou cuidando dos afazeres domésticos, ou sendo vigiadas pelos pais austeros que deliberavam o que era "bom para uma moça”.

Deixo propositadamente os homens de lado por estes, em sua quase totalidade, não compartilhar a adolescência dos filhos. Primeiro por simplesmente desconhecerem o fato. Segundo, pelas separações acontecerem, não raro nesse momento, deixando a educação dos jovens aos cuidados de uma mãe que se vê, de uma hora para outra, com uma missão além de suas possibilidades. Basta olhar o semblante de uma dessas mulheres depois de se acharem “carregando uma cruz nas costas”. E a “cruz” é o marido ou o filho.

Um dia, uma dessas “vítimas” do casamento espantou-se ao me ouvir dizer que tinha um neto. “Como, você tem um neto? Nossa, pensei que você fosse uma donzela?” Caí no riso e perguntei por que ela achava que eu era “uma donzela”. “Você não tem os olhos de mulher que tem homem.” E como são os olhos de mulher que tem homem? insisti. “Assim como os meus.” E foi aí que percebi as profundas olheiras circundando aqueles olhos infelizes.

Necessariamente nem todas as mães têm olheiras para se sentirem com um peso nas costas. Há aquelas com uma cultura construída nos moldes do feminismo de uma geração completamente perdida com a adolescência dos filhos, cuja infância tiveram como princípios valores defendidos por elas como oportuno e mais próximo de um ideal libertário. Mas eis que as crianças cresceram e essas mesmas mulheres intelectuais e cientes de seu papel racional e menos emocional são surpreendidas com um novo comportamento dentro de casa. O filho mudou, cresceu, não é mais aquele serzinho obediente que tudo compartilha com a mamãe. Está sempre irritado, não aceita mais os conceitos outrora ouvidos com embevecimento, critica os valores dos mais velhos, outrora tão eficazes. Houve mais os amigos, ou seja, o “caos” se instala da noite para o dia sem que ninguém entenda o porquê.

A família lembra que todos se prepararam para receber o lindo bebê. Aprenderam com antecedência os cuidados com a saúde do pequeno, os primeiros socorros, a alimentação etc., etc. Mas o jovem não é mais aquela criança dócil, cheirosa, obediente, macia, tranquila. Tem agora pelos, suor, espinhas, esperma,óvulos, tesão, intransigência, o baseado e... pensamento. O jovem, para espanto dos desavisados, é um ser autônomo. Como lidar com essa evidência sem deixar os olhos enegrecidos de angústia, sem aderir à um seita religiosa qualquer nem achar que carrega uma cruz nas costas?

A mulher madura contemporânea, herdeira legítima de movimentos sociais importantíssimos como feminista, ecologista e, mais recente, homossexual e de liberação da maconha, parece desencantar num mundo no qual as teorias deram lugar ao indivíduo real, efetivo, autônomo, seja ele de que tendência for. Lida agora com um outro e não mais com um projeto dela. Esse tipo de frustração é inerente às mães de jovens da atualidade, pois foram essas mães as primeiras a romper, vale dizer mais intelectual do que psicologicamente, com um passado autoritário e imprimir em suas vidas novas possibilidades existenciais. Só que as suas percepções e atitudes serviram para a reconstrução humana, social e profissional apenas delas. Seus filhos, apesar de expressarem uma ética libertária apreendida dessas mulheres, hoje parecem diluir o que elas assimilaram em três décadas e repassaram a eles como patrimônio valioso. Até então donas da situação, considerando-se suficientemente capazes de administrar a vida pessoal, profissional, da casa e dos filhos, se tivesse um companheiro a situação não seria muito diferente, deparam-se com o que vulgarmente chamamos de “crise da adolescência” quando nada mais é do que uma das muitas facetas do homem. E é justamente nesse instante que a mulher independente e já sem passado, se depara com o desconhecido, algo visceral, humano que a obriga mais uma vez a reinventar-se.

São essas mulheres, que pensavam dominar já uma cultura de gênero, agora as responsáveis não mais somente por uma educação da equidade, mas também pela compreensão e naturalização da adolescência. Infelizmente, são poucos os homens que estão envolvidos racional e emocionalmente nesse processo com as mulheres. Muitos deles, antes dos primeiros filhos completarem dez anos, já estão na terceira ou quarta família. Quantas mulheres de um só homem não se encontram atualmente vivenciando a adolescência dos filhos enquanto o ex-companheiro, quarentão... cinquentão também, se comporta como o próprio filho quando parte para suas primeiras experiências sexuais?

São ainda essas mulheres, cada vez mais numerosas, sozinhas e individualizadas, que dão mostras de que têm competência para compreender não só a si mesmas mas também seus filhos e o mundo. Infelizmente a maioria dos homens, pais e companheiros, servem apenas de figurantes nessa história. A parte principal do enredo, a dura e forçada adesão ao real que pode ser bom, que pode ser mau; que pode deixar de ser mau e passar a ser bom, ou que nem é bom nem é mau quando rasgamos os papéis, ainda é e continua sendo uma imposição cultural às mulheres. Até mesmo viver a adolescência do filho para poder compreender e superar a sua própria, que não conheceu, ou que sentiu e foi obrigada a negar diante de uma moral patriarcal e cristã. Lembremos das bruxas e das histéricas.

Ana Barros

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Trama

Quase nada do que foi é reconhecido
nestes dias em que o olho
claro e luminoso pouco a pouco escurece
e se volta para dentro onde escondeu tudo
que pilhou do mundo
Quase nada do que foi é reconhecido
nestes dias em que a tagarelice converteu-se em mudos e
em lugar da raiva que corrompe,
o vazio que age e age porque é vazio
de tudo aquilo que ocupou inchou e transbordou até a flexão da dobra
maior que se arrasta ao esgoto que corre em direção à coisa alguma
E quando a inquietação à noite alçar à trama
Necessidade vestida de real joga os dados...
... e ganha

Ana Barros

sábado, 19 de novembro de 2011

Cru

Eu ainda não sabia o que fazer com a arma que papai me recomendou antes de morrer. Não sabia o que fazer do objeto nem do cadáver estendido no colchão de palhas. Por que em vez de uma arma inútil não comprou um colchão decente? Talvez não sentisse necessidade de uma cama melhor nem de um colchão confortável àquela altura da vida. Mas dormir mal é apenas um detalhe na vida de quem se tornou precário em tudo, inclusive na saúde, refleti friamente e constatei que, além de só e miserável papai era sujo. Os lençóis, as roupas e o chão davam mostras de que há muito não eram lavados. Um vão servia de quarto, sala e cozinha e ali tudo se resumia numa mistura insólita de restos de comida, roupas sujas, insetos e vasilhas usadas de muitos dias. Meus irmãos, odiados e mantidos à distância pela ira e o desprezo do velho, ainda não haviam chegado e aproveitei para fazer uma busca e, quem sabe, encontrar algo escondido naquele muquifo que levasse a compreender o porquê de uma arma tão potente quando visivelmente não tinha nada de valor para esconder. Lembrei de papai ainda moço sempre na companhia de um facão embainhado. Achava estranha aquela coisa longa e pontiaguda presa atrás, no cós da calça e que fazia um ângulo na camisa esticada pela lâmina. Vivíamos na iminência dele matar alguém, pois era passional e tivera muitas amantes. Mas uma 12? Para quê se estava arruinado sexualmente? Dinheiro escondido? Jamais acreditaria nesta hipótese vendo de perto o estado de indigência em que se encontrava. Mas alguma coisa de valor, material ou não, havia naquele quarto que justificava a presença de uma arma daquele porte. Farejei feito um cão todos os recantos, mas jamais pensei vasculhar o colchão de palha sobre o qual o velho endurecia, não que eu tivesse algum respeito pelo morto, mas pela repulsa do aspecto imundo e, presumi, ninguém com o mínimo de decência meteria a mão naquelas palhas podres de urina pensando encontrar ali algo de valor, opinião completamente errada como veremos adiante. Por considerar que as coisas de valor como dinheiro, jóias e documentos são escondidas em fundo falso de malas, tomando como exemplo pessoas de caráter mesquinho e desconfiado, como era o caráter de papai, abri uma maleta de couro antiga escondida debaixo da cama. Estava cheia de documentos velhos e fotografias antigas. A foto amarela da colação de grau da minha turma de medicina sobrepunha-se às demais. Tomei um susto ao constatar que aquele retrato tinha mais valor do que os outros uma vez que dava mostras, pelas manchas do sebo dos dedos na superfície do papel, de ter sido muito manuseado. Ter encontrado a fotografia da formatura nas circunstâncias em que me achava provocou uma reviravolta no que eu considerava até ali como sendo a minha consciência de homem livre, de homem extraordinário. Extraordinário no sentido mais individualista do termo, pois há trinta e cinco anos não lembrei um dia sequer que tinha um pai, uma mãe, enfim, uma família. Vivi feliz e sem culpa todos esses anos e acreditei haver cortado os laços com o passado até o dia em que recebi o chamado de papai para me entregar a arma.

Fazia o colegial quando comecei a perguntar “Por que esta família? "Por que esta vida ruim?" "Por que esta cidade medíocre?" "Por quê?...” Rubinho era o professor de sociologia e com ele conheci a revolta. De imediato adotei como princípio básico seguir o mais de perto possível as ações dos homens fortes e sem respeito a nada que lhes ensinaram como verdade. Eu queria ser a minha verdade. E sob o olhar de censura de D. Lourdinha, professora aposentada que guardava os livros comunistas a chave no armário, li todos os autores anarquistas que Rubinho indicou e não tendo mais o que fazer ali, fugi de casa mal completei dezessete anos. Pude então destilar o ódio com quatro amigos com quem dividi um quarto no centro de S. P. Não voltei à minha cidade por quase dez anos e nesse período me chapei todos os dias, escrevi versos ruins, publiquei um conto marginal no Zine do camarada Miguel, vadiei no submundo até me cansar e, sem mais interesse por nada da vida tediosa que passei a levar entre as conversas boçais dos amigos intelectuais da Bodega da Praça, as bebedeiras e as fodas com Teresa Corujão, prestei exame para o curso de medicina. Por que medicina? Perguntou-me certa vez uma colega metida a besta que adivinhara pelo cheiro a minha origem. Pela primeira vez pensei na questão e respondi “talvez por ser um curso de pobre”, palavras de Rubinho quando perguntei por que ensinava “porque sou rico!” disse teatralmente dando um salto sobre o birô e assumindo a pose de um deus olímpico. E foi curiosamente devido ao curso de medicina que as memórias do passado começaram a me cercar. E com que mediocridade os acontecimentos voltaram... Pois bem, fui obrigado pelo coordenador da faculdade a colocar a foto de meus pais no convite da formatura. “É o mínimo que podem fazer pela dedicação deles ao sucesso de vocês”, tentava nos convencer o coordenador sem contudo me enfiar no espírito uma só daquelas palavras hipócritas. Sem expressar nenhum sentimento escrevi umas três linhas numa folha de caderno e mandei pelo correio. Quinze dias depois recebi um envelope lacrado com uma foto, nenhuma carta ou recomendação, apenas o retrato em preto e branco de um casal ainda jovem mas com os semblantes visivelmente alterados pelo mau-humor. Quase rasguei a fotografia, pois sabia que aqueles rostos maltratados e vincados por uma história mal engendrada não cabiam num convite de formatura. Fui o último a entregar a foto e, de fato, meus pais ficaram num cantinho da última página, depois do glamour de todos os outros pais. Procurei não dar importância àquela futilidade, aliás, meus pais estavam no lugar merecido. E pelo olhar indiferente dos dois, talvez nem quisessem estar ali. Depois da festa, mandei para eles, em envelopes e endereços diferentes, o convite e a fotografia que encontro agora na maleta. O fato de endereçar o convite só depois da festa deixava claro que não queria encontrar meus pais e fiz com que o assunto se resumisse à formalidade da foto exigida pelo coordenador. Estou de volta agora não por um querer meu, mas por um chamado de papai que, alguns dias antes de morrer, disse à minha irmã mais nova que tinha um “segredo” para me revelar. E foi neste retorno que o mundo caótico que eu havia conhecido logo cedo, e que por isso havia ido embora, pareceu de repente retornar com a força e o realismo não mais das páginas que li há três décadas mas com a violência de um dique que se rompe no meio da noite sem dar tempo de nos safarmos da morte.

Naquele quarto sujo e diante de um morto vi que envelheci como meu pai também envelhecera. Tal constatação mais a presença da arma poderosa e inútil me jogaram para uma realidade até então desconhecida. Por onde eu andei que não fui capaz de enxergar o quadro patético da minha vida? A negação, que escolhi como estratégia para fugir das influências da família, agora se dissipava deixando no lugar um vácuo tão desesperador quanto o vazio trazido pela morte de papai. Diante do corpo inerte eu só conseguia arregalar os olhos e ver com o cérebro e os nervos em descompasso a informação que chegava crua e fria e que repetia aos gritos: “você é cria deste velho sórdido. Você envelheceu e, como ele, vai morrer também.” Estava diante da história que era a minha história e que jamais havia querido apesar da trama ter seguido à revelia. Arbitrariamente ela se revelava por inteiro e me obrigava a contemplá-la tanto fazia ser de bom grado ou não. Papai e eu, um finado e um vivo, dois velhos jogados na correnteza da individuação que um dia estanca em nós e, impotentes, nada podemos fazer para impedir a leva. Era a vitória da morte que eu conhecia pela primeira vez. Olhei de novo a arma e as dezenas de cápsulas de munição sobre a mesa. Admirei o objeto por ser o único bem ao qual papai havia dedicado atenção nos seus últimos dias. Busquei me lembrar de algo que tivesse guardado e que merecesse a importância que ele dera a uma espingarda. Não encontrei nada. Nem lembranças da infância, nem miudezas dessas que acumulamos numa caixa de sapato como troféus de nossos triunfos. Nada guardei nem acumulei. Nem mesmo os pensamentos de transporte para uma nova perspectiva. Os estudos, a residência médica e depois o consultório e os plantões cimentaram o esquecimento e a indiferença pelo que nunca quis nem admirei. Mas o quê eu não quis? O quê realmente eu quis? Vi quase desfalecido que não sabia responder a estas perguntas. Nem mesmo uma arma vagabunda tive. Diferente do camarada Miguel, que não largava do 38 e de vez em quando ia ao baile e atirava só pra sentir o êxtase das meninas em pânico e da perseguição dos policiais. Nem mesmo um casamento, filhos, papéis indispensáveis na vida de todo o homem de bem... Mas eu nunca fui um homem de bem... Se morresse hoje, os curiosos encontrariam apenas os meus títulos de doutor que serviram apenas para encobrir e negar a minha história, uma história cuja sequência continuava na frente da arma e do velho morto. Queria correr, enfiar a cabeça na terra e nunca mais olhar o que vi ali. Mas algo me obrigava a ver de uma vez só a decadência, a ruína de valores tidos como positivos apenas por um homem, meu pai, a nulidade de todos os esforços de um homem que foi jovem, robusto, viril e que agora endurecia velho e sujo em cima de um colchão de palhas podres. Era a entrada no mundo das inquietações do fim por intermédio do esconderijo de um objeto que corria o risco de ser descoberto com a morte do seu dono. A morte do dono que a adquiriu para defesa pessoal e que agora vinha a morte sorrateira e com ameaças concretas e vencia a espingarda que jamais dera um tiro. Nenhum tiro! “Este velho terá sido um covarde?” Franzi a testa e me aproximei do rosto pálido e frio. Mordi os lábios. Lembrei de papai jovem e vigoroso, sempre espancando mamãe, tiranizando as nossas vidas e dos empregados. Ainda agora, perto de morrer, pedia a presença do filho para revelar um segredo de homem velho somente confiado a outro homem velho. Percebi como damos importância às coisas que um dia, inevitavelmente, vão perder não só o sentido mas todo o nosso zelo uma vez que o nosso tempo está consumado e nada mais é capaz de fazer voltar o começo. Olhei de novo a arma marrom dobrada em duas partes pronta para ser carregada. “O que é que eu tenho a ver com esta merda?” Pensei com tanta raiva que entortei o cano da arma. Eu era o responsável pelo destino de um morto e de um estorvo. Se eu sabia da inutilidade de todas as coisas diante da vida e depois da morte então aquela arma era completamente sem valor com o desaparecimento do dono. Arranjei então um saco grosso, coloquei a arma dentro e partia-a em vários pedaços com a machadinha e depois ateei fogo junto a restos de madeira que encontrei próximo à calçada. O fogo mal havia se apagado quando meus irmãos invadiram o quarto parecendo demônios loucos. Sem se preocuparem com a minha presença, suspenderam o morto e o atiraram no chão. Até então eu não havia percebido o buraco no meio do colchão, agora exposto com a ausência do cadáver que fora jogado longe. Com movimentos precisos de quem conhecia o esconderijo, meus irmãos rasgaram o colchão de palhas com as mãos até o molambo de chitão ser transformado em tiras e a palha voar pelo quarto deixando à mostra o tesouro. Dei um grito ao ver enterrado nas palhas podres de urina um lastro de barras de ouro que, num segundo, foram divididas entre meus cinco irmãos que fugiram sem deixar vestígios.

Ana Barros

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Odin

A Alysson N. Barros

Segurando o espelho perto do rosto enquanto encenava
o olhar de peixe morto que você disse ser mais civilizado
que esse farol que trago acesso, herança
de saqueadores e horror dos homens disciplinados,
olhei-me demoradamente e não gostei do que vi e
chamei você no canto da sala de jantar onde eram servidos peixes
de olhos contemplativos iguais aos olhos do Cristo
Segurei a sua mão e fiz você sentar na cadeira de frente à travessa
diante da qual os convidados agradeciam de mãos postas e ar sublime
indiferentes a mim que, exilado entre os mortos, quebrei o espelho e
saltei sobre a mesa erguendo a lança em direção às guelras que
se desmancharam em lama Todos inclusive você
tinham os olhos virados para o alto e clamaram à descida do Raio
E antes de ser levado pela correnteza montei o
meu cavalo de oito patas e sangrei o Cordeiro

Ana Barros

domingo, 23 de outubro de 2011

Confidências de um tagarela

Quando fiz doze anos olhei-me no espelho e disse, “quero morrer aos cinquenta". Ontem fiz cinquenta e o que me incomodou não foi ainda estar vivo mas a mudez do telefone que não surpreendeu com a voz feliz dos amigos, “vamos comemorar”? Talvez tenham até lembrado a data, porém, conhecia o desprezo deles por tudo o que era convenção. E não era por que fazia cinquenta anos que ia ser diferente. Eu é que sou convencional e cheio de entusiasmo pueril, valores ridículos que cultivei como artifício para tê-los em torno de mim, não por serem meus iguais ou coisa parecida, mas por ser, cada um, uma vaidade necessária à minha busca incessante de sensações e discussões intermináveis sobre a mais elementar perturbação que me deixasse de bode amarrado. Há pessoas que nasceram com alguma deficiência física ou mental e são levadas a conviver de bom ou mau humor com as limitações a elas impostas. Eu nasci com uma deficiência, física mesmo. Pois bem, a minha deficiência, mesmo sendo física, é invisível, subjetiva, só eu a conheço e a trato com os meus métodos dialéticos e verborrágicos que chegaram a causar brigas e mágoas profundas entre mim e Mariana, tão doce e camarada, mas tão vazia nas horas de argumentar alguma idéia que eu jogava para o grupo com uma mistura de genialidade e arrogância. Houve um tempo em que não esqueci sequer uma data que achasse interessante para algum de nós. Cheguei a aniversariar três vezes no ano só com o intuito de juntar a turma em torno de vinis de Pink Floyd, garrafas de qualquer destilado, tira-gosto de queijo provolone com azeitonas, maços de cigarro Continental e de longas discussões,cujo propósito era inferiorizar o cérebro do mais fraco de argumento levando invariavelmente aos palavrões e ao rompimento. Mas foi devido a esses encontros frívolos e narcisistas que cheguei aos cinqüenta e não me matei como planejei várias vezes ao contemplar o mundo cheio de ódio. Apesar do temperamento pessimista gozei o prazer dos que só conhecem o tempo presente. Quando dei por mim havia entrado na meia idade e os amigos, todos, tinham desaparecido, talvez se cansado da frivolidade do meu comportamento e desse meu hábito, que desprezavam, de fuçar as entranhas deles tentando arrancar de lá a menor mentira sob a capa de verdade. Fiquei desapontado com o distanciamento e tentei esquecê-los. Mas houve então uma coincidência dos fatos. Há alguns anos, acho que depois dos meus 45, passei a não dar mais tanta importância a datas nem a confraternizações. Talvez o cansaço de sempre ouvir o timbre azedo da minha voz dominando as conversas com um quê de sabedoria e superioridade, reforçando os mesmos conceitos, as mesmas impressões metafísicas que descobria em mim e nas centenas de livros que li e que deles tirava assunto para as discussões febris nas quais só eu compreendia, a descoberta frustrante de que nenhum dos meus amigos, além de não prestar atenção ao que a descoberta representava para nós e de fazerem gozações nas minhas costas, só iam àquelas reuniões para beber um bom vinho e provar da comida saborosa que eu mandava buscar, na minha conta, na Cantina do Portuga. Não nego as perturbações noturnas nem a vontade de procurá-los e dizer o que pensava de cada um quando percebi que as noites haviam se acalmado e o telefone emudecido, que ninguém mais me procurava, nem mesmo para saborear de graça a comida deliciosa. Teriam me esquecido? Mas hoje... Seria tão bom se me ligassem para uma farra qualquer... Eram cinqüenta anos... Eu, o último a entrar na maturidade. O penúltimo, Antônio, esqueceu que havia nascido só para não lembrarmos que envelhecera. Mas eu não aguentei o silêncio respeitoso e procurei ser o mais vulgar e grosseiro ao felicitá-lo no dia em que ele insistia esquecer que havia nascido: “Já encomendou o Viagra?” Ele, óbvio, não entendeu e eu mudei de assunto. Não só Antônio, mas Beatriz, a mais velha do grupo, deixou de dizer a idade e todos esqueceram o dia em que ela nasceu. Mas comigo foi diferente. Esquecido de morrer antes dos cinquenta passei a festejar o meu aniversário sozinho, com o copo de vinho e o silêncio da noite que chega melancólica depois de um dia sem os sinais da presença de quem gostaríamos ouvir bater a porta. Por que não inventei uma festa como fazia antes? Afinal, completava meio século e isso era um bom motivo para ser comemorado. Onde teria ido parar o entusiasmo juvenil que me levava a grandes euforias? Lembrei que quando fiz trinta anos, com uma calvície já bem acentuada e uma barriga de solteirão ocioso, descobri como saída honrosa para o meu fracasso estético entregar-me nas mãos do tempo sem maiores queixas. Descobri no pequeno intervalo entre a inconsciência juvenil e a maturidade amarga, que a fatalidade me atraía e que era impossível conhecer os seus encantos na juventude, quando o prazer se dá em desconhecer não a ruína que vai corromper um dia o nosso corpo mas a ignorância da vontade que incita o sexo. Se algum deles ligasse... Ainda dava tempo de comprar o vinho, as carnes, a lingüiça azeitada do portuga... Bobagem. Como posso querer isso se já não sabemos nada mais uns dos outros? Outro dia, Beatriz, que já havia passado dos 45 e começava a perder o viço daquela carne morena e lisa que tanto desejo provocou entre os homens do grupo, transando com quase todos, inclusive comigo uma dezena de vezes, disse na terapia de grupo que queria virar pó, pois nada mais lhe dizia respeito uma vez que havia perdido a juventude. Eu, que fazia parte da sessão, sem nenhum constrangimento retruquei e disse que o mundo é que não a queria mais. Tanto fazia virar pó ou não um sem fim de outros seres estavam encaminhados ou a caminho. Acho que por não me elevar acima das pulgas é que tenha aprendido a comemorar com bom humor a passagem dos anos. Pode ser que o que diga agora pareça blasfêmia aos ouvidos daqueles que têm horror da banalidade. Pois bem, não saberia existir fora da banalidade onde represento meus papéis e jamais dou cabo de mim mesmo. Paulo e Teresa não compreenderam as minhas atitudes e suspeitaram que eu fosse gay. Lembrei-me desse episódio quando reencontrei a minha primeira namorada dois anos atrás. Ela estava divorciada e eu, se quisesse, teria uma segunda chance. De repente, percebi por que não havia ainda me casado. Ela estava linda, magra, bem conservada sob o milagre dos cosméticos e dos disfarces da costura. Freqüentava a igreja e tinha um belo casal de filhos. Me perguntei o que faria ao lado dela feliz e resignada com a minha falsidade descarada. O que eu faria num banco de igreja ao lado de uma esposa casta e virtuosa, eu, cheio de pensamentos maus? Não. Mil vezes não. Melhor deixar como estava. Não incomodava nada a dúvida de Paulo e de Teresa sobre a minha sexualidade. Até porque, se fosse verdade a suposição dos dois, eu já havia adormecido as pulsões sexuais nas noites e noites de insônia em que me entregava aos questionamentos metafísicos e deles só me soltando quando encontrava uma resposta para as inquietações do espírito que não deixava de ser da carne. Mesmo sem dar a menor importância ao que meus amigos pensavam de mim percebi que algo havia crescido entre nós. Algo do tamanho de uma ponte que não nos sentimos com coragem de atravessar. Não por preguiça ou pela extensão da ponte, mas por medo do que haveria do lado de lá: uma prega no canto da boca desdenhosa de Paulo, os peitos murchos de Beatriz, a prótese na boca de Antônio, os óculos de grau no rosto marcado de Lourdes, alguns fios de cabelos brancos ridiculamente escondidos sob a tintura acaju da cabeleira escassa de Mauro, a obesidade matrona de Teresa, a impotência sexual dissimulada nas piadas libidinosas de Antônio, o flagrante de um casamento falido quando descobríssemos que Paulo e Teresa faziam parte do ECC (Encontro de Casais com Cristo), o meu celibato, o desespero de Cristina ao descobrir que os grandes lábios haviam murchado e que dois pentelhos brancos se destacavam impertinentes etc., etc.? Talvez fosse melhor não nos vermos mesmo. Nada mais tínhamos a dizer a não ser nos embriagarmos e repetir as mesmas conversas requentadas e ociosas do tempo frívolo que nos impulsionava a fazer tudo e a falar o que era para calar. Nu e de frente para o espelho, apanhei meu saco com a mão e descobri que as palavras um dia perdem a elasticidade como a nossa pele e nada mais temos a dizer ao outro uma vez que o cérebro agora se confunde com a periferia do corpo. Descíamos na linha do tempo e devíamos estar com a mesma cara de nojo, com o mesmo mau-humor, com a mesma sensação de ruína que cumula quem envelhece pleno de cinismo. Melhor não nos vermos mais. Evitávamos, além da conversa maçante, o constrangimento do real e o cansaço em responder perguntas vazias como “vai morrer solteiro?” “Como estás gordo e velho!” “Continuas pesquisando aqueles assuntos complicados?” “Por que não fazes o concurso da Receita Federal? O salário é 15 mil”... Mas seria tão bom ouvir a voz do outro lado do fio dizendo “vamos comemorar”? Quantas vezes ontem olhei o telefone... Mas o quê dizer quando as palavras têm sabor de coisa estragada? Sabia que não ligariam, mesmo assim esperei o dia todo perto da mesinha do telefone. Nada. Nenhum alô. Soube que Mauro e Alice são assessores dum político e ganha, cada um, salário de 20 mil reais. Ela fez plástica no rosto, aplicou silicone nos seios e na bunda e aparenta vinte anos. Ele diminuiu a papada e deu volume à cabeleira. Soube ainda que estão sempre viajando pela Índia – fazem parte de uma seita budista – ou passeando no shopping carregando grandes sacolas coloridas nas quais é comum encontrar lançamentos de Paulo Coelho. Confesso que quando soube do sucesso de Mauro e de Alice senti uma pontada de despeito percorrer o estômago. Um dia depois fui ao Shopping, não para encontrá-los, mas para também sentir o prazer que os dois gozavam no facebook. Depois de andar para lá e para cá, de olhar as vitrines e as meninas bonitas que sequer me dirigiram o olhar, senti os olhos míopes inchados de fadiga, pois havia escondido os óculos no bolso da calça na ilusão de encontrar uma jovem que quisesse trocar idéias comigo enquanto tomássemos uma taça de vinho. De repente parei no longo corredor iluminado e perguntei a mim o que faria se encontrasse num daqueles cafés o casal de amigos rejuvenescido, bem-sucedido, otimista e feliz. Gelei da cabeça aos pés e saí correndo em direção à rua onde chamei o táxi e caí no banco ofegante de medo.

Ana Barros

sábado, 8 de outubro de 2011

O anjo caído

Para aquele que é atento às contingências do aqui e agora, qualquer objeto, real, imaginário ou abstrato, que cause impacto, ou “espanto,” como quer Ferreira Gullar, logo se transforma em imagens fantásticas do mundo circundante e, conseqüentemente, libertação. A arte representa essa magia do movimento em direção à redenção do trágico, do drama existencial, do caos contínuo e atemporal da condição humana. O vídeo Sampa Graffiti (http://www.youtube.com/watch?v=-IAX1iDoBgk&feature=related), do artista de rua paulistano Cavera, nos gratifica com uma dessas raras demonstrações em arte. “O anjo caído,” stencil aplicado na parede interna de uma ruína da grande São Paulo, é a promessa do gozo dos falidos, dos oprimidos e excluídos de toda sorte. O anjo caído é a Pietá de Cavera. Como ele diz, nem sempre o anjo é uma coisa boa, mas às vezes é a representação da tristeza, do desamparo. O local e atmosfera encontrados pelo artista para deixar a sua inquietação em busca de resposta não podiam ser diferentes das ruínas de casarões onde perambulam os falidos das grandes cidades. O anjo caído de Cavera repete as grandes intuições que falam do mito da hora extrema. Intuição máxima e causadora do mais profundo sentimento de paixão pela dor do homem. Aqui o artista andarilho e cheio de mundo, que vadiou e sentiu todos os lugares e soube bem definir o que elevaria ao máximo da estética, dá um corte, faz sua escolha e transmuta com ela. É um bailado da vida contra a morte. Um bailado do anjo caído contra a negação desse mesmo anjo. O artista, com apenas vinte e três anos, já sabe o que quer da arte: uma afirmação além de qualquer um dos anjos – bom e mau.

Ana Barros

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O amante

A inquietação dá à luz o objeto em si encarnado
Ser vagabundo que surge na figura do amante
Expansão desenhada nas fibras tensas do engano
que ao mais leve movimento é desmonte:
dorme à saciedade do sonho
até o instante da necessidade desejar de novo o
encontro com o filho extraviado

Ana Barros

domingo, 18 de setembro de 2011

O saco

Amarrava o saco quando num impulso disse a Tânia que parecíamos os resíduos ali despojados e que imaginamos jogar fora sem guardar o mais insignificante dos vermes e que, depois de arremessado, estufamos o peito e orgulhosos começamos de novo a encher. Ora, ora – ela disse rindo o risinho cínico de quem conhece o ilimitado poder da higiene – comigo não! O meu saco eu jogo fora e dele não guardo nem o cheiro. Oh – eu disse – um dia terás o teu saco de volta e atirado no rosto com a fúria de um soco. Mas eu não sou você, que vive fuçando o monturo. Jamais vou deixar que um verme roa minha carne pela segunda vez, respondeu com exatidão. Não será o mesmo... Será um verme mais estranho e poderoso, daqueles que quanto mais esmagamos com o pé mais ele retorna forte, robusto: assim..., disse apontando a larva branca, gorda e peluda que furava o couro podre do rato, cuja carniça eu encontrara no Laboratório e acabava de enfiar no saco. Lá vem você com suas comparações nojentas. Não pode esquecer por um segundo que o que fazemos é apenas experiência e que temos o poder de interferir nos resultados? Quase gritei: Resultado de experiências jamais leva em conta o verme que pulula dentro do saco, que se esconde no subsolo. Interessam só as lâminas assépticas. E ela: E daí que as lâminas assépticas sejam as preferidas? Por que esta insistência com o que é podre? Daí que é um blefe essa conversa de preferidas, de higienização pois o que há é apenas intervalos entre o saco jogado fora e o saco que mais uma vez retorna cheio, mesquinho e insistentemente viscoso, concluí enquanto num gesto teatral agarrava com a pinça o último tapuru e o levei quase a tocar o rosto de Tânia. Posso viver sem intervalos entre dois sacos absurdos, ela disse dando um salto para trás. Basta um movimento assim... Ou então um salto sobre o último verme, disse fingindo abocanhar o tapuru. E impaciente com a conversa ela acrescentou: Por que devo suportar esse argumento de saco vai, saco vem? Por que não acabar de vez com essa sujeira e arranjar-se com o que há de mais limpo e perfumado? Será que Napoleão perdia tempo em encher e secar o saco? Considerei a questão e percebi que jamais em toda a minha vida eu passara um dia sem receber de volta o saco cheio e perguntei satisfeito: Será que Napoleão, estrategista de esconderijos, não deu ordens aos seus soldados para interceptar o saco e atrair o verme?

Ana Barros

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Dezembro

Dezembro é um mês úmido: tudo amolece com o calor e os sentimentos dos homens. Foi assim que me senti na tarde de 24 de dezembro quando fui ao Shopping comprar o presente de Ana. Esbarrei a todo instante com alguém que me dizia como se me conhecesse há décadas: Feliz Natal! O riso superficial e a frase vazia me deixaram também úmido. Minhas axilas transpiravam e percebi duas manchas enormes na camisa de brim azul. Merda! Minha camisa nova manchada... Olá, Vicente! Era Lúcio que gritava vindo em minha direção com o carrinho cheio de champanhe e frutas europeias, ia cear na casa de Marta. Feliz Natal, Vicente, disse apertando minha mão com entusiasmo cristão. Odeio Natal, disse afrouxando o aperto de mãos caloroso. E eu amo, retrucou. Mas... por que? eu quis saber. A gente fica mais humano... suspirou empurrando o carrinho em direção ao estacionamento. Rangi os dentes e senti que quebrara os ovos que trazia nas mãos. Imbecil! Disse baixinho entre dentes quando ouvi alguém dizer: Falando sozinho, Vicente? Era Magali... Feliz Natal, querido! disse correndo para entrar na fila do caixa. Gostei da agitação, evitava o mau-humor da resposta. Desculpa a pressa, Vicente. É que ainda vou ao salão, depois vou pegar o João no escritório e ainda levar Júnior na casa da namorada. Tchau e um beijo na Ana, ela tá bem? Não precisei responder. Aliás, eu nunca respondia a essa pergunta de Magali, não dava tempo. Olhei de novo debaixo das axilas, não havia mais umidade mas uma mancha fedida do tamanho da cavidade do braço. Merda! Como vou abraçar Ana? Paguei o vinho, os cigarros, as camisinhas e a lingerie de Ana. Dezembro é realmente úmido... pensei acariciando o tecido vermelho e macio da calcinha.

Ana Barros

domingo, 4 de setembro de 2011

Eva

Tentei esquecer o dia que engendrou
a cria do parto:
Aí me arrasto e perco de vista
Mãe-sangue
Mas que engano...
Imortal assassina cruel Ela vê tudo e tem ódio
do passo que passa que repassa que passa que re...
... Ai de mim que volto...
O grito do meu infortúnio provocou riso
na boca banguela que engole
Procurei em meu esconderijo algo
que pudesse vingar-me
Num salto
atravessei a rua

Ana Barros

terça-feira, 30 de agosto de 2011

A fatalidade dos grandes

A diversidade e o convívio com as diferenças é ponto afirmativo nas relações interpessoais deste século quando tudo parece vazio de grandeza e transcendência. Insistindo num sentimento de decadência generalizada, os pessimistas, aqui, aqueles que se deixam guiar pelos fatos midiáticos, parecem desconsiderar que já se foi o tempo em que uma única tendência dita regras de comportamento para uma maioria dócil como se a hegemonia de um grupo fosse, inquestionavelmente, verdade absoluta.

Vez por outra algumas vozes apocalípticas vêm à tona mostrar o quanto alguns intelectuais e artistas são inconformados com a transitoriedade das coisas. Lamentam a morte de valores cristalizados por uma cultura crente de eternidade, mas que o tempo, amoral, sem ordem e sem valor, insiste em transformar ou, pior, jogar para trás na vala comum do esquecimento.

Certo dia uma cantora brasileira se queixava na mídia da falta de permanência da música atual. Para ela, a melhor e mais significativa época da música brasileira, inclusive com os músicos de maior grandeza, foi a da sua geração, 1970. E todos sabem de cor os nomes dos escolhidos pela cantora: Caetano Veloso, Chico Buarque, Betânia e Gal Costa.

Esse tipo de desabafo público vem geralmente acompanhado de vaidade e ranço elitista, pois quem foi que disse que atualmente os compositores e intérpretes da MPB são inferiores aos ícones das décadas precedentes? Será que uma cultura é melhor do que a outra? Pode ser diferente, mas nem pior nem melhor do que a anterior uma vez que o presente experimenta a sua própria cultura enquanto o passado nada mais é do que história, conceito a lastrear aqui e ali a imaginação que se dobra a repaginar os cadernos de ontem.

Declarações com esse grau de parcialidade faz perguntar, já que o entrevistador não fez a nossa cantora, se o tempo parou em 1970 ou se o que a gente ouve e tem na conta de música, de lá para cá, não é mais – música?

E foi consumida por essa indagação que passeava domingo bem cedo pela calçada do templo no momento em que uma menina entoava o cântico, ao mesmo tempo divino e dramático. Senti algo maravilhoso e me plantei diante da porta da igreja até o último lamento da menina. Naquele instante ouvi a música mais bela do mundo pela transfiguração momentânea do êxtase, talvez só em mim... ateia.

São muitos os que andam insatisfeitos e melancólicos com os rumos tomados pela música neste século. E nada mais patético do que os shows patrocinados pelo poder público, pagos com cachês milionários a músicos do sul que chegam às capitais do Nordeste depois de velhos, da decadência e da rabugisse e não suportando ser substituídos por novos profissionais. Chegam revoltados e cheios de ódio pelos jovens músicos da atualidade, principalmente das duplas sertanejas. No entanto, uma realidade desses dias, que mais encanta e chama a atenção, é o desprezo do povo por palavras surradas.

Num mundo paradoxalmente global e de indivíduos autônomos – a palavra mais enfática deste século: autonomia – há gosto para cada gosto. Não é mais uma só tendência que dita o momento. E não é pelo fato disso não mais existir, e do efêmero ser uma das características da arte contemporânea, que o povo tenha se desfeito do que há de bom na música brasileira. Existe até maior quantidade, diversidade e mobilidade criativa. E a Internet, sem dúvida, é a ferramenta atual do transporte de uma cultura do culto ao mito entronizado para outra menos, ou até mais, “politizada”, entretanto, muito mais intuitiva, corporal e individualizada, não no sentido moderno e sim no sentido de ser com autonomia.

Ana Barros





domingo, 21 de agosto de 2011

Buraco negro

Você pede para eu falar de mim
Teria eu algo a ser dito...
Que dizer de buracos negros
Tão obscuros quanto a minha voz?
Por que falar de
Um coração corrompido se não tem
A clareza das palavras que fingem?
Melhor fechar os ouvidos
Trago lírios nos olhos
E lâminas nos sentidos
Vire as costas
Você não me viu

Ana Barros

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Flores mortas

Lourdes tem um gato
Andréia tem um cachorro
Ana Luiza tem um passarinho
Papai tem um amigo que é louco
Mamãe joga baralho à noite
Titia vê a novela das oito
E eu... flores mortas
Abri a janela e elas voaram lindas...
As flores que recortei e bordei na ausência
Do gato do cachorro do passarinho do louco das cartas
E de Você que não é gato nem cachorro nem passarinho nem louco
Nem gosta de jogar baralho nem vê TV à noite

Ana Barros

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Magno

Fosse o quê estava prometido. Você porém quis uma outra história: um igual. Participou de todas as marchas... O mundo é tolerante pois você é um igual. Passa na mesma Avenida que... Pensa pensar igual, faz poesia igual. Eles aplaudem seus versos ruins premiados com a medalha do ouro falso e dizem não haver pecado nem vícios na morte. Você compra a oração. Ontem replicava no Templo quando B, amigo de infância apareceu com a doze em punho e olhou você com ódio e gritou cuspindo seu rosto: “És um veado!” Você abaixou os olhos e ele gritou mais alto ainda: “Minha oração é a arma cuspindo fogo nesse mundinho de merda.” Você rezava agarrado à Cruz. B sabe quem é...

Ana Barros

terça-feira, 19 de julho de 2011

Metafísica

Da janela vi passar silenciosa
A lagartixa
Ela e o mundo...
E eu... por que não...
Segui o caminho dela
E o meu coração sabia
o começo e o fim do dia
Lagartixa não...

Ana Barros

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A corda

Hoje depois de vomitar o que comi em casa pensei: há plenitude no meio dos lobos O sangue não corrompe o animal O rosto de mamãe tem expressão de santa Papai e mamãe... Papai mamãe e meus irmãos... Culpa redenção culpa... Alguém mostra a Lei e diz temos laços E você pergunta: pode o lodo ter a magia da Esfera que não para senão pra começar tudo de novo pois não se sabe pai, pois não se sabe mãe filho ou irmão, e sem os laços que manipulam saltar sobre o precipício? Pode,
digo desatando a corda

Ana Barros

domingo, 19 de junho de 2011

Os semelhantes

Deixei o auditório ainda cheio. Saí mais cedo, confesso, pela incapacidade de permanecer ali apesar de saber que naquele espaço havia todo tipo de vaidade, paixões, inveja, bajuladores e disputa velada na exibição de símbolos da moda como computadores, móveis, jóias, obras de arte, carros, roupas e acessórios caros, todos esses elementos podendo servir de assunto para um texto rico de miudezas e futilidades. Aliás, saía porque conhecia as entranhas do ambiente e nada do que diziam ou exibiam estimulava uma imaginação corrompida pelo cinismo como a minha.
Como repórter de cultura chafurdava já há bastante tempo no submundo daquela gente cuja vaidade os fazia semelhante a atores de circo representando para plateias deslumbradas, ou então, por excesso de cegueira, alheios ao que o outro diz, sente e pensa. Nesse sentido, alguns cochilavam, alguns falavam ao celular, outros deslizavam os dedos pelo tablete e uns dois ou três, o que, num lugar silencioso parece ter efeito de multidão, sussurravam e riam entre dentes. Diante da apatia generalizada, nem mesmo a ira de alguns intelectuais sisudos que saíram antes de mim, conseguiu humilhar os palestrantes, aplaudidos de pé sem que ninguém soubesse por que.
Saí sem ser visto. Aliás, era impossível alguém dar pela minha falta quando não é comum em ambientes carregados de pompa, dar pela ausência de um jornalista ranheta que tudo faz para queimar a pauta e tripudiar do ocorrido nas entrelinhas malignas que vai editar no outro dia numa coluna elegante e lida por leitores cultos, aqueles que compram jornais e acham que são bem informados lendo artigos criados por indivíduos como eu que escreve rangendo os dentes e cuspindo a bílis.
Saí quase correndo com receio de fazer barulho e alguém me ver feito um rato esgueirando entre as poltronas e as lindas pernas das damas de sociedade. Chovia forte e já passava das vinte e uma horas e eu tinha de redigir muitas laudas para o caderno especial cujas páginas seriam exclusivas do Colóquio daquela noite.
A pista estava deserta e escura. O transporte não passava e para meu desespero o debate chegava ao fim. Não pude evitar o constrangimento quando alguns colegas da TV Y passaram por mim gritando adeus J de dentro do carro com vidros levantados e em alta velocidade. Aliás, todos foram embora em alta velocidade deixando para trás apenas a vaidade gravada e transformada em textos, fotos e imagens exibidos na Internet, na TV e no rádio como a última conquista da ciência. Pensei na montanha de papel ricamente editado, distribuído e jamais lido, jogado sobre as poltronas e os tapetes, cujo lixo agora era varrido pelos zeladores silenciosos e apressados que sequer tinham a curiosidade em saber de quem era a cara sorridente e cheia de botox da fotografia.
Resolvi apesar da hora avançada e do perigo iminente caminhar um pouco e apanhar o ônibus mais adiante, pois havia um posto de combustíveis a uns duzentos metros e lá, com certeza, haveria de ter um fluxo maior. Desejei que alguém passasse ali naquele instante para me fazer companhia. E olhando para os lados vi duas mulheres que se aproximavam. Esperei por elas e as segui. Pareciam pedintes de meia idade, cheias de farrapos e grandes sacos pendurados nas costas, talvez sejam catadoras de recicláveis, pensei considerando ser mais criativo me aproximar das duas uma vez que a conversa poderia resultar numa matéria bem mais interessante do que a que deixara para trás.
Andava com pressa e remoia o mau humor por ter demorado tanto tempo sem tomar a decisão de ir embora e agora caminhava na pista deserta, molhada e correndo risco de ser assaltado ou atropelado. Estava entre duas estranhas cujo aspecto era completamente oposto ao dos colegas que deixara para trás. Mesmo assim, fiquei feliz em encontrá-las. Além de ajudar a apanhar o ônibus com mais rapidez podiam ser, ao contrário dos companheiros de debate, uma possibilidade fraterna naquele deserto em que me encontrava só e ressentido. Puxei conversa. Fiz várias perguntas e não obtive nenhuma resposta. Logo veio a confirmação de que avaliava quando deveria apenas seguir as duas mulheres em silêncio, pois meu objetivo não era fazer entrevista nem amizade, mas sair dali o mais depressa possível. Infelizmente não consegui controlar os impulsos nervosos de repórter tagarela nem o desejo de agradar minhas companheiras. De novo a indiferença. Pensei: elas não são diferentes daqueles que eu deixei para trás com tanto desprezo...
Insisti mais uma vez e perguntei se iam na mesma direção que eu. Sem responder, a mulher de semblante desconfiado olhou por baixo dos olhos papudos de álcool e cheios de malícia, desprezo igual ao meu quando abandonei o debate e saí correndo para não ser visto. Pediu dinheiro. Não tenho! respondi apressado e enfiando mecanicamente a mão no bolso e apertando meus R$ 10,00. Sem nenhum constrangimento, como igualmente agiram os colegas ao saírem em disparada em seus carros fechados, ela atravessou a rua e foi embora na escuridão profunda. De longe, ainda chamou com um grito a amiga, mas esta, de olhos baixos e sem expressar desprezo, parecia realmente preocupada comigo e não me deixou sozinho no meio da pista. Não perguntou nem pediu nada. Andou em silêncio até o terminal do ônibus onde embarquei molhado, com fome e derrotado.

Ana Barros

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Madalena

Hoje decidi ficar em casa Há quanto tempo não fico em casa... longe das palavras Sem barulho Sem dialética Em silêncio e na surdez beata saborear a solidão que enterrei na sala de jantar Estou sem voz e todos estão longe... Quis assim Sem ruído E como é bom alongar na cama nua e só Quantos olhos tive por perto adivinhando... Hoje estou nua e ninguém pra fingir que não estou nua Toco nas feridas sem sentir o odor Estão menos podres do que quando implorei a você cicatrizasse Perdi o nojo e hoje apalpo como pedaço nobre de mim Em casa e em silêncio deixei de ouvir os infortúnios que, somados aos meus, perderam eco Batem a porta... Gritam meu nome... Chamam... Alguém soluça... Conheço bem o gemido Por que não vou? Estou surda, e muda O grito é meu: um sopro sem forças pra derrubar... Tantas vezes morta por ele... Mas hoje o silêncio é sólido... e a flacidez da minha alma

Ana Barros

sábado, 21 de maio de 2011

Perspectiva

Alguém passa estridente
Multiplica-se entre vitrines sois girassol
formas cliques fragmentos
Ao infinito pingos de cor
E a cor não conduz
o olho que desbotou em ver
floresta de pedra
o céu tingido de chumbo
Vagueia na multidão de coisas odores
ruas carros shoppings e miudeza chinesa
Não mergulhar na correnteza o grande Nó
A dor perdeu a gravidade
Deixou-se banhar de tintas
Virou imagem

Ana Barros

sábado, 7 de maio de 2011

Senhora do labirinto

Passava sonâmbula na encruzilhada quando
A boca amargou de vez e a alma verde se fechou
Perdia para sempre o poder de naufragar
No fosso onde tantas vezes caí sem ressurgir:
Compaixão de irmã amante e mãe
Deusa da mais precária realidade emergi
Do labirinto onde colhi os fios
E me enforquei ao ver o Sol

Ana Barros

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Delicadeza

“E abertamente entreguei meu coração à terra séria e doente, e muitas vezes, na noite sagrada, prometi amá-la fielmente até a morte, sem medo, com a sua pesada carga de fatalidade, e não desprezar nenhum de seus enigmas. Dessa forma, liguei-me à fatalidade por um elo mortal.”
Hölderlin (A morte de Empédocles)

É comum elegermos o ódio como sentimento perturbador e nefasto. Todo o nosso tempo tratamos de desejar, para nós e para o outro a quem admiramos, a ausência do ódio. Negamos mesmo o ódio como parte necessária à vida dando ao amor status substancial. O amor que nos redime da guerra, da dúvida e da incerteza. Nem que seja por um instante queremos amor, jamais o ódio, apesar de este continuar entranhado a confundir, a criar armadilhas.

O ódio é o sentimento que impele ao conflito, à batalha contra ou a favor de algo que ameaça ou favorece. Tomados de uma dose de êxtase mortal jogamos os dados e assumimos uma postura, certa ou errada, moral ou amoral, em favor exclusivamente de nós. O ódio é poder. Querer absoluto. Triunfo sobre o diferente, o débil, o fraco. Quem administra o ódio alimenta-se da ira que enrijece e afasta-se da confusão e do medo, valores desprezíveis para quem conhece o poder em si e limita seu território a alvos de alta precisão objetiva.

Para a acomodação de todos na terra vale aqui ressaltar que quem é mais afeito ao amor que ao ódio sabe que carrega em si alta dosagem de crueldade, dureza, ódio também, mas uma dosagem generosa de poder criativo, de poder redentor porque fragiliza, aniquila, compreende e abraça o feio, o cruel. Duro porque afirma a vida com todas as experiências positivas e negativas. Tem o ódio como etapa última a ser vencida nos momentos cruciais entre negar e afirmar o grande individualismo; negar ou afirmar o amor que faz do tédio a catástrofe e desta o paraíso; negar ou afirmar a desilusão como matéria para o advento de uma possibilidade concreta. Enxergar o amor como luta triunfal, realidade ou fantasia que morre para dar lugar a algo ainda não conhecido, ainda não fato.

Ana Barros
Natal, 07/03/03.

sábado, 30 de abril de 2011

Evasão

A minha alma enjoava de mim quando você ligou convidando para acompanhá-la ao bar do pequeno Shopping. Aceitei antes de você terminar o convite. Era pois a oportunidade ideal para curar o tédio; ocasião adequada para evadir-me no meio de um punhado de gente feliz que eu sabia encontrar por lá. Um tributo a Elvis Presley, ídolo de juventude ainda lembrado pela minha incurável necessidade de romantismo. Caprichei no visual: jeans, correntes, aneis, pulseiras, acessórios que me reportavam a uma época cuja melancolia escondi no comportamento trágico de alguns poetas. Aproveitaria o momento sem evidenciar a dor, até porque não havia mais dor. Simplesmente esqueceria o eu nalgum canto escuro da consciência e, junto à multidão, cantaria e dançaria tão embriagada quanto uma bacante. Vinte e duas horas, o telefone chama, é minha amiga que espera na portaria. Ela, o marido e um amigo escritor – marxista. A festa estava animada. O espaço pequeno porém de atmosfera de aconchego e calor do burburinho enfumaçado e alegre. A maioria, como eu, usava roupas pretas, brilhantes, coladas, com as formas gorduchas e flácidas aparentes e risíveis. Os músicos, encharcados de baseado e conhaque barato, imitavam Elvis num virtuosismo carregado de cacoetes. Não perdi tempo, logo me deixei levar pela corrente de alegria que imperava. Não fazia quarenta minutos que esquecera de mim quando minha amiga, o marido e o amigo marxista disseram, com o grande enfado dos que não suportam a alegria, que iríamos embora. “Isso é uma miséria, vamos pra outro lugar”! “Oh, mas me divirto tanto! É tão bom ficar no meio dessa gente feliz!” “Feliz! Mas isso não passa de uma farsa, de uma dissimulação grotesca”, retrucou raivoso o marido já dando partida no carro. Sentada no banco de trás, agora em silêncio e de posse do meu eu, pude observar os três companheiros de noite sem deixar de sentir um profundo desprezo pelo tédio que faziam questão de ostentar como triunfo sobre a vulgaridade. O escritor, depois de profundo silêncio e muito refletir, disse duro e sem se mover do lugar: “ninguém esquece de si. Somos o tempo todo presa de nós mesmos.” Pensei que fosse sufocar diante daquelas palavras falsas e sem um mínimo de fantasia; diante daquele corpo redondo, pesado e com um quê de perversão gritando na pélvis feminina. Não conseguindo conter um outro eu que se manifestava malígno disse num tom falsamente amigável: “mas meu caro, só é capaz de esquecer o eu quem o adormece na evasão do sonho e da loucura. O seu, mesmo se quisesse, seria impossível. Você, sem saber, o afirma o tempo todo.”

Ana Barros

A morte do prefeito

Ele era o prefeito da cidade. Humano. Um tanto paternalista, admirado por muitos e odiado também por muitos. O estilo sensual e sofisticado, simples em todos os sentidos, fez com que na hora extrema a casa se enchesse de amigos, estranhos e correligionários de todos os lados da cidade e de regiões vizinhas para vê-lo uma vez mais. Da sala à cozinha, do quintal ao quarto do enfermo formou-se uma longa fila com pequenos aglomerados comentando em voz baixa as suas peripécias. Agonizava diante de uma multidão, cuja curiosidade dissimulada em lágrimas não dava para dizer se era de compaixão ou maldade: “Será que ele entende alguma coisa”? indagavam os mais sensatos sem querer acreditar que aquele homem desmemoriado e com câncer nas cordas vocais, há pouco tempo altivo, voluntarioso, fosse chegar ao fim sem a lucidez e ascese moral de um Ivan Ilitch na hora da morte.

Semelhante a Ivan o Prefeito teve também sua grandeza moral, orgulho, vaidade, sensualidade, qualidades que fazem de um ser mortal parecer aos demais, comuns e vulgares, uma espécie de deus adorado justamente pelo seu comportamento exuberante e alheio às convenções e regras sociais. Completamente intuitivo e sem instrução, sabia apenas ler e escrever muito mal, tinha gosto apurado para a moda em todas as vertentes. Na música, consumia o melhor que o mercado oferecia no momento; nas roupas e acessórios, ele e a mulher, compravam em lojas especializadas da capital; na culinária, os melhores restaurantes da época. Era um assíduo freqüentador do Grande Hotel, único hotel de luxo da Natal da década de mil novecentos e setenta. Carros, casas, passeios, sempre o melhor. Ah! o primeiro televisor da cidade foi ele quem comprou, ainda não era prefeito, para assistir com os amigos em sua casa a Copa do Mundo de 1970. Formavam-se plateias barulhentas todos os dias na sala ampla e sem cadeiras para acomodar todos, principalmente homens.

Dado às coisas do mundo, o Prefeito poderia muito bem entregar-se ao luxo e ao orgulho dos heróis programados e, longe dos eleitores, na sua torre de cristal propositadamente criada por algum profissional do marketing, provocar na imaginação do vulgo as mais apaixonadas lendas. Mas não foi assim. Não havia na cidade quem, como seu convidado, não comeu em sua mesa e nos melhores restaurantes da capital; não só experimentou ótimas refeições em ambientes caros, mas banhos de mar e piscinas, jogos no Machadão (Vasco da Gama, time do coração), vaquejadas, bares e todo tipo de festa pagã e religiosa. Poderia alguém insinuar: “Era político, tinha interesses!” Porém, não. A política para ele, como a fortuna do pai e a herança do sogro, vale lembrar que o Prefeito jamais trabalhou antes de ser prefeito, era mais um meio de confraternização ampliada, confraternização tão expandida que o levou ao vício e à morte precoce aos cinquenta e três anos.

Bebeu. Fumou. Amou. Dançou. Agora estava sem razão... e tinha câncer. Será que no meio daqueles curiosos havia inimigos? Sim, o Prefeito tinha inimigos. Naquele momento muitos deles rondavam seu leito de morte apenas com o intuito de gozar de perto a agonia de quem se atreveu desdenhar a religião, a moral, a tradição, apesar de, paradoxalmente, ser profundamente religioso, pois não era devoto de São José e de Nossa Senhora de Fátima? Não ia à missa aos domingos e pedia a bênção e beijava a mão de sua mãe, dona Ritinha, que o amava mais do que às duas filhas, não porque a amasse também, mas por ser ele o mais doce, o mais silencioso, o mais sublime... ou não seria o mais...dissimulado? Quantos porres! Quantos adultérios! Quantas lágrimas derramadas pela esposa! Quantas amantes desoladas... e maridos corneados!

Alguns contemplavam o moribundo como a querer naquele momento final que ele pedisse perdão pelas suas depravações. Mas era tão somente o desejo de homens sérios, sensatos e virtuosos que, ao contrário do Prefeito, amavam a ordem e respeitavam as leis sem jamais, apesar de todo um trabalho de convencimento, ter conseguido conquistar o dândi para as trincheiras moralistas. Qualquer intenção, boa ou má, era inútil naquele momento. O Prefeito não mais via nem conhecia ninguém. Nenhum gesto ou juízo atingiria sua honra, se é que ele acreditou que a tivesse um dia de acordo com os seus contemporâneos.

A cama estava posicionada de frente para a porta. Quem entrasse na sala de estar já dava de cara com o doente. As carpideiras choravam e desfiavam o rosário de lamentação. Os evangélicos estavam lá também e ajudavam com seus cantos desprovidos de humanidade a aumentar ainda mais a indiferença no semblante do Prefeito. Do homem pleno, cujo mistério na hora da morte jamais saberemos se escondia paixão ou desprezo, restava a imagem impotente sob a vigília do fim.

Havia perdido a voz e a consciência, elementos supérfluos para quem entra noutros territórios que não os espaços previsíveis da tagarelice do homem normal. Nele, o olhar magnífico de quem desconhece por completo o tempo e a sua nulidade. Olhar longo, vertical, parado no instante presente; olhar anunciador de que entrara em contato com algo além da compaixão dos que o contemplavam. Ele não mais o sedutor ébrio de ilusões, mas o último tic tac de uma natureza sem culpa.

Ana Barros

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Um toque banal

Já se passaram quinze anos e não ouvi mais
O toc toc da mão magra a me chamar
Ritmo
Das articulações no vidro branco da janela
Além do qual você
Ansioso e feliz se retratava
Odiei o silêncio das páginas que li
E reli na ilusão d’ainda ouvir
O toc toc banal
Da janela de vidro a embaçar

Ana Barros
Natal, 03/02/10

domingo, 24 de abril de 2011

Epitaph

Conheci recentemente Epitáfio, da banda inglesa King Crimson. E graças à Internet, pude ter acesso a essa música de tão alta qualidade poética e metafísica. Comparei de imediato a complexidade da letra a uma das histórias de Kafka, Diante da lei (capítulo de O processo), que li há algum tempo e, semelhante a Epitáfio, me deixou durante vários dias com um peso, uma sensação de derrota, mas ao mesmo tempo de inquietação básica dos que forjam no caos a fenda da travessia. Ouvindo Epitáfio compreendia o drama kafkiano que viria a ser sentido e ritmado pelos roqueiros progressistas de King Crimson.

Epitáfio é um lamento à jornada do homem num mundo hostil e insensível às peculiaridades do que é humano. O ponto alto da música é quando o vocalista, com a voz triste e suave sentencia: “Entre as portas de ferro do destino foram semeadas as origens do tempo.” Por mais que se desespere o homem não consegue derrubar as vigas que o separam da existência feliz. “A confusão será o meu epitáfio. Enquanto rastejo por caminhos tortuosos. Se conseguirmos todos poderemos sentar e rir. Mas temo que amanhã estarei chorando. Sim, temo que amanhã estarei chorando”, lamenta o músico sem demonstrar esperança diante dos exemplos reais de massacre, injustiças, violência e todo tipo de exclusão no mundo finito dos homens.

Para o Sísifo de Epitáfio apenas a expulsão do paraíso, a sarjeta e a morte como castigo eterno para quem espera redenção concedida e não potencialmente conquistada por um indivíduo pleno de suas forças e discernimento. “Se conseguirmos todos poderemos sentar e rir. Mas temo que amanhã estarei chorando.” Aqui a crença numa revolução, crença num ideal de paz planetária, crença num sentido, mas ao mesmo tempo dúvida e lágrimas num mundo no qual não se apresenta nenhuma segurança, nenhuma porta aberta por um Messias.

No entanto, no comecinho da música – “ As paredes nas quais os profetas escreveram estão rachando. Sobre os instrumentos da morte a luz do sol brilha resplandecente” – há uma visão de aniquilamento e superação se o homem souber aproveitar o instante de profunda dor e conhecimento diante de um sol que brilha resplandecente. Mas o homem dividido entre um imaginário divino e um existir pleno suspeita que em vez de sorrir vai chorar. E as portas de ferro estarão para sempre plantadas no umbral de quem se atreve intervir no Destino.

O capítulo Diante da lei (O processo – Kafka) é bem semelhante à profecia de Epitáfio: “Diante da Lei está um guarda.” Esse guarda não vai deixar jamais o cidadão da província entrar na sala. Além dele, há uma infinidade de guardas imediatamente superior. O homem insiste passar pela porta e o guarda o repreende severamente: “Se tanto o seduz, tente passar contra a minha proibição!” E o desiludido camponês, depois de contemplar mais de perto a cara brava do guarda “chega à conclusão de que esperar é melhor até que seja outorgada permissão para entrar.” Aqui também o homem enfraquece diante do poder invisível, diante da força da Lei, uma Lei que não é vista e cujo desconhecimento tem que ser obedecido ou então forjada uma abertura. Uma Lei que obriga o sujeito esperar indefinidamente até que lhe seja outorgada a passagem. Infelizmente não vamos encontrar em Kafka a realização dessa outorga, dessa superação niilista com toda a sua consequente carga problemática. Para nossa frustração o personagem morre de tanto esperar diante do guarda impassível, que espera em vão um impulso de rebeldia do camponês contra a ordem estabelecida.

O pesadelo, as portas de ferro, as paredes nas quais os profetas escreveram e que estão rachando, o guarda terrível impedindo o conhecimento da Lei são símbolos que ilustram o imaginário do homem de Epitáfio; do homem esperançoso de algo eterno e fora de si, Algo a quem possa entregar seu destino finito e tortuoso e poder enfim sorrir com os outros no paraíso eterno de benesses. Mas ambos, Epitáfio e Diante da lei, à semelhança de Esperando Godot, de Beckett, representam a busca angustiante de redenção além das contingências existenciais, as quais se apresentam com toda a fúria concreta, deixando os homens cegos de esperança espantados diante da recorrente negação de paraíso, de unidade, de felicidade e necessidade de guerrear com todos os obstáculos contrários a sua particular e universal autonomia; outorga não de um ser metafísico, mas da vontade que afirma sobre a vontade que nega, da vontade que se revolta diante das portas de ferro e do guarda que ameaça.

Ana Barros
Natal, 17/04/2011.



Epitaph
King Crimson
The wall on which the prophets wrote
A parede nas quais os profetas escreveram
Is cracking at the seams.
Estão rachando
Upon the instruments of death
Sobre os instrumentos da morte
The sunlight brightly gleams.
A luz do sol brilha resplandecente
When every man is torn apart
Quando cada homem se distancia
With nightmares and with dreams,
Com pesadelos e sonhos,
Will no one lay the laurel wreath
Ninguém colocará a raivosa coroa de loros
As silence drowns the screams.
Quando o silêncio afoga os gritos


Between the iron gates of fate,
Entre as portas de ferro do destino
The seeds of time were sown,
Foram semeadas as origens do tempo
And watered by the deeds of those
Pelos feitos daqueles
Who know and who are known;
Que conhecem e são conhecidos
Knowledge is a deadly friend
O conhecimento é um amigo mortal
When no one sets the rules.
Quando ninguém estabelece regras.
The fate of all mankind I see
O destino de toda humanidade eu vejo
Is in the hands of fools.
Está nas mãos de loucos

Confusion will be my epitaph.
A confusão será o meu epitáfio.
As I crawl a cracked and broken path
Enquanto rastejo por caminhos tortuosos
If we make it we can all sit back and laugh,
Se conseguirmos todos poderemos sentar e rir
But I fear tomorrow I'll be crying,
Mas temo que amanhã estarei chorando
Yes I fear tomorrow I'll be crying.
Sim, temo que amanhã estarei chorando


Diante da Lei (O Processo – Kafka)
www.esquerda.net/media/Diante_da_lei.pdf

Esperando Godot (Samuel Beckett)
comumlugar.files.wordpress.com/.../samuel-beckett-esperando-godot.pdf

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O carretel nu

O corpo nu do carretel vê enfim
as possibilidades das dobras
desdobradas no fluxo das horas
e do movimento que puxou
a ponta do novelo jogado ao tempo

Em volta os fios alinhados
à luz que tudo quer objeto
Os fios desenrolados
sob a magia da ilusão e do engano
que perde o medo e a necessidade de enlinhar-se

Distendidos espraiam a força e a beleza soberana de cada
dobra desdobrada da Extremidade Íntima
até o carretel se desligar do último e que é
(também) o primeiro Ato

Ana Barros
Natal, 26/03/2011

sábado, 9 de abril de 2011

O céu ainda está cheio

Tenho admiração por leitores disciplinados que frequentam livrarias e costumam adquirir os lançamentos de ocasião. No entanto, leio aleatoriamente o que vou encontrando pela frente, principalmente se já foi lido e comentado por algum leitor. E esse hábito me leva a frequentar bibliotecas e sebos a procura de livros que chamam a atenção pelo excesso de manuseio e por quem escreveu o quê. Quanto mais velho, amarelado e marcado por manchas de dedo, mais me atrai.

Guardo na estante algumas raridades que conservo com cuidado para reler quando o tempo pede. Hoje terminei de ler, pela terceira vez, Thais, de Anatole France. O volume, de bolso e impressão vagabunda, está tão velho que fede e dá nojo manuseá-lo pelo aspecto seboso em que se encontra. Porém, aquele livro me encanta do jeito que é e jamais desejaria outro, novo e com edição de luxo, pois tem marcas de várias leituras e anotações de quarenta anos. Foi neste volume pequenino e amarelo que descobri Thais, personagem que dá nome ao título, paradoxalmente livre, trágica e ironicamente presa ao dogmatismo religioso, tratado por Anatole com grande sarcasmo e crueldade. Onde já se viu o corpo vencer a alma de um cristão? Pois é com esse intuito que ele vai mandar ao nada uma cultura de crenças arraigadas.

Reli Thais desta vez depois de muitas discussões com meu filho sobre outro tema que se irmana com o dogmatismo, a hipocrisia. Hoje, de cima dos meus cinqüenta anos e conversando com um jovem de vinte, pude iluminar por completo as nuvens que manchavam minha consciência a respeito dos dois temas. E, sem surpresa, percebi que ainda não passamos da transição moderna; que nos afogamos ainda na lama obscura da hipocrisia e do dogmatismo. Por mais informação, conhecimento, tecnologia, pós-modernidade ou hipermodernidade, continuamos patinando entre o medo, o dogma e o salto para o silêncio e vazio do céu.

Este texto nasceu há mais de vinte anos e só agora tenho a compreensão necessária para escrevê-lo, pois me dei conta do limbo dogmático em que patinava. Pois bem, este texto começou há mais de vinte anos quando descobri que a família mais unida, mais encantadora e feliz que eu conhecia era uma mentira amparada em dogmas. Como sentia inveja daquela família risonha, sem problemas, unida na dor e na alegria, nas camaradagens e no sigilo de suas fraquezas: o lacre classe média pequeno burguês cristão impedia que soubéssemos algo feio germinado no seu interior. E eu, nascida de uma família sem educação nem princípios cristãos sérios, completamente explosiva e sem sigilo, sem nenhuma cerimônia com o privado, vinha de um ambiente onde rasgávamos as confidências na mesa, na hora das refeições, nada ficando para o dia seguinte. Resolvíamos os conflitos no instante em que o fato se consumava. Aquele jeito selvagem de ser da minha família me deprimiu e levou à negação de uma cultura que só agora descubro, dava mostras de poder do corpo contra a alma.

Pois bem, um dia, o filho caçula daquela linda família se matou jogando-se de cima do viaduto. Recebi a notícia com espanto. Como, um jovem tão feliz?... universitário, classe média, branco, católico, boa pinta e com uma namorada linda e rica? Como?... Fiz esta pergunta durante anos e, na limitação conceitual de minha consciência não encontrei reposta convincente. Mas não desisti de levar a questão adiante. E nesse meio tempo meu filho cresceu e se tornou um furacão de ideias, rebeldia e ação. Mas aquele modelo de família equilibrada, pacífica, sem conflitos dormitava no meu mais vergonhoso medo e covardia. Quis impor o modelo ao meu filho. Ele gritou não! E aí começamos a longa jornada conflito adentro.

Frenquentei muitas vezes ainda aquela família e cada vez vi algo feio que me atirava para longe do mundo limpo e feliz que eu conhecera. Mais para frente soube que naquele reduto sagrado sondava o incesto, a loucura, tentativa de homicídio, alcoolismo e homossexualidade velada. Quase perdi a razão ao me reconhecer tão idiotamente ingênua. Entretanto, é problemático jogar fora um couro cultural que curtimos ao longo de uma existência. Quando nos dispomos a fazer isso não basta só vontade. Tem que ter completa abertura para um mundo múltiplo e sem fronteiras entre o ser e o devir.

O germe da tortura estava implantado e dei início à quebra de valores que já não proporcionavam outra coisa senão medo. Mas medo... de quê!? Ora, foi no medo que nossos pais foram buscar regras para nos controlar, fonte esgotada e vazia de sentido num mundo contemporâneo pautado pela ausência de regras e de limites que não sejam construção da autonomia do indivíduo. Quando meu filho gritou não! ele negava com veemência o medo e queria experimentar, aprofundar ou não, os riscos dos quais toda a minha geração fora poupada em nome da honra, da virtude e da moral copiada da cartilha cristã/burguesa.

Quem tem hoje entre quarenta e sessenta anos é cria do medo e, paradoxalmente, já que são herdeiros também de toda uma cultura moderna, querem reproduzir o medo. Medo inculcado por fraqueza e covardia para assumir a existência real como se expressa através de nossos impulsos, corpos e sexualidade que, mesmo reprimidos, continuam vivos e expostos ao conhecimento de uma percepção aguda que, ao deter os olhos sobre a miséria dissimulada, logo dá conta do selvagem submerso. Após muito tempo e chegada a maturidade, enxerguei enfim o oceano de má consciência em que insistimos boiar.

E foi com a compreensão de algo que só a insistência do germe da perturbação nos leva a afundar no lodaçal, que conclui recentemente a leitura de Thais. E o que mais me impressionou no romance foi o final, quando o abade de Antinoé, Paphnucio, tem enfim a alma vencida pelo corpo e aqueles que o adoravam como santo enxergam em seu semblante exaltado de desejos sexuais a figura de um vampiro. Por que vampiro? Talvez a imagem tenha sido usada pelo autor por representar a eterna fúria do desejo e da morte sobre a carne. O abade é a encarnação viva dos impulsos sexuais que a Igreja nega e recolhe à periferia do corpo como imundície. Paphnucio não consegue de forma alguma, mesmo com todos os suplícios e tormentos do deserto cheio de demônios que o tentam dia e noite, ser espírito santo. Termina a história com o santo cristão tomado pela consciência despertada e revoltada contra Deus, a metafísica e a má consciência.

ALÉM DE SANTO ANTÃO

Em Thais, Anatole France, pensador moderno, faz uma devassa nas crenças da Igreja na época em que Santo Antônio (ou Santo Antão- nascido em 251 e falecido em 356) foi tentado pelo diabo no deserto do Egito e resistido aos encantamentos do demo com muita penitência, reclusão, afastamento do mundo e dos desejos da carne. Paphnucio era um dos monges seguidores dos ensinamentos do Santo. No entanto, quanto mais renunciava ao mundo e se auto-flagelava, mais tormento e fracasso na empreitada conquistava, ele um homem jovem, ex-aluno de filosofia junto ao filósofo cínico Nicias, de Alexandria. Ambos tiveram uma história mundana nesta cidade de gozo, prazer, luxo e banquetes regados de todos os tipos de fantasias sexuais e discursos filosóficos, tão em moda naquela época dos grandes debates em torno do absoluto, da verdade, da relativização ou negação das coisas.

Aos grandes políticos, religiosos e filósofos da época, juntavam-se cortesãs e atrizes de sucesso do teatro, que levavam juventude, beleza e divertimento aos homens ilustres e entediados. Thais era a atriz-cortesã do momento, a mais nova encarnação de Helena de Tróia, segundo Nicias, e que Paphnucio (inconsciente de seus desejos sexuais pela beldade), pensava estar predestinado a salvá-la do mundo. Mas coitado, tinha apenas ciúmes da mulher que ia para a cama com muitos homens ricos e felizes. Ele, cada vez mais se tornava hediondo, miserável e louco, pois escondia no fundo se si o instinto bruto do gozo. Isso fica evidente quando, perversamente, vence Thais e a arrasta descalça pelo deserto e, torturado pelas lembranças lúbricas dela com Nicias e os outros amantes, cospe-lhe no rosto e profetisa sentenças terríveis.

O que mais chama a atenção em Thais é a perversão do dogma que toma forma na superfície da carne. Por mais que Paphnucio expulse o demônio de seus domínios, mais seu físico aparenta ser dominado pelos instintos. Fato que leva todos os santos do deserto olharem-no com ressalvas e conselhos para uma observação maior dos mandamentos de Deus. No entanto, o pobre religioso sectário, o anti-herói de Anatole, jamais encontrará Deus apesar de ter a convicção de sua presença. Ele estará para sempre atado às necessidades da terra e da carne. Em Thais podemos ver a agonia do homem moderno que mata Deus e dá início, ainda que cheio de revolta metafísica, o seu destino num mundo vazio de céu.

Thais, ao contrário de Édipo, morre por ter conhecido, por ter visto demais e não suportar a vida sem dogmas. Não faz concessões nem ao luxo nem ao amor, nem tampouco à lucidez última de Paphnucio, que os transportaria ao paraíso terreno. Paphnucio, ao contrário, desmascara o dogma. Nega com ódio o Deus que o abandona depois de todos os sacrifícios e de toda entrega para resgatar Thais, ou seja, para salvar a moral das mãos dos homens pérfidos, ele também, um homem pérfido, cheio de vontade, desejo e ardendo de paixão por uma fêmea. Ah, é de enlouquecer o pobre monge de Antinoé, cujas forças e energia foram desperdiçadas na exaltação de uma mentira, de uma loucura, da luta vã da alma contra o corpo.

Ana Barros
Natal, 21 de março de 2011.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Obscenas

Tantas vezes ido e vindo até chegar em mim
Anfitriã do que é de todos e de ninguém: o presente
Nele não posso ficar...
A roda gira e joga para trás...
A roda gira e ressurge à frente...
Cenas...
O mundo novo de novo é
...........................Tempo.............................

Ana Barros

quinta-feira, 17 de março de 2011

Cheiro de seiva de alfazema

Objetos não morrem
O capacho à porta do banheiro
Não sabe o tempo que o esfrega e molha
Os utensílios da cozinha
Ordenados em tábuas suspensas acima do fogão esperam
As mãos que tocam os primeiros acordes:
Pedro dorme feliz ouvindo a mãe pisar o alho
E as latas de leite vazias enferrujaram na mesa gasta

Aroma das folhas mortas do jasmim e do Segundo Sexo de Beauvoir
Entre as teorias também mortas de Beth Friedman e Muraro
Acende a luz no canto escuro da estante junto à roupa rosa desbotada
Costurada na máquina de pedal Mercswiss decorando
A sala

À tarde as sombras provocadas pelos fungos suspensos
No muro de tijolo avermelhado
E as imagens surreais das telhas mofadas
Trazem lagartixas preguiçosos que passeiam lânguidas pelas frinchas

Mais uma vez abre a mala de madeira vinda de casa
E o cheiro de Seiva de Alfazema é carnaval fantasia papangu
Infância sem guarda

Ana Barros

sábado, 12 de março de 2011

Retrato da morte

Eternamente cheio. Enfermarias coletivas. Pacientes nos corredores sobre macas: o Hospital público é humano. Os quartos jamais ficam vazios nem de portas fechadas. Façamos uma visita num dia qualquer da semana e perceberemos a falta de privacidade dos enfermos. Caminhando pelos corredores vamos dar com a vergonha e a intimidade alheias arbitrariamente expostas a quem quiser ver. Criaturas pálidas, esquálidas, quase nuas pela funcionalidade ridícula das batas ou pela completa falta de roupas e de atenção dos familiares e dos funcionários, olhos profundos e resignados pela dor, dóceis aos afagos de quem os percebem: um espetáculo da dor do outro. Dentro do Hospital público todos são obrigados a abrir mão da vergonha e da vontade de poder: obedecem.

O Hospital privado é diferente? Em termos. Há neste, devido à ostentação de padrão de consumo elevado, ou da cultura do medo da morte, junto à falência da saúde pública, que força a classe média comprometer boa parte de sua renda com plano de saúde, um certo recolhimento do paciente. O quarto, não! apartamento, é individual, limpo e asseado. Apenas amigos mais próximos e familiares entram nele. Para o doente, conforto e minimização dos sofrimentos e constrangimento que acarreta o momento. A porta se fecha. Esconde-se o sofrimento atrás das paredes, debaixo dos lençóis e sob analgésicos poderosos. A mística da compaixão coletiva, quando se trata de pessoa pública, tende a aproximar esse tipo de enfermo à imagem do santo. Distanciado de todos e cobertas as feridas, ele padece, ou convalesce, longe de olhares mórbidos e curiosos, cuja repulsa do que é humano exige a morte como troféu, pois sua condição (do enfermo) pequena foi aberta ao mundo e este não suporta fraqueza, arranca tudo o que deu de graça: força, viço, juventude, poder. Deixa para trás apenas ossos e uma precária consciência não importa se pobre ou rico.

Mas o pior é quando o enfermo é anônimo no Hospital público. Sozinho, doente e indigente. Recorremos demasiado ao termo indigente sem nos dar conta de sua perversa significação. Indigente não seria... não gente? O doente está lá, estirado ou encolhido no leito, em silêncio absoluto. Sofre. Fala com o invisível, ninguém o socorre, nem pode. Num estágio já avançado da doença esquece... Entrega-se. Falam apenas dois olhos sem mais vestígios de esperança. Mas o olhar do enfermo do Hospital público, talvez por ser público, é pesado de redenção, se faz gente. E o que é feio, hediondo ao nosso juízo de valor, na contemplação desse doente se transforma em essência de nós mesmos, ou beleza que se confunde com a morte. Não sabemos aí o limite entre as duas, beleza e morte, uma vez que conhecemos a ambas; uma vez que estamos, depois de contemplar a miséria do outro, plenos de nada, ou de nós mesmos?

Ana Barros

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A cidade e a poeta

A cidade acorda. Passos. Carros. Ruídos. Sol. Tudo se junta num abraço infernal. Queimam os olhos do passante que busca um lugar ameno e sombreado. Tudo fere e se desmancha no fluxo da passagem. Correm. Todos correm. Carros, gentes. Correm e desaparecem... reaparecem e correm na sofreguidão dos segundos que também correm. Trabalhadores, mendigos, loucos, vadios, putas... correm. Viciados de toda ordem perambulam ou se escondem nas ruas dissimuladas e generosas. O passante fecha os olhos, amarga-lhe o fel que oprime a garganta e pensa: “ninguém se suja no mar de lama em que se afoga”. Engole o trago. O sinal abre. Correm, correm, correm todos. Tudo. E de novo reaparecem irmanados, velhos móbiles. O passante para. A fumaça do cano do ônibus entra-lhe nos poros. Gritos de alguém oferecendo felicidade à varejo: padres, evangélicos, sem-teto, ambulantes, políticos, demagogos, todos gritam. Pessoas passam – indiferença.

Mas lá está ela sentada na calçada do prédio antigo e sujo. Prefere locais encardidos e abandonados, como ela. Está sempre lá, debaixo do viaduto, onde o esgoto escorre rio adentro; nas paradas de ônibus, local ideal para acomodar os misteriosos sacos, cheios e sujos ninguém sabe de quê. Mas tem papel e lápis. Cruza as pernas esquálidas e imundas. O rosto, maquiado com crostas de sujeira, assume aspecto nobre de quem sonda o incomensurável.

Poeta, artista... deusa? Segura o toco do lápis com peso metafísico: olha além... Desenha, escreve, rabisca. Folhas e mais folhas vão se amontoando entre os farrapos e o lixo que, presume-se, carrega naqueles volumes. Sempre só e majestosa. Convive com a canalha. Dorme em becos promíscuos e mau-cheirosos. Mas está sempre só no seu mutismo e delírio. Ausente... Ela é indiferente à cidade que borbulha na espuma do nojo. É invisível. Desliza na multidão que ignora, ela, que também ignora.

Ana Barros
Natal, 09/08/99

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Vaidade

Assistia à novela quando
o artista famoso exibiu a glória do ouro
no pescoço nos anéis e nas lindas roupas do Shopping
Me lembrei do buraco
no calcanhar da sua meia branca e suja de um mês
(Sem que soubesse vi e fingi não ver
os fiapos a necrosar o pobre acessório)
Considerei “É do poeta rasgar as vestes e abrir as veias” As suas
tinham tantas fissuras que a camisa de brim azul
balançava ao vento
Mas hoje vi de novo o buraco no calcanhar
da sua meia branca e suja de um mês e você viu que eu vi
e fez o buraco maior

Ana Barros

Últimas sensações de um ateu

“Um sopro

E logo entrarei no Vazio...
Mas enquanto durar
Estou Aqui

Descubro que sinto
Do jeito de ontem
E a foto ao lado zomba de mim
Entretanto, deixou de ser:
Vivo fora do tempo sem Tempo do retrato

Já não falo
Nem ando nem como com as minhas mãos
Deixei de trepar
Mas um sopro
É Tudo

Alguns vieram me ver e lamentam
O que não faz parte de mim
Ah se eu pudesse jogar pra fora este pó...
Mas a boca amolece
E eu esqueço...”

Ana Barros

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Santa Rita: a porta do céu*

Santa Rita: por quê? Pelo distanciamento, pela leveza diante do desconhecido, por ser lugar onde as pegadas e a voz do homem se desmancham com as pedras e as ondas. “Mas existe tal praia”? Ora, se não existisse inventaria com a força da imaginação que vem em momentos de tensão e nos leva ao delírio e aí esquecemos as horas, tocamos pessoas, coisas, pedaços de mundo com a fantasia que se eleva acima do que vive.

Santa Rita entrou em minha vida como um desses objetos que a gente faz questão de conhecer só pelo prazer de descobrir paraíso. Santa Rita seduz pela aura de inocência, melancolia e malícia. Quanto êxtase experimentei ao descer do ônibus às dezoito horas e caminhar lentamente pela faixa estreita de praia que se bifurca com pedras escuras, areia e vegetação selvagem. Instante mágico em que o homem se despede da ação do dia e mergulha na quietude da sombra, sombra que coloca a dúvida sobre a certeza da solidez do mundo ao penetrar sorrateira morros, telhados e consciências.

Sempre procurei chegar em Santa Rita às seis da tarde, hora do recolhimento do que vive, até mesmo do mar que recua dócil em seu leito, de onde podemos ouvir o suave respirar de seu sono. Sublime silêncio: harmonia dos elementos. Pude sentir diante daquelas pedras negras e daquele mar que se cala uma profunda sensação de acolhimento. Durante muito tempo fui a Senta Rita como quem vai ao templo a procura de Deus. Mas lá também encontrei o Diabo, um labirinto aonde pude caminhar, me esconder e adivinhar o feio que ali se deixa arrastar pela inclemência do sol e a indolência das ondas.

Vi de Santa Rita os últimos raios de sol que pincelavam o céu de Genipabu, a coloração avermelhada do oceano que se arrasta cansado nas areias mornas e desertas ou, olhando para o nascente, saboreei a doçura tristonha das ruínas do casarão que é derrubado pela fúria do mar junto ao abandono à ferrugem e ao tempo do fusca de Marcelus Bob e das esculturas efêmeras de Guaraci Gabriel.*

Quando a noite cai em Santa Rita parecemos anoitecer com as pedras e o mundo. Deixamos de existir e já não temos peso algum: o tempo nos esquece, a escuridão nos engole, podemos ver sem os olhos, somos olfato, poros, algo escondido cochicha, sussurra. Há algo que não podemos aprisionar.

Nasce o dia em Santa Rita... e nada sobrevive do sono a não ser o corpo que salta de novo no mundo. Agora é burburinho, areia quente. E quantas vezes o sol vai voltar pra esconder o indizível ao rasgar o céu já sem bruma, expor os corpos, as carcaças, os odores, as dores, os vícios e os gemidos que só o dia desperto escancara e transforma em espetáculo.

Ana Barros
Natal, 13 de janeiro de 1999.




*Porta do Céu foi o tema da megaexposição promovida em Santa Rita, em 1999, por Guaraci Gabriel. Dela fizeram parte vários artistas, da praia e de Natal. Foi um mês inteiro de festa dionisíaca.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O peso da pluma

No primeiro instante admirei a bolsa grande com aplicações de flores também grandes e de cores variadas. Que material? De couro, respondeu a dona. Mas as flores também são de couro? Sim, as flores também são de couro. Passei alguns dias com a imaginação recorrendo àquele acessório com suas rosas imensas tomando todos os espaços da parte frontal. Não conseguia compreender por que alguém se interessava por um objeto tão grande, com flores tão absurdamente grandes, cujo peso provocava mais espanto que admiração.

Entretanto, lembrei que uma imagem não se apresenta só, isolada na cultura que elabora e reelabora modas, tendências, relações sociais e econômicas. Aquela imagem era apenas uma entre as milhares que dançam no cotidiano e desaparecem para dar lugar a uma infinidade de outras. E aí me veio a lembrança do verde-amarelo-azul e branco da Copa, dos tênis de cores carnavalescas, das bijuterias gigantes de múltiplas cores e materiais diversos, das tatuagens, dos bordados do nosso folclore em moda no mundo todo, do excesso de elementos ocupando todos os espaços vazios, das flores múltiplas ornando vestidos, mesas, paredes e até obras de arte de conceituados salões contemporâneos.

LEVEZA E FRIVOLIDADE

Em Seis Propostas para o próximo milênio, Ítalo Calvino compara a Leveza com o peso do pássaro e não com o peso da pluma. No começo do texto diz: “no mais das vezes, minha intervenção se traduziu por uma subtração do peso; esforcei-me por tirar peso, ora as figuras humanas, ora aos corpos celestes, ora às cidades; esforcei-me sobretudo por retirar peso à estrutura da narrativa e à linguagem.” Seu pensamento direciona para o milênio que estava para nascer, com suas complexidades e globalização. A bolsa daquela moça reportava às inquietações de Calvino em relação a uma era que nascia da fadiga de uma civilização tomada por crenças, ideologias, correntes e tendências, isto é, uma cultura pesada de sonhos.

Calvino observa a leveza que assume características de sublimação de peso como opressão. Referindo-se à Insustentável leveza do ser, de Milan Kundera: “o romance nos mostra como, na vida, tudo aquilo que escolhemos e apreciamos pela leveza acaba bem cedo revelando de um peso insustentável.” Aqui percebemos a complexa relação com o mundo físico na qual se depara o homem contemporâneo. No tumulto dos objetos e das imagens ora ele busca o excesso de peso, ora busca o excesso de ausência de peso (vazio) nas formas e relações sociais, cuja fugacidade, às vezes, inquieta e desaba no niilismo capaz de levar à leveza desejada por Calvino e por aqueles sensíveis aos códigos subjacentes ao discurso aparente. “As imagens de leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonho”, diz o pensador ainda considerando: “ há uma leveza do pensamento, assim como existe, como todos sabem, uma leveza da frivolidade; ou melhor, a leveza do pensamento pode fazer a frivolidade parecer pesada e opaca.” Aqui, contrariamente ao indivíduo que se “descarrega” visando se libertar dum peso opressivo, atitude política e ativa, nos deparamos com o homem vazio que busca a efetivação na multiplicidade do objeto ou da imagem que se desfaz e não na objetivação por meio da retirada crítica de elementos que já não provocam vontade nem pensamento.

A bolsa gigante com flores também gigantes simbolizaria o excesso de signos e a ocupação frenética dos espaços, comportamento possivelmente disseminado no vazio de uma cultura pouco sedimentada em padrões educacionais, comportamentais e de consumo enraizados em valores de ordem menos volátil, voltados mais para o autodesenvolvimento do que para as necessidades de consumo industrial que têm na aquisição dos objetos um símbolo de afirmação e poder?

Alguns críticos consideram kitsch a necessidade de visualização para qualquer instante ou evento, que perpassa não mais uma classe social, a qual se referiu cheio de ódio o jornalista Luiz Carlos Prates, em comentário na televisão, após feriado no qual morreram 150 pessoas no trânsito, culpando uma parcela da população pelas mortes e qualificando-a de “miseráveis”, “desgraçados” e que “nunca leram um livro” e por isso, incapazes de possuir um carro, mas se globaliza e se afirma de acordo com o padrão sócio-econômico de cada um. Pois não seria kitsch a foto de Elizabeth Taylor, tomada, cada milímetro, por diamantes? E as feiras e bienais de livros com milhares de títulos de autoajuda e volumes que tentam vender pelo colorido, pelos escândalos de celebridades e biografias questionáveis? E as feiras literárias, com presença de celebridades, salões e bienais de artes visuais com exposição de trabalhos e performances bizarras? Livrarias invadidas em finais de semana por visitantes barulhentos levados até lá por necessidade de diversão e fuga do tédio, não seria também kitsch? E a família real da Inglaterra, afundada em dívidas e escândalos, ser resgatada pela mídia que divulga e repete com estardalhaço o casamento do príncipe Willians e, atualmente, Julian Assange com as fofocas do Wikileaks etc., etc.?

DIVISÃO TECNOLÓGICA

A falta de comedimento massificado na forma, no gosto e no gesto da cultura de consumo dá a impressão de que perdemos o senso estético e metafísico do real; que caímos no vazio da banalidade. O excesso de imagens, com a aquisição de câmeras digitais, celulares e acesso facilitado à Internet, ou seja, com o poder de compra acessível, somos tentados a acreditar que todos usufruem dos mesmos elementos, espaços, gosto, conhecimento e informação. Nada mais enganoso quando descobrimos o que cabe a cada um na hora de fazer a partilha no mundo da tecnologia e da informação.

Aparentemente, e isso representa poder, há uma hegemonia, uma ditadura de produtos e tecnologias, que deixa grande dúvida acerca do que compramos e usamos. O vestido que a celebridade exibiu na festa do Oscar pode ser encontrado no outro dia, “igualzinho”, na feira popular ou na casa da costureira da periferia; a cama Box, hoje todo mundo tem uma cama box, é vendida tanto na loja chique quanto na mais ordinária; a bolsa que a madame comprou em Paris pode ser adquirida por um décimo do valor no camelô da esquina. A profusão de artigos, lojas, promoções, cartões de crédito, empréstimo consignado, universidades particulares, planos de saúde, viagens aéreas, Shopping Center em série etc., etc., induz à ideia da harmonia dos contrários, de felicidade, de satisfação, de ausência de classes sociais, pois todos não estão comendo, vestindo, frequentando os mesmos espaços e assistindo as mesmas coisas?

ELITE DA FORMA

Lourdes, colega de trabalho, voltou de férias da Europa, viagem dividida em quinze meses. Mostrou-me um aparelhinho de última geração comprado numa loja em Londres. Ao contrário da dona da bolsa de couro gigante com flores gigantes, ela nada ostenta em excesso. É professora pública, tipo classe média baixa. O aparelhinho é um e-book. Pedi para ver alguns livros que havia baixado. Todos de Paulo Coelho e algumas biografias de celebridades do mundo dos espíritos e da autoajuda. Compreendi então o sentido da bolsa gigante. Era o mesmo sentido dado àquele minúsculo aparelho eletrônico: ambos significavam a posse da “leveza da pluma”.
Aqueles dois símbolos contemporâneos, a bolsa gigante de couro com suas flores gigantes e o minúsculo e-book, representavam tão somente velhas criações travestidas de novo que se acredita pós alguma coisa que se acha vanguarda. As duas situações faziam parte da propalada democracia dos bens sociais, da informação, do conhecimento, das artes e da imagem. No entanto, havia nesse meio, escondida, elitizada e exclusiva de uns poucos, uma terceira forma de percepção, de criação, de uso e assimilação.

Aqui, como em todos os tempos, apesar do esforço da militância socialista na defesa da igualdade entre os homens, devemos lembrar da hierarquia, da exclusão, da seleção, do filtro no mundo da informação, do conhecimento e das artes. A terceira forma é aquela que tem conhecimento do que é mito e do que é real. Uma minoria que conhece o substrato do poder e por isso usa critérios a respeito de como usar os meios de informação, sabe diferenciar conhecimento de informação, autenticidade de mistificação. Enxerga além das inovações tecnológicas, as quais são realmente neutras, não uma revolução humana, uma nova cultura, mas fórmulas surradas, preconceituosas e secularmente usadas para dominar e submeter.

É uma elite, no sentido social do termo, quem decodifica os signos, quem compreende a superficialidade do jogo planejado e executado em nome da maioria. Basta ver o que a Internet divulga em dezenas, centenas de sites. Basta ler os jornais diários, ver televisão e uma grande parcela dos blogs para descobrir que o veículo é uma rede maravilhosa na aproximação real e instantânea com o distante, contudo, a mensagem ainda continua refém da mesma roupagem viciosa e medíocre. Um exemplo desse simulacro com aparência de verdade é a onda de boatos e patrulhamentos sobre uma variedade de assuntos que, se houvesse realmente cultura da informação, os responsáveis pelos meios já teriam minimizado seus efeitos negativos. Mas o que se vê ainda são páginas de sangue e perversões migrando do jornal impresso e da tela da TV para o clic digital. Isto é, mudamos de veículo, entretanto, a mensagem continua a mesma para aqueles não mais carentes financeiramente, mas carentes de simbologia cognitiva.

Concluindo, entre a vulgarização da imagem, da forma e da palavra, há uma elite com acesso ao conhecimento e à tecnologia da informação, portanto, possuidora de uma percepção capaz de separar o joio do trigo. Isso é um sinal de que a publicidade, como sempre, ideológica em cima da democratização do conhecimento e da informação começa a ser, mais uma vez, desmistificada. Quando a histeria da homogeneização de costumes, da globalização de valores e culturas parece assumir uma verdade, o pequeno número, como sempre, reaparece e lembra, mais uma vez, que o mundo continua desigual e os homens diferentes.

Ana Barros
Natal, 19 de dezembro 2010.